Capítulo 1
Ponto de vista de Fiona
— Fiona, com o que você está sonhando acordada? Já terminou de testar todos os equipamentos de que precisamos?
— Quantas vezes eu tenho que te lembrar? O simpósio que estamos realizando hoje é extremamente importante, e os convidados presentes são figuras influentes. Não podemos cometer absolutamente nenhum erro.
— Francamente, se não fosse pelo fato de o duque Sterling ser tio dela, quem ia querer essa garota estúpida nos atrapalhando na biblioteca?
— Está vendo? É isso que acontece quando lobisomens e humanos se misturam sem pensar. Embora os filhos mestiços tenham uma chance em dez mil de se tornarem prodígios, a maioria não passa de desperdícios medíocres. Não herdam nem a inteligência refinada dos humanos nem a força formidável dos lobisomens.
— Eu nunca imaginei que o professor Thorne realmente aceitaria ficar noivo dela. Acho que os requisitos de linhagem do clã Lobo Cinzento não são tão rigorosos quanto pensávamos.
— Bem, não há o que fazer. Dizem que a família Thorne vai se tornar membro do gabinete da próxima Associação de Coexistência entre Humanos e Lobisomens. Escolher uma noiva mestiça com linhagem humana será a forma politicamente correta de declarar lealdade. Além disso, o duque Sterling prometeu um dote generoso.
Eu apertava contra o peito uma pilha grossa de materiais de palestra enquanto esses colegas, ocupados organizando o local, me davam ordens e me empurravam de um lado para o outro.
Falavam livremente, na minha frente, sobre a minha família, a minha origem, o meu noivo, meus pais biológicos desaparecidos havia anos, e meu cabelo ruivo sem graça e minhas lentes de óculos grossas como o fundo de garrafas de bebida.
— Cuidado, Fiona.
Virei-me e tropecei nos braços de um homem.
Ele franziu a testa e baixou a cabeça com certa impaciência, claramente preocupado que eu pudesse amassar sua roupa.
Era o meu noivo, Caleb Thorne.
Hoje ele estava vestido com um esmero especial, num terno de três peças cinza-carvão, bem cortado, que delineava perfeitamente seu corpo alto e esguio. Uma gravata de veludo vermelho-escuro estava ajustada em seu colarinho — a cor representativa da família Sterling.
Seus característicos óculos de aro dourado repousavam sobre o nariz, e, por trás das lentes, seus olhos estreitos sempre carregavam um escrutínio condescendente.
Aos olhos dos outros, ele era o mais jovem professor associado de literatura da Universidade St. Mary's, um cavalheiro refinado e erudito, a estrela em ascensão da geração mais jovem entre os Lobos Cinzentos.
Mas eu sabia que tipo de alma podre se escondia sob aquela aparência impecável.
— Desculpa, Caleb. — pedi em voz baixa, enfiando algo no bolso com uma das mãos.
— Escute com atenção: neste ambiente, você deve me chamar de professor Thorne. Além disso, estou devolvendo este livro para você. Não preciso mais dele.
Caleb não me firmou imediatamente, deixando que eu me debatesse em seus braços por alguns segundos.
Só depois de confirmar que nenhum convidado por perto havia notado aquela cena constrangedora, ele estendeu a mão e, num gesto aparentemente cavalheiresco, ajustou os pesados óculos no meu nariz.
Ao mesmo tempo, colocou em minhas mãos o exemplar de O Amante de Lady Chatterley que havia pegado emprestado no balcão da biblioteca onde eu trabalhava naquela mesma manhã.
Seus dedos eram longos e frios, e, no instante em que tocaram minha bochecha, senti um cheiro.
Era uma mistura de almíscar, suor e um creme para as mãos barato com aroma de morango.
Um cheiro que pertencia unicamente a Emily.
Eu sabia que, naquele exato momento, ela estava escondida atrás daquela porta coberta por cortinas.
Terminarem o encontro íntimo e saírem um depois do outro com Caleb era a rotina silenciosamente combinada dos dois.
— Toc!
Perdida em pensamentos, deixei o livro escorregar e cair no chão.
— Fiona, quando é que você vai aprender a ser mais atenta?
Caleb se abaixou para pegar o livro e, mais uma vez, me repreendeu com impaciência.
— Vá verificar o projetor. Preciso garantir que a apresentação que está por vir transcorra sem nenhum problema.
— Sim, professor Thorne.
Abracei os materiais da palestra e recuei em silêncio até o painel de controle.
Caleb se virou e caminhou em direção ao púlpito.
Havia uma rigidez sutil em seu andar — a passada da perna direita estava ligeiramente mais curta do que o normal.
Meu olhar caiu sobre aquela gravata de veludo vermelho-escuro.
O nó estava um pouco frouxo, claramente refeito às pressas. Sob a parte que cobria seu colarinho, aparecia uma pequena marca vermelho-escura.
Não era uma mancha de batom.
Era um arranhão.
Profundo, a ponto até de deixar escapar um filete de sangue.
Ajustei os óculos e desviei o olhar.
