Capítulo 5
Ponto de vista da Emily
Eu estava de pé na garagem subterrânea, esfregando os braços de leve por causa do frio. Tinha vestido um suéter fino e uma calça jeans, e, de propósito, deixei qualquer casaco pesado em casa, segurando só uma jaqueta leve nas mãos. O frio de dezembro penetrava nos ossos, mas era exatamente esse efeito que eu precisava causar.
Olhei o relógio e confirmei que estava exatamente na hora marcada, mas o Stefan ainda não tinha aparecido. Será que esse homem tem o hábito de deixar os outros esperando? Inspirei fundo, revisando mentalmente os objetivos de hoje: parecer frágil, mas não patética; obediente, mas com dignidade; e, o mais importante, fazer com que ele se acostume, sem perceber, à minha presença.
Passos pesados ecoaram na entrada da garagem. Stefan se aproximou com um sobretudo preto, a expressão fechada assim que o olhar dele caiu sobre mim. A testa dele se franziu na mesma hora.
— Você não podia ficar pronta mais rápido? — A irritação na voz dele era clara. — Se arrastando que nem tartaruga. Quanto mais eu olho pra você, mais irritado eu fico.
Apressei o passo para acompanhar o ritmo dele, respirando de propósito de forma um pouco irregular.
— Desculpa, senhor Ashford... — Minhas orelhas estavam realmente vermelhas de frio. — Eu vou fazer o possível pra acompanhar o seu passo.
Ele lançou um olhar na minha direção, pareceu prestes a dizer alguma coisa, mas no fim só balançou a cabeça e seguiu em direção à Mercedes preta estacionada no canto.
No elevador do shopping, Stefan fez um gesto de “primeiro as damas”. Percebi com nitidez a contradição entre essa atitude de cavalheiro e as palavras frias dele. Será que ele era realmente grosseiro, ou estava colocando espinhos de propósito entre nós?
As portas do elevador se abriram e nós entramos. Ele apertou o botão do quinto andar, posicionando-se atrás de mim. Quando as portas se abriram no segundo andar, um grupo de consumidores rindo alto entrou de uma vez. A multidão avançou, me empurrando para trás até eu quase encostar na parede do elevador.
De repente, senti um braço bloqueando mais gente de entrar. Stefan estava atrás de mim, criando um espaço pra eu conseguir respirar. O braço dele formava uma barreira, mantendo a pressão da multidão afastada. Eu podia sentir o cheiro leve do perfume dele misturado com o ar frio de inverno — surpreendentemente reconfortante.
Quando chegamos ao quinto andar, as portas mal tinham se aberto e Stefan, naturalmente, passou o braço pelos meus ombros, me guiando para fora. O calor da palma da mão dele atravessou a minha roupa fina, fazendo meu coração disparar sem explicação. Isso é só um teatro, eu me lembrei; ele só está interpretando o papel de marido. Mas por que o toque dele desencadeava uma reação física tão intensa em mim?
A iluminação do shopping era forte, e o quinto andar era dedicado a roupas e artigos para casa.
— A gente precisa comprar algumas coisas do dia a dia? — perguntei em voz baixa.
Stefan não respondeu, seguindo direto para a seção de acessórios de inverno e escolhendo gorros, cachecóis e luvas. Notei que ele pegava só peças de cashmere de primeira linha, bem caras. Ele parecia casual ao pegar os itens, mas eu o vi examinando com cuidado os detalhes de qualidade nas etiquetas.
— Vem aqui — ele ordenou de repente.
Fui até o lado dele, e ele pegou um cachecol de cashmere azul-escuro, colocando-o no meu pescoço ele mesmo. Os movimentos dele eram duros, como se nunca tivesse feito aquilo por ninguém antes. Ele apertou demais, me fazendo tossir de leve.
— Desculpa — murmurei, ajustando a posição do cachecol. Foi então que reparei em um expositor com luvas estampadas com bichinhos.
— Aquelas com desenho de cachorrinho são fofas — comentei casualmente, apontando.
O olhar de Stefan seguiu a direção do meu dedo, e a boca dele se contraiu quase imperceptivelmente. Ele pegou um par com estampa de ursinho marrom.
