Capítulo 4 Capítulo Quatro

Diana

O vento rasgava meu cabelo enquanto eu avançava. A areia prendia meus pés, como se quisesse que eu voltasse.

Eu não podia. Porque eu tinha ligado para aquele número.

Foda-se.

Se fossem traficantes de órgãos, que levassem o que quisessem. Rim, sangue, qualquer coisa. Eu queria tratamento para o Thomas.

Era uma casa de praia que se estendia sem fim, de um jeito que fazia meu estômago se revirar. Nenhuma outra casa. Ninguém. Só o contorno de um prédio de pé, sozinho.

Esse lugar ficava a uma hora de ônibus, e eu não tinha o luxo do tempo, então decidi gastar os últimos cem dólares que eu tinha em toda a minha existência — e isso só me levou até o entroncamento.

Então eu tive que terminar o caminho a pé.

Congelei na hora e dei dois passos para trás.

“Porra, você de novo.” Spike, com a cabeça enfaixada, disse, o rosto retorcido de raiva.

“Sai da frente”, eu disse, tentando soar cruel, mesmo com meu pulso disparando. “Eu não vim aqui por sua causa.”

Um sorriso lento e feio apareceu nos lábios dele. Ele deu passos vagarosos na minha direção.

“Vamos ver como você vai passar por mim.”

Cerrei o punho com força. O vento soprou mais alto; eu conseguia ouvir meu coração batendo dentro dos ouvidos.

Apoiei o peso no pé direito, enfiando-o na areia, pronta para golpear.

Dessa vez ele não chegaria nem a um palmo de mim.

“Spike.” A palavra única cortou a tensão.

Ele congelou.

Eu olhei devagar por cima do ombro dele. Ela estava na varanda elevada, observando, com olhos dourados que pareciam enxergar através de mim. Engoli em seco, agarrando um punhado da minha saia e apertando o tecido.

“Ela é minha convidada.” A voz dela era calma, mas tinha peso.

Spike travou o maxilar e se afastou a contragosto, os olhos ainda queimando em mim como uma promessa.

Eu não olhei para ele, porque ela estava olhando para mim.

Ela se apoiou no corrimão, o rosto com uma expressão indecifrável; o cabelo estava preso com cuidado num coque. Usava calças largas, esvoaçando na brisa, e uma regata sem mangas de corte masculino. A tinta preta se enrolava na pele dourada dela, do pulso direito aos antebraços, subindo pelos ombros até a parte superior do peito e o pescoço.

“Se já terminou de encarar, entre.”

Eu pisquei, voltando à realidade. Diana, o que foi isso?

“E-Entrar”, gaguejei. Eu nunca gaguejo.

Ela se virou sem dizer mais nada e desapareceu dentro da casa. Eu fui atrás, apressada, com o coração disparado.

Um ar frio me atingiu de imediato, nada parecido com o vento lá fora, e eu percebi que tinha entrado em algo maior do que eu.

Uma janela do chão ao teto, curva, dava para o mar enfurecido, que se espancava contra si mesmo como um quadro vivo. A luz do sol entrava, refletindo nas paredes, mas não fazia nada para iluminar a escuridão do cômodo. O sofá, os móveis e até a lareira eram de um carvão profundo ou de um preto fosco.

“Sente-se.” Eu me sentei.

Não porque eu quisesse, mas porque havia algo no tom dela que deixava claro que eu não tinha escolha.

Ela caminhou até a ilha de cozinha de frente para a janela enorme. Garrafas e mais garrafas de bebida cara estavam alinhadas, com os rótulos pegando a luz. Ela escolheu uma e serviu em dois copos, como se tivesse todo o tempo do mundo.

Meus punhos estavam cerrados com força sobre o meu colo, tão apertados que os nós dos dedos ficaram brancos. Procurei um retrato, uma foto de família, qualquer coisa que a denunciasse, mas não havia nada — só um poder silencioso.

— Você ligou.

— Sim, liguei.

— Por quê?

Ela deslizou uma bebida para a minha frente, sentou-se, cruzando uma perna sobre a outra, e bebeu casualmente do copo.

— B-bem, a oferta — eu disse, um pouco envergonhada.

— Me lembre. — Ela inclinou a cabeça de lado, como se estivesse testando o terreno.

Eu não tinha o luxo do tempo.

— No bar, mais cedo... — eu disse, sustentando o olhar dela. — Quinze mil dólares por semana para ser sua noiva. — declarei, com irritação na voz.

— Você foi embora. Eu segui em frente. — Ela tomou um gole lento, sem tirar os olhos dos meus.

— Minhas desculpas por quase ter quebrado a sua cabeça, aliás...

Os lábios dela se ergueram só um pouco.

— Você devia ter mirado melhor.

Meus olhos foram para o relógio atrás dela.

— Vamos acabar logo com isso — falei, impaciente.

Ela ergueu a mão, e uma mulher se aproximou com uma pasta aberta, colocando-a diante de mim.

CONTRATO DE CASAMENTO DE UM ANO.

Só por um ano, não por uma vida inteira? Foi um alívio, mas não demonstrei.

Peguei a caneta.

— Não tenha pressa. — A voz dela baixou um pouco.

Passei os olhos pelo documento. Mal li; só o valor me chamou a atenção e, ao lado, Negociável.

Era bom demais para ser verdade, e eu estava em desvantagem.

— Eu quero um adiantamento — declarei, pousando a caneta. — Você pode ser uma golpista e, se eu vou assinar e entregar um ano da minha vida preciosa... não vou fazer isso na base da confiança... — Encarei os olhos dela.

Ela me observou por um instante.

Então um sorriso de canto se formou nos lábios dela; uma covinha quase imperceptível apareceu na bochecha, inesperada, fazendo meu coração falhar uma batida.

— Bom — ela disse.

— Eu não gosto de gente ingênua.

Ela se recostou um pouco, me estudando como se eu tivesse acabado de passar em algum teste.

Ela abriu a palma da mão, e um celular foi colocado nela. Seus dedos finos tocaram a tela com preguiça. Então ela o deslizou até mim.

— Número da conta.

Meu olhar caiu na tela.

Sessenta mil dólares.

Por um momento, eu esqueci como se respirava.

Ergui os olhos para ela, querendo falar.

— O pagamento integral do mês — ela disse com calma, como se não significasse nada.

Meus dedos se moveram antes que meus pensamentos alcançassem. Digitei os dados da minha conta e apertei enviar.

E esperei.

Um segundo.

Dois.

Meu celular apitou.

A notificação apareceu na tela.

Só então pareceu real.

— Pronto — ela murmurou.

Houve uma pausa.

— Agora assine.

Peguei a caneta e assinei.

Ficou tudo em silêncio por um tempo.

— Eu tenho um lugar urgente para ir agora, mas eu vou voltar, eu prometo.

A expressão dela não mudou.

— Você não pode confiar em mim, mas quer que eu confie em você — ela disse. — Que interessante.

Meu celular tocou.

Era a enfermeira Reyes; o medo me agarrou. Só um pensamento me veio à cabeça: Jezebel.

Eu me levantei num salto, correndo em direção à porta.

A mulher que tinha entregue a pasta estava na entrada.

Não havia tempo. Sem pensar, voltei e peguei a mão dela.

— Tá... Venha comigo—

Ela não se mexeu; em vez disso, eu perdi o equilíbrio e caí direto no colo dela.

Um suspiro agudo me escapou quando minhas palmas pressionaram o peito dela.

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