Capítulo 6

Ponto de vista da Emily

Continuei escondida atrás da vitrine de joias, as pontas dos dedos apoiadas de leve no vidro frio, enquanto a voz da Kate ecoava nítida pela loja. Ela já tinha parado de reclamar dos problemas acadêmicos e agora se gabava da vida pessoal.

“Meu namorado é simplesmente perfeito”, anunciou Kate para a amiga, a voz transbordando autossatisfação. “Aquela safira rosa que ele me deu semana passada custou mais do que muita gente ganha em meses.”

Minhas orelhas se aguçaram. Embora eu mantivesse a expressão neutra, registrei mentalmente aquela informação. O namorado da Kate — o “príncipe do campus” Max Thomas. O mesmo Max que um dia disse que me amava, antes da Kate decidir que queria ficar com ele.

“Você é muito sortuda”, suspirou Erin, invejosa. “O Max é praticamente realeza do campus. Todo mundo morre de inveja.”

A risada da Kate soou como vidro se quebrando. “Ele tem mais é que me tratar bem. Afinal, ele fez um upgrade quando largou aquela doentinha patética por minha causa.”

Uma frieza familiar se instalou no meu peito. “Doentinha patética.” Essa era eu — a prima com o misterioso distúrbio imunológico, aquela que não conseguia reagir. Observei o reflexo da Kate no vidro, reparando em como ela jogava o cabelo para trás e conferia a própria aparência em qualquer superfície refletiva. Tão previsível.

“Vamos”, disse Kate, puxando a manga de Erin. “Quero ver aquele colar de edição limitada. O Max paga.”

Voltei minha atenção para os anéis de diamante, fingindo estar totalmente absorvida por eles, mas sem deixar de estar agudamente consciente de tudo ao redor. O peso do olhar de alguém me fez ficar um pouco tensa. Ouvi o sussurro surpreso de Erin.

“Kate, olha quem tá ali. Não é a Emily?”

O ar pareceu esfriar quando os olhos da Kate pousaram em mim. “Olha só. Parece que alguém finalmente saiu do buraquinho onde se enfiou.”

Mantive a respiração firme, me recusando a dar a ela o prazer de me ver abalada. A vendedora voltou até mim, sem perceber a tensão.

“Esse é o modelo de diamante em lágrima, assinatura da Eva”, explicou, empolgada. “Dez quilates, com pouquíssimas peças disponíveis no mundo.”

Não consegui evitar analisar o anel com olhar profissional. “A técnica de lapidação é bem especial. A refração da luz está excepcional.” As palavras escaparam antes que eu pudesse me segurar.

As sobrancelhas da vendedora se ergueram. “Você entende de design de joias? A maioria das pessoas nem repara nesses detalhes técnicos.”

Tratei de recuar rápido. “Só um hobby.” Mas, por dentro, eu avaliava a peça. Aquele anel custaria pelo menos oito dígitos — perfeitamente adequado ao status do Stefan.

De repente, Kate surgiu ao nosso lado, esticando a mão para pegar a caixinha do anel que eu examinava. “Esse aqui parece bonito”, disse, pegando-o sem pedir licença.

Erin entrou na conversa na mesma hora. “Kate, essa é uma peça de coleção de uma designer de fama mundial!”

O sorriso da vendedora ficou mais rígido. “Sinto muito, mas essa peça é reservada para clientes VIP e ainda não está disponível para venda.”

Os olhos da Kate se estreitaram. “Você é nova aqui? Não sabe que o cliente sempre tem razão?”

O gerente da loja apressou-se até nós, a ansiedade estampada no rosto. “Peço desculpas por qualquer mal-entendido. Ela é uma funcionária nova e ainda está aprendendo nossos protocolos.”

A expressão da Kate foi ficando mais presunçosa a cada pedido de desculpas. Ela me lançou um olhar triunfante antes de anunciar:

— Vou ficar com esse anel. Meu namorado vai pagar.

Do jeito que ela enfatizou “namorado” enquanto olhava pra mim, ficou claríssimo o que ela queria: me machucar.

Depois que a Kate saiu com o anel, a vendedora voltou até mim, falando num tom mais baixo, quase culpado:

— Me desculpa mesmo. A moça fez questão justamente desse anel.

Dei a ela um sorriso tranquilo.

— Tá tudo bem. Posso ver outros modelos.

Fiz questão de que meus olhos mostrassem compreensão, não frustração.

— Você é muito compreensiva — disse a vendedora, aliviada. — Vou separar umas peças parecidas, de alto padrão, pra você dar uma olhada.

Enquanto ela se afastava, observei discretamente a expressão da Kate pelo reflexo de um espelho. Ela me encarava, claramente esperando encontrar sofrimento ou raiva no meu rosto. Que decepção pra ela não receber essa satisfação.

Kate veio na minha direção, pisando duro, e levantou a voz de propósito:

— Sumida de casa há dias… andou dormindo com homem por aí, Emily?

Meus dedos tremeram de leve — não de medo, mas de uma raiva genuína que eu reprimi rapidamente. Não era nem a hora nem o lugar pra mostrar o que eu realmente sentia.

— Lixo de vida curta, igual aos seus pais — continuou Kate, venenosa. — Por que você não morreu naquele acidente junto com eles?

Erin deu uma risadinha ao lado dela, incentivando a crueldade da Kate. Meu estômago se contraiu, mas por fora eu continuei calma.

— E aqueles trabalhos que você fez pra mim? — acrescentou Kate. — Malfeitos. O professor me chamou a atenção na frente de todo mundo por causa dos seus erros.

— Eu vou arrumar — respondi baixinho, enquanto pensava: Ela nem imagina que esses “erros” foram inseridos de propósito pra criar um padrão de má conduta acadêmica no histórico dela. Cada falha cuidadosamente planejada pra parecer coisa dela, não minha.

O gerente da loja se aproximou da Kate e falou tão baixo que eu tive que fazer esforço pra ouvir:

— Senhorita, o seu namorado disse que… a senhora vai precisar cuidar do pagamento sozinha.

O rosto da Kate se transformou — primeiro choque, depois a raiva subiu, inundando suas feições. Ela puxou o celular na hora e começou a tocar na tela com força.

— Que porra é essa, Max? — praticamente gritou no telefone. — Você vai ser mão de vaca justo agora? Isso não é nada pra você!

Finji conferir meu próprio celular enquanto escutava atentamente o lado dela da conversa.

— Que o safira rosa estourou seus cartões? Você tá de brincadeira comigo? — a voz da Kate subia a cada palavra. — Você me prometeu…

Ela encerrou a chamada de repente, as veias da testa à mostra, pulsando. Observei enquanto ela tirava o próprio cartão de crédito, relutante, a mão tremendo de verdade quando entregou ao caixa. Interessante, pensei. A situação financeira dela deve estar bem mais frágil do que ela deixa transparecer.

Enquanto a transação era processada, aproveitei pra mandar mensagem pro Stefan:

“Tá demorando mais do que eu imaginava. Ainda vendo opções.”

Kate me viu digitando e veio até mim furiosa.

— Você tá me ignorando enquanto eu tô falando com você? — exigiu, o rosto vermelho de raiva.

Ergui o olhar devagar, mantendo a expressão cuidadosamente neutra. A fúria dela era exatamente o que eu esperava — a Kate sempre foi a própria inimiga.

— Como você ousa?!

A voz dela ecoou pela loja, fazendo os clientes se virarem pra olhar. Eu continuei em silêncio, assistindo enquanto a imagem de sofisticação que a Kate tanto cultivava desmoronava em público — e sem que eu precisasse dizer uma única palavra.

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