— Essas combinam mais.
Aceitei-os e os coloquei, deixando a decepção passar rapidamente pelo meu rosto. Quando levantei o olhar, eu o peguei com um brilho de satisfação nos olhos. Ele gosta de me ver decepcionada? Essa descoberta despertou minha curiosidade.
Entramos na joalheria mais exclusiva do shopping, e uma vendedora veio até nós imediatamente, toda empolgada.
“Senhor Ashford!” A voz dela transbordava surpresa e respeito. “Seja bem-vindo à nossa loja.” O olhar dela pousou em mim por um instante, mal conseguindo esconder a confusão por ver alguém como Stefan Ashford ao lado de alguém tão comum.
“Precisamos de alianças de casamento”, Stefan informou, direto.
Os olhos da vendedora brilharam enquanto nos conduzia até a área premium da vitrine. “Esse anel de diamante que acabou de chegar tem um corte com uma técnica exclusiva”, ela recomendou, ansiosa. “Perfeito para um cavalheiro do seu nível.”
Peguei o anel que ela me ofereceu e, por instinto, levantei-o para examinar sob a luz. O trabalho das facetas do diamante era realmente primoroso, mas havia uma falha minúscula no ângulo de 55 graus — não era o que havia de mais perfeito no mercado. Ao perceber que a minha avaliação profissional podia revelar demais, tratei de mudar rápido para uma postura de consumidora comum. “Ele precisa ser feito sob medida?”
“Sim, senhora. Vamos precisar medir o tamanho do seu dedo”, respondeu a vendedora, me observando com curiosidade.
O celular de Stefan tocou. Ele franziu a testa ao olhar a tela. “Preciso atender”, disse. “Continue olhando.” E saiu da loja.
Assim que ele se afastou, a postura da vendedora ficou imediatamente mais relaxada. Aproveitei a oportunidade: “Essa técnica de lapidação foi desenvolvida pelo estúdio Renoir, em Paris? Tenho interesse na tecnologia de oito corações e oito flechas deles.”
A vendedora me encarou, surpresa. “Você entende de design de joias? Esses detalhes normalmente só chamam a atenção de quem é da área.”
“Apenas um interesse pessoal”, respondi com um sorriso, tentando despistar, enquanto me xingava mentalmente. Eu precisava tomar mais cuidado para não deixar escapar conhecimento demais.
A ligação de Stefan parecia longa. Enquanto eu esperava perto de uma vitrine, uma voz conhecida soou ali perto — Kate e a amiga dela.
Eu rapidamente me escondi atrás de um grande mostruário, prendendo a respiração para ouvir.
“Aquela doentinha patética é inacreditável!” A voz de Kate pingava veneno. “Ela simplesmente roubou a minha tese, mas ainda bem que eu descobri a tempo e denunciei. Todos os professores de Princeton ficaram do meu lado — a carreira acadêmica dela acabou!”
“Ela foi burra assim mesmo? Achou que não iam descobrir?” A amiga de Kate riu.
“Vivendo com aquela cara de doente o tempo todo — não passar dos trinta seria até um alívio”, disse Kate, cruel. “A minha mãe falou que ela se casou, mas eu não consigo imaginar o coitado que ela enganou.”
Eu ouvi tudo com calma, o olhar ficando mais cortante. O plano estava indo melhor do que eu esperava — Kate estava entrando direto na armadilha. As primeiras peças já estavam no lugar, agora era só esperar o momento certo...
“Meu Deus!” De repente Kate baixou a voz, mudando de tom. “Olha ali — quem é aquele homem? Ele é maravilhoso!”
Seguindo o olhar dela, vi Stefan do lado de fora, falando ao telefone, se destacando na multidão com sua postura imponente e expressão séria.
Kate não fazia ideia de que a “doentinha patética” que ela estava difamando era a esposa daquele homem deslumbrante. Essa coincidência irônica trouxe um sorriso gelado aos meus lábios. Espere para ver, querida prima — você vai descobrir em breve como as piadas do destino podem ser cruéis.
