Capítulo 1

POV da Emily

O táxi encostou na calçada em frente ao Red Maple Club, os pneus rangendo na brita da entrada que parecia se estender por quilômetros. Entreguei uma nota de vinte dólares para o motorista, ignorando o olhar surpreso dele ao perceber o meu destino.

“Fica com o troco”, murmurei, alisando nervosamente meu vestido cor de creme.

O vestido era simples, mas escolhido a dedo—suficientemente recatado para parecer discreto, mas bem cortado o bastante para não destoar completamente daquele lugar tão exclusivo.

Quando me aproximei da entrada imponente, com portas de carvalho polido e ferragens de latão brilhando, um segurança de uniforme preto impecável deu um passo à frente imediatamente, a expressão passando de neutra a desconfiada ao analisar minha aparência.

“Carteira de sócia, senhora?” ele perguntou, num tom mais mecânico do que acusador.

“Eu não… quer dizer, eu não sou sócia.” Deixei minha voz sair um pouco acima de um sussurro—exatamente como eu tinha ensaiado. “Mas eu tenho isto.” Enfiei a mão na minha bolsinha e tirei a carteirinha de sócia da Helen Summers e o print de uma mensagem de texto. Minhas mãos tremiam levemente—meio nervosismo de verdade, meio encenação calculada.

O segurança lançou um olhar rápido para os dois itens, a expressão voltando ao neutro. “Pra próxima vez, a senhora Summers precisa colocar as convidadas na lista com antecedência.”

“Ela comentou que ia mandar uma mensagem sobre o nosso encontro”, respondi baixinho, mantendo os olhos baixos, encarnando o papel que eu tinha aperfeiçoado ao longo dos anos—a menina dócil, indefesa. Era uma máscara que sempre me servira bem, escondendo a mente calculista por trás da aparência frágil.

Depois de uma rápida checagem dos documentos, ele assentiu e saiu do caminho. “Quarto 422. Pega o elevador até o quarto andar e vira à direita.”

“Obrigada”, murmurei, apressando o passo antes que ele mudasse de ideia.

Já lá dentro, permiti-me três respirações profundas enquanto atravessava o saguão de mármore. O luxo ao redor—lustres de cristal, quadros a óleo em molduras douradas, poltronas de couro macio—me lembrava de tudo que tinha sido tirado da minha família.

Dez anos atrás, eles tiraram tudo de mim. Hoje, eu começo a pegar tudo de volta, pedaço por pedaço.

As portas do elevador se abriram com um leve sinal sonoro no quarto andar. Pisei no carpete vermelho espesso, conferindo com cuidado a placa com o mapa de salas na parede. Minha reunião verdadeira com Bronson era no quarto 422, mas meu alvo era o 421—o suíte privativo que Stefan Ashford costumava usar.

Eu tinha passado semanas decorando cada detalhe sobre Stefan Ashford. Trinta e dois anos. Herdeiro do império Ashford. Conhecido pela crueldade nos negócios e pelo temperamento explosivo. Brigado com o pai, William Ashford, que estava em campanha por uma vaga no Senado em Washington. E, o mais importante, famoso por evitar relacionamentos sérios—o candidato perfeito para o que eu precisava.

Caminhando com propósito pelo corredor, fingi conferir os números das portas enquanto revisava mentalmente minha estratégia.

Respirei fundo, apertando contra o peito a pasta com os documentos cuidadosamente preparados. Passei horas me fazendo parecer ainda mais pálida do que o normal, pulei o almoço para reforçar a impressão de fragilidade que eu queria causar.

Meus nós dos dedos bateram de leve na porta pesada de madeira.

“Entra”, chamou uma voz grave lá de dentro.

Entrei devagar, mantendo os olhos bem abertos, hesitantes. O cômodo amplo era decorado com bom gosto em tons de madeira escura e couro, com janelas do chão ao teto dando vista para a cidade. Havia dois homens ali—um eu reconheci na hora como Stefan Ashford, das minhas pesquisas. Seus traços afiados e o olhar penetrante eram ainda mais intimidadores pessoalmente, provocando um arrepio inesperado na boca do estômago.

O outro homem, provavelmente o assistente dele, examinava documentos espalhados sobre a mesa de centro.

“D–desculpa”, gaguejei, deixando um pouco do nervosismo real transparecer na voz. “Acho que eu entrei na sala errada. Eu tenho uma reunião com o senhor Bronson… aqui não é o 422?”

Os dois ergueram o rosto, os olhos escuros de Stefan se estreitando enquanto me avaliavam. Antes que qualquer um respondesse, eu me atrapalhei com a pasta, fazendo os papéis se espalharem pelo chão.

“Ai, não, me desculpa!” Caí de joelhos, juntando os documentos às pressas. Como planejado, o laudo médico foi parar bem perto dos pés do assistente.

Ele se abaixou para ajudar, os olhos inevitavelmente batendo no diagnóstico em letras destacadas: “Doença autoimune rara” e no prognóstico seco: “Expectativa de vida não ultrapassando os 35 anos.”

“Essa aqui é a sala 421, senhorita”, disse o assistente, me entregando o laudo médico com um olhar de pena desconfortável.

— Ai, meu Deus, entrei no andar errado. — Apertei os papéis contra o peito, sentindo as bochechas esquentarem com uma vergonha que não era totalmente fingida. O olhar intenso de Stefan Ashford fazia minha pele formigar.

