Capítulo 2
Ponto de vista de Fiona
As imagens na tela ficavam mais sórdidas, mais explícitas a cada segundo.
Caleb rasgou o vestido de Emily, expondo a lingerie de renda por baixo. Ele foi deixando uma marca de beijo carmim atrás da outra pelo corpo dela, como um homem carimbando seu selo, marcando sua posse.
“...Caleb, você a ama? A Fiona — aquela quatro-olhos sem graça — você a ama?”
Emily rebolou o quadril, ofegando o meu nome.
“Você só pode estar brincando”, Caleb escarneceu, os movimentos ficando mais brutos. “Aquela mestiçazinha barata — como ela poderia se comparar a você, tão doce, minha querida? Ah! Você é incrível, amor, eu não vou aguentar por muito mais tempo!”
Com um grito descontrolado de Emily, os corpos nus dos dois convulsionaram juntos, enroscados como um só, atingindo o ápice exatamente no mesmo instante.
Um silêncio mortal caiu sobre a sala de conferências, quebrado apenas pelos sons implacáveis que vinham da tela.
Todos os olhares estavam fixos em Caleb, lá no palco, transbordando choque, desprezo e nojo.
Caleb estava de pé atrás do púlpito; seu rosto passou da estupefação inicial para um branco cadavérico e, por fim, para um vermelho vivo, arroxeado. O corpo inteiro tremia; as veias saltavam nas têmporas enquanto ele fuzilava o controle remoto na minha mão.
“Fiona!”, ele rugiu, a voz carregada de fúria e vergonha. “Desliga esse vídeo! Desliga!”
Eu me levantei devagar, tirando os óculos pesados de armação redonda para revelar um par de olhos que cintilavam como âmbar — um dourado acinzentado.
“Caleb”, eu disse, observando-o com calma, sem a menor ondulação de emoção no tom. “Eu já te disse. A menos que seja o controle remoto na minha mão, sua única opção é destruir o console inteiro na força.”
“Não quer tentar? Para um lobo nobre, de sangue puro como você, isso deveria ser fácil, não deveria?”
“Ah, eu quase me esqueci — você é o candidato mais favorecido para o próximo gabinete do Conselho de Coexistência entre Humanos e Lobisomens. Certamente, professor Thorne, você não violaria os termos do tratado exibindo sua natureza de lobo mais primitiva, mais violenta, diante de todos esses dignitários humanos, não é?”
“Isso faria tudo o que você tem hoje — sua reputação, sua posição, suas conquistas acadêmicas, suas roupas elegantes, seu gosto refinado — parecer tão tolo e absurdo!”
“Adeus, seu hipócrita nojento e moralista!”
Apertei o botão de repetição no controle e deixei um sorriso misterioso cruzar meus lábios.
Então apanhei a saia e desapareci num lampejo por uma porta lateral.
Corri pelo longo corredor do subsolo da biblioteca, empurrei a pesada porta corta-fogo e me escondi no lugar que era o meu túmulo —
A Sala de Catalogação de Manuscritos Raros.
Com uma mão pressionada ao coração, senti suas batidas selvagens e irregulares, e cada respiração trazia o gosto enferrujado de sangue.
Encostei as costas na porta de ferro gelada, deslizei devagar por sua superfície e desabei no chão coberto de poeira.
Tremendo.
Tremendo sem conseguir parar.
“Fiona, você foi ingênua demais.”
Arranquei o cabelo vermelho que eu usara como disfarce por tantos anos e encarei o espelho, revelando cabelos do ouro mais puro, impecável.
Aos olhos do mundo, aquilo era a marca suprema da nobreza — e agora servia apenas para selar meu destino miserável.
Houve um tempo em que eu também acreditei que Caleb seria meu anjo, minha luz.
Era o terceiro inverno depois que meus pais desapareceram. O velho casarão Sterling era tão frio e úmido quanto uma câmara de gelo. Meu tio Arthur me acolhera, mas seus olhos sempre guardavam um brilho de cálculo e ganância.
Naquela época, eu era como um ouriço despido de todos os espinhos, tremendo num mundo cheio de maldade.
Então Caleb apareceu.
Ele estava de pé sob o visco, numa camisa branca impecável, sorrindo enquanto me dizia: “Fiona, seus olhos são lindos — como âmbar. Não fique sempre de cabeça baixa. Você merece ser vista.”
Eu pensei que aquele professor gentil e culto seria como um cavaleiro de conto de fadas, me puxando para fora do abismo.
Por ele, eu embainhei todas as minhas arestas e aprendi a ser uma noiva dócil.
Aguentei as zombarias da minha prima Victoria, aguentei os olhares frios do meu tio, até aguentei os lampejos de impaciência que Caleb deixava escapar de vez em quando.
Eu achava que, se eu fosse boa o bastante, obediente o bastante, talvez ganhasse em troca ao menos uma migalha de sentimento verdadeiro.
E o que isso me trouxe?
“Ugh...”
Um espasmo violento agarrou meu coração, como se uma mão gigante invisível tivesse se fechado em torno dele.
