Capítulo 4

Ponto de vista da Emily

Olhei para o relógio — 7h30 da noite. Stefan chegaria em casa em breve e o jantar ainda não estava pronto. Deixei de lado o livro de psicologia que eu estava grifando e me levantei da cama, alisando os amassados do meu vestido simples de algodão. A comida cria os vínculos mais fundamentais, até com alguém como Stefan Ashford.

A cozinha estava bem iluminada quando entrei, e Jonathan já estava preparando o jantar, seus movimentos metódicos denunciando anos de experiência.

— Senhora Ashford — ele disse, com surpresa evidente na voz. — A senhora precisa de alguma coisa?

Ofereci um sorriso suave.

— Pensei em preparar o jantar hoje. Para o senhor Ashford.

As sobrancelhas de Jonathan se ergueram, e as mãos dele pararam no meio do corte.

— Com todo respeito, considerando o seu estado de saúde, talvez fosse melhor se...

— Eu sei dos meus limites — interrompi em voz baixa, me aproximando do balcão. — Isso eu consigo fazer. Por favor?

Ele hesitou, a preocupação marcada nas linhas ao redor dos olhos.

— O senhor Stefan prefere refeições simples depois de jantares de negócios.

— Então ele saiu pra beber hoje? — perguntei, minha mente já calculando. — Posso fazer uma sopa detox. É leve, mas eficiente.

Jonathan me estudou por um momento antes de assentir, a contragosto.

— Os ingredientes estão na despensa. Vou ajudar se a senhora precisar de alguma coisa.

Quarenta minutos depois, ouvi a porta da frente se abrir. Meu pulso acelerou levemente enquanto eu colocava o caldo claro numa tigela de cerâmica, enfeitando com ervas frescas em uma bandeja.

Os passos de Stefan eram pesados, denunciando o cansaço. Ele parou na entrada da cozinha, sua figura alta preenchendo o espaço. A gravata estava afrouxada e os primeiros botões da camisa, abertos.

— Você está cozinhando? — A surpresa na voz dele era genuína.

— Eu preparei uma sopa — falei, mantendo a voz suave. — Ouvi dizer que você teve reuniões hoje. Isso ajuda na desintoxicação do álcool.

Os olhos dele se estreitaram de leve enquanto se aproximava, examinando a tigela fumegante.

— Quem te disse que eu estava bebendo?

Coloquei a sopa sobre a mesa, evitando o olhar intenso dele.

— Ninguém, especificamente. Só presumi que reuniões de negócios geralmente envolvem álcool.

Stefan se sentou, ainda me observando com atenção. Tomou uma colherada da sopa e imediatamente fez uma careta.

— Está sem graça demais.

Antes que eu pudesse me desculpar, a mão dele se ergueu de repente, segurando meu rosto. Seus dedos beliscaram de leve minha bochecha, o contato inesperado fazendo meu coração falhar uma batida.

— Igual você — ele disse, com a voz mais baixa. — Insossa e sem graça.

Minha respiração ficou presa na garganta. O toque não doía, mas a invasão súbita do meu espaço pessoal fez um arrepio percorrer meu corpo. Mantive os olhos baixos, encarnando a esposa tímida e intimidada.

Ele soltou meu rosto e continuou comendo, sem dizer mais nada. Quando terminou, levantou-se bruscamente.

— Tenho trabalho hoje à noite. Você vai dormir no sofá. Não me incomode.

Assenti obediente.

— Claro.


Às 10 da noite, eu já estava instalada no sofá da sala, com um cobertor fino enrolado nos ombros. Meu celular tocou — um número que eu reconheci do centro de aconselhamento.

— Alô, aqui é a Emily — atendi, minha voz passando da habitual suavidade para uma cordialidade profissional.

— Desculpa ligar tão tarde — disse a mulher do outro lado da linha, as palavras saindo rápidas e ofegantes. — Mas estou tendo outra crise de pânico e a doutora Thompson disse que eu podia te procurar fora do horário.

Endireitei a postura instintivamente.

— Não tem problema nenhum, senhora Hendricks. Primeiro, eu quero que a senhora respire fundo três vezes comigo.

Enquanto eu a guiava nos exercícios de respiração, senti uma mudança no ar — aquela alteração sutil na pressão que denuncia a presença de alguém. Não me virei, mas, pelo canto do olho, captei Stefan parado em silêncio na porta.

— A sua ansiedade vem da incerteza sobre o futuro — continuei calmamente. — Isso é totalmente natural. Podemos tentar aceitar esse desconforto em vez de lutar contra ele.

Continuei a consulta por mais cinco minutos, explicando técnicas de dessensibilização sistemática e sugerindo que ela anotasse os gatilhos da ansiedade. Durante todo o tempo, eu permanecia agudamente consciente da presença de Stefan, mas mantive o foco na ligação.

Quando desliguei, finalmente olhei para a porta.

— Senhor Ashford, o senhor precisa de alguma coisa?

Ele me estudava com uma expressão que eu não conseguia decifrar. Havia algo novo no olhar dele — curiosidade, talvez, ou uma reavaliação.