Com certeza, a silhueta de Emily surgiu de trás da cortina, correndo apressada como um esquilo-cinzento assustado.
Depois de mais uma vez se parabenizar por ter escapado das garras de um predador, ela exibiu os dentes da frente num sorriso presunçoso.
Baixei os olhos para o exemplar de O Amante de Lady Chatterley em meus braços, onde um dos cantos mostrava vincos reveladores.
Ao abri-lo, encontrei linhas do texto circuladas a lápis.
Era a tradução em klingon.
Juntas, as palavras significavam—
Sua presa espera por você no lugar de sempre, o corpo dela, sob a pele, úmido e aberto para você.
O número da página era o horário do encontro.
Era assim que eles trocavam códigos para encontros românticos bem debaixo do meu nariz, alternando com frequência entre várias edições traduzidas.
Uma pessoa devolvia o livro primeiro, e a outra vinha logo em seguida para pegá-lo emprestado.
E aparentemente nunca suspeitaram—
Que eu, esta caipira que só tinha estudado numa faculdade comunitária, também era fluente em mais de uma dúzia de idiomas.
A hora de abertura da palestra chegou, e Caleb já havia tomado seu lugar no púlpito.
Primeiro, ele baixou os olhos para o relógio de bolso e depois lançou um olhar ansioso para alguns assentos vazios na primeira fila.
O anfitrião do evento se aproximou dele e disse alguma coisa.
Apurei os ouvidos e captei algo sobre alguma figura importante estar temporariamente impossibilitada de comparecer por causa de um pequeno imprevisto.
“Não tem escolha. Vamos começar sem esperar.”
Caleb soprou no microfone ao mesmo tempo em que apertava o controle do projetor da tela grande.
Nenhuma resposta?
Ele voltou o olhar para mim, os olhos cheios de censura, claramente questionando por que, depois de tantos lembretes repetidos, algo ainda tinha dado errado.
Mas o que ele não sabia era que o interruptor remoto de todo o sistema de controle multimídia estava guardado no meu bolso o tempo todo.
“Desculpem, pessoal. Parece que nosso equipamento multimídia apresentou um pequeno problema. Por favor, aguardem um momento.”
Caleb continuou me lançando olhares carregados de significado, sinalizando para que eu subisse e consertasse aquilo logo.
Mas naquele exato instante, a tela de repente se acendeu.
O que apareceu diante dos olhos de todos foi um vídeo em alta definição.
A filmagem estava um pouco tremida, claramente gravada em algum espaço secreto e apertado.
A iluminação era fraca, com apenas alguns raios de sol atravessando as frestas das persianas, projetando sombras manchadas no chão.
Então, a figura de um homem apareceu no enquadramento.
Ele vestia uma camisa social branca, com a gravata torta, e óculos de aro dourado apoiados no nariz, parecendo ao mesmo tempo refinado e devasso.
Era Caleb.
Ele tinha uma mulher prensada contra uma mesa de escritório, seus movimentos bruscos e urgentes.
“Ah! Caleb... eu vou gozar! Mais rápido, mais rápido!”
Os gemidos açucarados da mulher, transmitidos pelo sistema de som premium da sala de conferências, ecoaram com clareza por cada canto.
Ela usava um suéter de tricô vermelho, com o decote rasgado, expondo grandes extensões de pele pálida. O cabelo caía em desalinho sobre os ombros, e o rosto exibia uma expressão de dor e êxtase ao mesmo tempo.
Ela não era outra senão Emily, uma aluna júnior de literatura da faculdade de Caleb.
Naquele momento, ela se contorcia como uma cadela no cio, as pernas enroladas na cintura de Caleb, acompanhando seus movimentos.
“Grita!”
A voz de Caleb no vídeo estava especialmente baixa e carnal: “Diz bem alto—de quem você é!”
“Eu sou sua... sou sua guardiã de caça... sou a putinha que cuida do seu rebanho.”
Emily gemeu alto, a voz cheia do prazer da conquista.
A plateia abaixo ficou em choque.
Alguns arregalaram os olhos e ficaram de boca aberta, alguns cobriram os olhos, e alguns até tiraram os celulares para começar a gravar.
“Droga! Que porra está acontecendo!”
Caleb apertou freneticamente o painel de controle, mas todos os botões pareciam deliberadamente soldados, completamente sem resposta.
“Desgraçados! Cortem a energia!”
No instante em que o disjuntor foi desligado, todo o local mergulhou na escuridão.
Mas a bateria reserva, que eu havia adulterado de antemão, continuou funcionando incansavelmente em alta velocidade.
Com as luzes apagadas, a imagem do equipamento de projeção só ficou mais nítida!
“É inútil, professor Thorne.”
Caminhei lentamente até a frente do palco, segurando o controle remoto preto, com um sorriso frio se curvando em meus lábios.
“Mesmo que desliguem a energia da biblioteca inteira, será em vão.”
Eu vinha planejando aquele momento havia mais de um mês.
Para rasgar sua verdadeira face hipócrita e desprezível e exibi-la diante de todos!
