Capítulo 3
POV da Emily
O pôr do sol lançava sombras compridas pelo meu novo quarto na ala leste de Oak Manor quando uma batida suave interrompeu minha arrumação. Eu mal tinha começado a organizar meus poucos pertences — tudo o que eu possuía cabia em uma mala e uma mochila.
— Entre — chamei, dobrando depressa um suéter surrado.
Jonathan apareceu na porta, a postura impecável como sempre.
— Senhora Ashford, há uma chamada de vídeo para a senhora, da residência principal dos Ashford.
Meu coração deu um pulo.
— Da residência principal?
— Sim, da casa do pai do senhor Ashford, em Washington. — Os olhos dele suavizaram um pouco. — É a primeira vez que eles entram em contato desde que souberam do casamento.
Jonathan hesitou e depois acrescentou, em voz mais baixa:
— A senhora precisa saber que o senhor Stefan tem uma relação complicada com a família. A reputação dele, em certos círculos, é bem severa. Cinco anos atrás, o pai dele o restringiu à força a Oak City.
— Entendo — respondi, com cuidado, arquivando mentalmente aquela confirmação das minhas pesquisas. O conflito entre Stefan e o pai era um possível ponto de alavanca nos meus planos.
Segui Jonathan até a sala de estar principal, a mente acelerada, me preparando. Alisei o vestido creme, querendo parecer ao mesmo tempo vulnerável e determinada — o equilíbrio perfeito para despertar simpatia sem soar patética.
A tela grande na parede ganhou vida, revelando uma mulher elegante, de pouco mais de cinquenta anos. O cabelo loiro-acinzentado estava preso em um coque sofisticado, o pescoço adornado por pérolas. Os olhos, porém, eram frios e calculistas, me avaliando como um predador examinando a presa.
— Olá — falei baixinho. — É um prazer conhecê-la, senhora Ashford.
Os lábios pintados dela se curvaram em algo que, com boa vontade, poderia ser chamado de sorriso.
— Então é você a garota que conseguiu fazer meu filho assinar papéis de casamento. Impressionante.
A leve ênfase em “garota” não passou despercebida.
— Sou Emily Eugins... quer dizer, Ashford agora.
— Você sabe que tipo de homem é o meu filho? — ela perguntou de repente, os olhos se estreitando. — Ele é frio, calculista, e nunca acreditou em amor. Esse casamento repentino é… surpreendente.
Eu senti a armadilha nas palavras dela — ela estava pescando informação, tentando entender qual era o meu interesse.
— O Stefan tem sido muito gentil comigo — respondi com cuidado. — Ele me ajudou quando eu mais precisava.
Minha mente voltou para a alternativa — ser forçada a me casar com Carl Bronson, um homem cujas ex-esposas tinham uma expectativa de vida suspeitosamente curta. Se não fosse o Stefan ter aceitado esse arranjo, eu talvez já estivesse presa em algo muito pior.
— Gentil? — Ela riu, o som parecendo gelo se partindo. — Não é uma palavra que costumem associar ao meu filho. — A mão perfeitamente bem-feita ajustou um brinco de pérola. — Os jovens precisam aprender a distinguir entre o que parece vantajoso e o que realmente é. Entre o bom e o ruim.
— Agradeço a sua preocupação — falei, com a voz ficando um pouco mais firme. — Mas eu pretendo ficar ao lado do Stefan totalmente, sem nenhuma reserva.
Um arrepio percorreu minha pele de repente. Tinha alguém atrás de mim. O ar na sala pareceu ficar alguns graus mais frio, e eu quase conseguia sentir uma presença física nas minhas costas.
— Você está intimidando ela? — A voz de Stefan veio logo atrás de mim, me fazendo sobressaltar um pouco.
Eu não tinha ouvido ele entrar. Meu coração disparou enquanto eu tentava manter a compostura, mas meus dedos tremiam levemente sobre o joelho.
A expressão de Marianne se transformou na mesma hora.
— Stefan! Eu só estava conhecendo a sua… esposa. — Os olhos dela se desviaram para alguém fora do enquadramento. — William, venha dar um alô para a nova noiva do Stefan.
Um homem distinto, de cabelos grisalhos e o mesmo maxilar forte de Stefan, apareceu ao lado dela.
— Ela estava sendo grossa comigo — Marianne disse ao marido, com um tom magoado na voz que não existia segundos antes. Eu me espantei com a rapidez com que ela mudava de persona.