Eu me levantei, afastando o cobertor, e me arrependi imediatamente do movimento brusco. Uma tontura forte me atingiu — efeito colateral da medicação da tarde — e eu me agarrei ao braço do sofá para me firmar.

Stefan atravessou a sala com uma rapidez surpreendente, a mão estendida. Nela havia um pequeno tubo de pomada.

— O Jonathan me deu isso. Vai ajudar com a minha doença.

— Obrigada — eu disse. — Eu agradeço.

Os olhos dele permaneceram em mim por mais um momento antes que ele se virasse e saísse sem dizer mais nada.


Depois de um banho quente que aliviou meus músculos genuinamente doloridos, quando desci para pegar água, encontrei Jonathan fazendo sua ronda noturna.

— Obrigada pela pomada — falei com sinceridade. — Está ajudando bastante.

A testa de Jonathan se franziu em confusão.

— Que pomada, senhora Ashford?

Meu coração falhou uma batida, mas mantive a expressão neutra.

— A pomada com remédio, para a minha alergia? O senhor Ashford disse que o senhor deu para ele.

— Receio que eu não tenha dado nenhuma pomada ao jovem mestre Stefan — Jonathan respondeu, claramente confuso.

— Ah — eu disse, em tom leve —, devo ter entendido errado.

Quando voltei ao sofá, examinei o tubo com mais cuidado. O rótulo da farmácia tinha sido removido, mas a fórmula de força controlada era cara e específica para o meu tipo de dermatite de contato. Por que o Stefan mentiria sobre uma coisa tão trivial? E como ele sabia exatamente que tipo de medicamento eu precisava?

Olhei pela janela, para o luar projetando sombras pelo jardim, analisando aquela pequena mentira. A conclusão mais lógica era desconfortável: ele vinha prestando mais atenção em mim do que gostaria de admitir.


O toque estridente do meu celular me arrancou do sono na manhã seguinte. Antes de atender, conferi meus alertas de notícias e imediatamente me sentei na cama, totalmente desperta.

ESTUDANTE DE DESIGN DE PRINCETON ENFRENTA ACUSAÇÕES DE PLÁGIO, dizia a manchete. MONOGRAFIA PREMIADA DE KATE SUMMERS ESTÁ SOB INVESTIGAÇÃO.

Uma careta que quase poderia ser confundida com um sorriso atravessou meu rosto. No identificador de chamadas aparecia “Kate” — pontual, como previsto.

Respirei fundo e atendi, fazendo a voz soar fraca e rouca de sono:

— Alô?

— SUA VADIA INÚTIL! — o berro de Kate foi tão alto que precisei afastar o telefone do ouvido. — VOCÊ COLOCOU CONTEÚDO PLAGIADO DE PROPÓSITO NA MINHA MONOGRAFIA, NÃO COLOCOU?

— Kate, por favor — eu sussurrei, injetando medo na voz. — E-eu não fiz nada de errado. Talvez tenha acontecido algum erro no verificador automático de plágio...

— Eles estão ameaçando cassar o meu diploma! — ela sibilou. — Você tem alguma ideia do que isso vai fazer com a minha reputação? Com as minhas propostas de emprego?

— Eu posso ajudar a resolver — ofereci timidamente. — Talvez eu consiga...

— Você tem três dias — Kate cortou, ríspida. — Três dias pra consertar essa merda ou eu juro por Deus que vou fazer você se arrepender pelo que restar da sua vidinha patética.

A ligação caiu. Eu abaixei o celular, sentindo meus ombros relaxarem à medida que deixava cair a atuação assustada. Meus lábios se curvaram num pequeno sorriso satisfeito.

Abri o notebook e salvei a gravação da ligação da Kate em uma pasta segura, depois conferi o e-mail anônimo que eu havia enviado para o setor de integridade acadêmica de Princeton dois dias antes. Ao lado, estavam os arquivos originais da monografia da Kate — e a versão modificada que eu havia mandado para ela, com trechos plagiados cuidadosamente inseridos.

— Só o primeiro dominó — murmurei, rolando a tela para ler a política de plágio da universidade, que estabelecia consequências claras para desonestidade acadêmica.

Uma batida na porta me fez fechar o notebook rapidamente. A voz de Jonathan veio do corredor:

— Senhora Ashford? O jovem mestre Stefan gostaria que a senhora estivesse pronta para sair em trinta minutos. Ele pretende comprar as alianças de casamento e alguns itens necessários para a senhora.

— Por favor, diga a ele que estarei pronta em dez minutos — respondi, já me mexendo para trocar de roupa.

Enquanto escolhia uma roupa devidamente discreta, considerei a motivação de Stefan. Ele deve estar prevendo que a mãe dele vai me procurar de novo. Ele precisa que o nosso casamento de contrato pareça real, pelo menos para eles. Guardei com cuidado o notebook no seu esconderijo, garantindo que todas as provas da minha verdadeira natureza continuassem bem ocultas.

O jogo estava evoluindo e, até agora, cada peça se movia exatamente como eu havia planejado.

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