Capítulo 2

POV da Emily

O táxi parou diante dos portões de ferro do Summers Estate justo quando o crepúsculo caía sobre Oak City. Entreguei o dinheiro da corrida ao motorista, sem me preocupar em deixar gorjeta. Cada dólar contava no meu plano cuidadosamente calculado.

“Obrigada”, murmurei, descendo para o frio de novembro que atravessou meu casaco fino na mesma hora.

Meu corpo parecia especialmente frágil hoje — uma mistura de exaustão verdadeira e da atuação cuidadosa que eu vinha mantendo no Red Maple Club. Dei passos lentos e deliberados em direção ao portão, garantindo que cada movimento denunciasse fraqueza. O vento aumentou e eu me permiti balançar levemente com ele.

Roger, o segurança, mal levantou os olhos do celular quando me aproximei.

“Você tá atrasada”, resmungou, sem pressa nenhuma para abrir o portão. O olhar dele percorreu minhas roupas simples com o mesmo desprezo de sempre.

“Desculpa”, sussurrei, embora eu não estivesse nem um pouco arrependida.

Notei dois carros de luxo desconhecidos estacionados na entrada circular — um Bentley prateado e um Rolls-Royce preto. Meu coração deu um salto. Carros caros quase sempre significavam problema pra mim.

Respira. Só respira. Amanhã você vai estar livre deste lugar.

A enorme porta de carvalho se abriu para o saguão principal, onde lustres de cristal lançavam um brilho dourado sobre o piso de mármore e obras de arte caríssimas. Risadas ecoavam da sala de estar — aquele riso falso e ensaiado que a Helen sempre usava com o círculo social dela. Hesitei, pensando em subir escondida pro sótão, mas sabia que isso só pioraria as coisas depois.

Apareci no batente da sala de estar. Helen e Kate estavam sentadas perto da lareira acesa, taças de vinho na mão. Kate usava um vestido de grife que provavelmente custava mais do que tudo o que eu possuía junto.

A conversa parou na hora. Os olhos de Helen passaram por mim e logo voltaram pra revista Vogue em suas mãos.

“Boa noite, senhora Summers”, disse em voz baixa.

Kate girou o vinho na taça, os lábios vermelhos se curvando num deboche.

“Olha só quem finalmente resolveu nos dar o ar da graça. Sua sessão de terapia acabou faz três horas. O que você tava fazendo? Seduzindo outro dos seus pacientes?”

Meu rosto permaneceu neutro, apesar da acusação. Eu aprendera há muito tempo que demonstrar reação só dava mais satisfação a elas.

“Não fica aí parada que nem uma muda”, Kate continuou, a voz subindo. “Deus, você é tão patética. Acha que eu não sei que você tentou seduzir o Max? Você é só um lobo em pele de cordeiro.”

“O senhor Bronson veio especificamente pra ver você hoje”, Helen cortou, com a voz fria como gelo. “Ele dirigiu desde Boston até aqui.”

Meu estômago se revirou. Carl Bronson. Sessenta e poucos anos. Incorporador imobiliário. Viúvo duas vezes, em circunstâncias suspeitas.

“Bronson tem um gênio e tanto”, acrescentou Kate, com um prazer maldoso. “No mês passado ele quebrou o punho da empregada porque ela derramou café. Dou um mês pra você quebrar sob as mãos dele.” Ela me examinou de cima a baixo. “Ou talvez a sua ‘doença’ acabe com você antes. Seria bem conveniente.”

“Volta pro seu sótão”, Kate abanou a mão, num gesto de desprezo. “Me dá enjoo só de olhar pra você.”

Virei sem dizer uma palavra e segui para a escada estreita nos fundos da casa. Cada degrau rangeu sob meu peso enquanto eu subia até o terceiro andar e puxava a escada dobrável que levava ao sótão. Minha prisão havia anos.

O sótão era tudo o que o resto da mansão não era — frio, largado, com papel de parede descascando e tábuas irregulares no chão. Uma única lâmpada pendia do teto, lançando sombras duras sobre meus móveis de segunda mão. O contraste era proposital, claro. Um lembrete diário do meu lugar naquela casa.

“Você tá pálida, senhorita”, Martha Robinson surgiu das sombras, o rosto enrugado marcado pela preocupação. Ela tinha sido a governanta da minha mãe antes de tudo desmoronar e agora servia à família Summers — embora a lealdade verdadeira dela continuasse sendo comigo.

Ela me ajudou a sentar na cama e me entregou um copo d’água com a minha “medicação” — comprimidos de vitamina que eu fingia serem para a minha condição inexistente.

“Sabe, Martha”, falei baixinho, olhando em volta daquele espaço deprimente, “todo esse casarão foi originalmente um presente do meu avô pra minha mãe. E agora eu tô presa nesse sótão feito um fantasma indesejado.”

Os olhos de Martha voaram nervosos para a porta antes que ela se inclinasse mais perto.

“Andei pesquisando a vida do senhor Bronson. Aquele homem é perigoso. Duas esposas mortas em ‘acidentes’. As coitadas.”

Apertei a mão calejada dela entre as minhas.

“Não se preocupa, Martha. Eu não vou me casar com o Bronson.”