Eu esperava ser dispensada na hora, mas Stefan apenas fez um gesto em direção à área de estar.

— Jason, dá licença um minuto.

O assistente hesitou, depois juntou seus papéis e saiu. Eu continuei de pé, sem saber o que fazer.

— Senta. — Não era um convite.

Sentei na beirada de uma poltrona de couro, as costas retas, olhando diretamente para ele, apesar da minha suposta timidez. Aquele era o momento crucial — eu precisava causar uma impressão.

— Já que você interrompeu a minha reunião, pode muito bem me dizer quem é e o que está fazendo aqui — disse Stefan, a voz grave e controlada.

— Eu... — hesitei, depois endireitei um pouco os ombros. — Já que eu já passei vergonha completamente, é melhor ser sincera. Eu tenho uma doença autoimune rara. Segundo os meus médicos, eu não passo dos trinta e cinco.

A expressão dele não mudou, mas algo em seus olhos se alterou — curiosidade, talvez.

— E isso me diz respeito... como, exatamente?

Respirei fundo para me acalmar.

— Meu nome é Emily Eugins. Eu deveria me encontrar com o Carl Bronson para... bem, uma apresentação arranjada. Meu tio acha que eu deveria encontrar um partido adequado antes que a minha condição piore. — Baixei os olhos para as minhas mãos. — Sinto muito por atrapalhar a sua reunião.

Um lampejo de algo — talvez interesse — cruzou o rosto dele, antes de ser encoberto de novo por uma frieza controlada.

— Uma apresentação arranjada? Nesse século?

— Quando o tempo é limitado, senhor Ashford — respondi baixinho, voltando a encará-lo —, a gente não tem o luxo de esperar por encontros ao acaso.

Ele me estudou por um longo momento, a expressão ilegível. Eu tinha a sensação de estar sendo avaliada, medida de formas que eu não conseguia compreender por completo.

Antes que ele pudesse responder, a porta se abriu e o gerente do clube entrou, visivelmente nervoso.

— Senhor Ashford, mil desculpas pela interrupção — disse ele, antes de se voltar para mim. — Senhorita Eugins, a senhorita está na sala errada. O senhor Bronson está esperando a senhorita na sala 422.

Levantei-me rápido, apertando a pasta contra o corpo.

— Sinto muito pela confusão. Por favor, me desculpe por invadir sua reunião, senhor Ashford.

Stefan fez um gesto displicente com a mão, mas os olhos continuaram fixos em mim enquanto eu seguia o gerente até a porta. Eu sentia o olhar dele nas minhas costas, provocando um arrepio involuntário.

Do lado de fora, fiquei tempo suficiente apenas para ouvir as próximas palavras do gerente:

— Essa é a menina adotiva dos Summers... coitadinha. Fiquei sabendo que hoje ele mandou ela conhecer o velho Bronson. Sabe, o Bronson, aquele magnata do mercado imobiliário, com mais de sessenta e... fisicamente limitado? Engraçado isso... todo mundo sabe que o senhor Summers mataria por aqueles terrenos à beira‑mar que o Bronson tem. Mas enfim, não cabe a mim espalhar boatos, senhor Ashford. Desculpa.

Afastei-me depressa quando a conversa tomou outro rumo, minha mente já calculando o efeito daquela informação sobre Stefan. Se a minha avaliação dele estivesse correta, saber que eu estava disponível para casamento despertaria o interesse dele — principalmente porque eu sabia que ele também precisava urgentemente de um casamento de conveniência. Minha pesquisa tinha revelado que o pai dele o pressionava para se casar antes do lançamento da campanha ao senado, e que Stefan vinha procurando ativamente um arranjo temporário adequado.

Eu tinha causado a minha impressão. Agora só precisava esperar.

Do lado de fora, no estacionamento, esperei o Bentley preto de Stefan sair antes de me aproximar do gerente do clube, que fazia uma pausa para fumar.

— Obrigada pela sua colaboração — falei, entregando um envelope. — Espero que isso expresse devidamente a minha gratidão.

Ele guardou o envelope no bolso com um aceno de cabeça.

— Deu tudo certinho, do jeitinho que a senhorita planejou, senhorita Eugins.

Enquanto eu caminhava em direção ao táxi que me esperava, meu telefone tocou. O nome da Lydia apareceu na tela.

— Você realmente levou isso adiante? — ela disparou, sem nem cumprimentar. — Como foi?

— Como esperado — respondi, calma.

— Emily, você tem noção de quão perigoso o Stefan Ashford é? Ele destruiu toda a divisão norte‑americana da Harris Enterprises por causa de uma ofensa mínima! Todo mundo em Oak City morre de medo dele!

Olhei as luzes da cidade se espalhando à minha frente, sentindo uma estranha serenidade.

— Eu sei tudo sobre ele, Lydia. Na verdade, quanto mais perigoso ele é, mais segura eu fico.

O taxista me observou pelo retrovisor, mas eu não me importei. Anos atrás, quando a família do meu tio achou que tinha me quebrado por completo, eles não faziam ideia de que estavam assinando a própria sentença.

— Eles acham que eu sou fraca — sussurrei, mais para mim do que para Lydia. — Eles não fazem ideia do que está por vir.

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