Jonathan apareceu silenciosamente ao meu lado, colocando uma xícara fumegante de chá-verde sobre a mesa, na minha frente. Lancei a ele um olhar agradecido e envolvi os dedos na cerâmica quente para firmá-los.
— Vamos falar disso depois — disse Stefan, ríspido. — Eu tenho trabalho.
Antes de encerrar a chamada, Marianne olhou diretamente para mim.
— Vou te ligar quando o Stefan não estiver por perto, querida. A gente devia se conhecer melhor.
A tela ficou preta, e eu me permiti um pequeno sorriso frio. A tentativa de manipulação dela era tão transparente que chegava a ser quase engraçada.
— Desculpa por isso — disse Stefan, a voz neutra enquanto se movia para ficar de frente para mim. — Minha madrasta pode ser… difícil.
Levantei o olhar para ele, surpresa com o pedido de desculpas.
— Tudo bem. Eu entendo dinâmicas familiares complicadas.
Ele assentiu uma vez e saiu do cômodo sem dizer mais nada.
Mais tarde, naquela noite, peguei um caderno escondido dentro de um livro oco na estante. Anotei cuidadosamente os detalhes da minha conversa com os Ashford, registrando as táticas de Marianne e a tensão aparente de William.
No meu tablet, abri a pesquisa que eu tinha feito sobre o relacionamento de Stefan com o pai. Cinco anos atrás, algo tinha acontecido — algo sério o bastante para William basicamente colocar o filho em prisão domiciliar em Oak City.
Acrescentei um novo item ao meu plano: “Descobrir a verdade sobre o conflito entre Stefan e os pais.” Aquilo poderia ser uma alavanca valiosa no futuro.
Quando a meia-noite se aproximava, fui até a cozinha em busca de um copo d’água e notei uma funcionária preparando uma bandeja de jantar.
— É para o senhor Ashford? — perguntei.
A jovem assentiu, parecendo surpresa por eu estar falando com ela.
— Sim, senhora. Ele costuma trabalhar até tarde e jantar no escritório.
— Eu levo para ele — falei, estendendo a mão para pegar a bandeja.
Jonathan apareceu na porta, com a expressão preocupada.
— Senhora Ashford, o jovem mestre Stefan não gosta de ser incomodado enquanto trabalha. Talvez fosse melhor se…
— Eu entendo — interrompi com gentileza. — Mas eu gostaria de agradecer pelo que ele fez hoje. Só desta vez?
Jonathan hesitou, depois assentiu, relutante.
— A ala oeste fica pelo saguão principal, segundo andar. O escritório dele é no fim do corredor.
Bati de leve na porta do escritório.
— Entre — veio a voz baixa de Stefan.
Empurrei a porta com o ombro e entrei no cômodo pouco iluminado. Só uma luminária de chão lançava um brilho quente pelo espaço. Stefan estava de pé, junto à janela, de costas para mim. Ele claramente tinha acabado de sair do banho — o cabelo ainda úmido, usando apenas uma toalha enrolada na cintura. A visão das costas nuas, musculosas e inesperadamente marcadas por vários cortes longos, me fez parar no meio do passo.
Desviei o olhar rapidamente, sentindo o calor subir ao rosto.
— Desculpa, eu não sabia que você estava… Eu só trouxe seu jantar.
Meu Deus, eu não esperava dar de cara com ele assim. Mesmo olhando para outro lado, aquelas cicatrizes continuavam queimadas na minha visão — várias linhas longas e irregulares cruzando as costas dele, de outra forma perfeitas.
Meu coração acelerou quando a imagem se recusou a desaparecer. O que poderia ter causado marcas daquele tipo? Um chicote? Só de pensar, meu estômago se contraiu. Só depois de alguns segundos minha mente analítica começou a reassumir o controle, se perguntando o que aquelas cicatrizes podiam revelar sobre o homem com quem eu tinha me casado.
— Por que você está trazendo o meu jantar? — ele perguntou, vestindo um roupão e se virando para mim.
Coloquei a bandeja sobre a escrivaninha, mantendo o olhar cuidadosamente desviado.
— Eu queria te agradecer por ter intervindo mais cedo. Com a sua mãe.
Ele me estudou por um longo momento, o olhar penetrante.
— Você está mesmo tão doente assim?
A pergunta me pegou desprevenida. Levantei o rosto e encarei diretamente os olhos dele.
— Tô. Doente o bastante pra aceitar ser sua esposa de contrato.
Ficamos nos encarando por um tempo que pareceu uma eternidade, alguma comunicação silenciosa passando entre nós. Por fim, ele fez um leve movimento com a cabeça, em sinal de concordância.