Eu me encolhi de dor, a mão direita cravando as unhas no peito.
Essa dor não vinha apenas da traição.
Vinha, mais ainda, disso—
O despertar de uma linhagem que eu ainda não conseguia controlar.
À medida que minhas emoções explodiam violentamente — raiva, luto, humilhação — o poder adormecido dentro de mim começava a se agitar, despertando. Minha visão começou a arder em vermelho e, no fundo das minhas pupilas antes negras, uma camada deslumbrante de ouro começou a brilhar, tênue.
Era o poder do povo da minha mãe, os Lobos Dourados — o sangue de cura mais antigo e poderoso de todos.
O ar ao meu redor ficou denso, e os livros nas prateleiras começaram a se mexer por conta própria, farfalhando apesar de não haver vento.
Cerrei os dentes, as unhas cravando fundo nas palmas, e um chamado se ergueu na minha mente — as últimas palavras que minha mãe me deixou.
“Fiona, lembre-se do que sua mãe diz.”
“Se aqueles gananciosos algum dia descobrirem que você carrega o Sangue Sagrado de Cura, o dom mais poderoso que uma criança meio-sangue pode possuir, você vai enfrentar calamidade sem fim.”
“Você precisa esconder esse cabelo dourado puro, usar os óculos, bancar a boba, ocultar seus dons. Faça isso até encontrar um jeito de destrancar o Livro Proibido de Deus e obter o poder para se proteger.”
O sangue dos Lobos Dourados estava rejeitando meu frágil corpo humano; cada batida do coração parecia rasgar minhas veias. Se eu não me acalmasse logo, eu poderia enlouquecer e ficar selvagem ali mesmo, na hora, expondo aqueles olhos dourados.
“Eu tenho que chegar… à Seção Proibida…”
Apoiando-me na parede, lutei para ficar de pé.
No canto mais profundo da sala de catalogação havia uma estante comum, sem nada de especial.
Cambaleei até ela e digitei uma sequência complexa de números.
Com um clique, a estante deslizou, separando-se para os dois lados, revelando uma escadaria escura que descia para as profundezas.
Aquela era a zona absolutamente proibida da Biblioteca da Universidade St. Mary’s — a Seção Proibida da Lua de Prata.
Diziam que ela abrigava todo conhecimento tabu da história da raça dos lobos, e que nem mesmo o reitor da universidade tinha uma chave.
Mas eu sabia.
Porque toda vez que eu perdia o controle das minhas emoções, eu conseguia ouvir um chamado vindo de lá. Era uma proteção deixada pelo povo da minha mãe — o único lugar capaz de acalmar a besta dourada dentro de mim.
Desci as escadas, um degrau de cada vez.
O suor encharcava minhas roupas, e uma película de névoa branca embaçava meus óculos.
Por fim, cheguei ao fundo.
Ali havia uma porta maciça de pedra, toda entalhada com runas antigas.
Estendi uma mão trêmula e a pressionei contra a pedra.
“Eu sou Fiona Sterling”, sussurrei, fraca. “Pelo sangue do Lobo Dourado, eu peço… santuário.”
As runas na porta se acenderam num instante, brilhando com uma luz dourada suave.
Uma corrente fria se infiltrou pelas frestas da porta e envolveu meu corpo inteiro num momento.
E, naquele exato instante, de dentro da escuridão nas profundezas da Seção Proibida, veio um uivo baixo e gutural de lobo.
Não era um uivo comum.
Era um bramido dos campos de gelo árticos, o grito de um predador no topo da cadeia.
Então uma figura alta deu um passo para fora das sombras.
Atrás de mim, a pesada porta de pedra coberta de runas girou devagar até se fechar, selando por completo tanto o alvoroço do mundo lá fora quanto o calor febril dentro de mim.
O ar na Seção Proibida era denso com um cheiro ao mesmo tempo antigo e seco — o odor de pergaminho de milhares de anos, misturado a tinta há muito ressecada.
Mas agora esse cheiro era rudemente rasgado por outro, muito mais avassalador e cortante.
Cedro.
Cedro frio e afiado, trazendo o arrepio de um vendaval siberiano — misturado a um traço de algo que fez meu coração dar um solavanco… o cheiro de sangue.
Agarrei-me à estante e virei a cabeça com dificuldade.
Sob as lâmpadas fracas, eternamente acesas, da Seção Proibida, um homem alto se apoiava na estante na extremidade mais distante.
Ele parecia péssimo — e, ainda assim, seus traços eram absurdamente lindos.
Seu sobretudo preto estava rasgado em um ponto, revelando por baixo uma camisa branca completamente encharcada de sangue.
Mechas de cabelo prateado caíam em desalinho sobre a testa, escondendo metade de um olho — mas não conseguiam esconder aquelas íris, profundas e azuis como geleiras árticas.
Naquele momento, dois focos de fogo-lobo azul-pálido ardiam dentro daqueles olhos.
Cautelosos, selvagens — mas, no instante em que pousaram em mim, um lampejo de espanto atravessou-os.
“Você…”
A voz dele estava rouca, como se houvesse areia presa na garganta.