Os olhos dela se arregalaram.

— Mas o senhor Summers já...

— Confia em mim — eu disse, com um pequeno sorriso. — As coisas estão prestes a mudar.

Depois que Martha saiu, fiquei parada perto da pequena janela do sótão, olhando para os jardins impecavelmente cuidados lá embaixo. Uma luz permanecia acesa no escritório de Richard, e eu imaginei ele calculando como usar meu casamento com Bronson para fechar negócios de terrenos à beira-mar.

Aproveite suas tramas enquanto pode, querido tio. O seu tempo está acabando.

Olhei meu celular. Uma mensagem de Jonathan Prescott, o fiel mordomo da família de Stefan: “Tudo acertado. Um carro vai buscá-la amanhã às 9h para ir a Oak Manor.”

Jonathan estava com a família Ashford havia décadas e, de acordo com a minha pesquisa, era uma das poucas pessoas em quem Stefan realmente confiava. O fato de Stefan ter designado o próprio mordomo para cuidar dos meus arranjos indicava que, no mínimo, ele estava levando nosso acordo a sério.

Minha mente voltou para quando eu tinha dez anos. A “falência repentina” da Joalheria Eugins. O “acidente de carro” fatal dos meus pais na rodovia. Richard Summers aparecendo no orfanato, o rosto retorcido em falsa tristeza, prometendo cuidar da “querida sobrinha”.

Abri o notebook, a luz azul iluminando meu rosto no quarto escuro. Na tela havia um diagrama complexo ligando quatro sobrenomes com linhas vermelhas — Summers, Thomas, Grayson e Harris. Os conspiradores que destruíram minha família.

Abaixo do diagrama, digitei: “Fase Um: Escapar do controle dos Summers. Status: Em andamento.”

Na manhã seguinte, vesti um vestido branco simples — modesto, barato, mas limpo e apresentável. Fiquei de pé nos degraus da prefeitura, minha pequena mala ao lado, esperando por Stefan.

O Audi preto dele parou exatamente às 9h. Ele saiu do carro impecável em um terno sob medida, o rosto inexpressivo enquanto se aproximava.

— Vamos acabar logo com isso — ele disse, sem cumprimentar.

O registro do casamento foi rápido e impessoal — assinar documentos, tirar fotos, responder de forma seca às tentativas da funcionária de puxar conversa animada.

Depois, Stefan me entregou a certidão de casamento.

— Procedimento concluído.

Notei Jonathan esperando ao lado de um sedã preto.

— Eu vou levá-la até Oak Manor — disse Stefan. — Tenho reuniões esta tarde.

Assenti, guardando com cuidado a certidão na bolsa. O cheiro de couro caro e o perfume discreto de Stefan me deixaram um pouco tonta. Eu não conseguia controlar os bocejos que escapavam — a noite anterior fora em claro, tomada pela expectativa.

Stefan atendeu ligações de trabalho o caminho inteiro, a voz afiada e autoritária.

— Diz pro Harris que, se atrasar de novo, eu compro todo o portfólio dele em Chicago.

O poder na voz dele me provocou um arrepio inesperado.

Entre uma ligação e outra, ele me lançou um olhar irritado.

— Você é sempre assim, meio morta?

— Efeito colateral do meu remédio — expliquei baixinho. — Ele causa sonolência. Desculpa o transtorno.

Ele não respondeu, mas percebi que aumentou discretamente a temperatura do ar-condicionado. O pequeno gesto me pegou de surpresa.

— Não espere morrer na minha mansão depois de alguns meses de casamento — ele disse de repente. — Lidar com cadáver dá trabalho.

Apesar de mim mesma, sorri.

— Vou tentar cuidar melhor da minha saúde.

Os olhos dele passaram pelos meus, com uma expressão complexa, impossível de decifrar.

O carro entrou em uma alameda ladeada de árvores, e Oak Manor surgiu à frente — uma combinação impressionante de arquitetura colonial e design moderno, espalhada por terrenos bem cuidados, com verdadeiros carvalhos emoldurando a entrada.

Jonathan abriu minha porta assim que chegamos.

— Bem-vinda a Oak Manor, senhorita Eugins.

— Agora é senhora Ashford — corrigi em voz baixa. Algo brilhou nos olhos de Jonathan — surpresa, talvez curiosidade.

Acenei para Stefan enquanto ele se preparava para ir embora, e ele respondeu com um aceno curto antes de sair dirigindo.

Jonathan me entregou uma pasta preta.

— O senhor Stefan pede que a senhora leia e assine este acordo.

O documento era direto: eu cooperaria durante as visitas dos pais dele, William e Marianne. E deveria seguir três regras: não comparecer aos eventos sociais dele, não tornar público o nosso casamento e não interferir na vida pessoal dele.

Assinei sem hesitar, um pequeno sorriso brincando nos meus lábios ao devolver a pasta.

— Vou ser a esposa perfeita, senhorita Ashford.

Jonathan não podia ver a determinação escondida atrás do meu sorriso. Ninguém podia saber que esse casamento não era o fim do meu plano — era só o começo.

Fase Um concluída. Agora, que o verdadeiro jogo comece.

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