Capítulo 3
Ponto de vista de Fiona
Mas, antes que ele pudesse falar, meu corpo já tinha reagido sozinho.
Como descendente dos Lobos Dourados, meu cheiro exercia uma atração letal sobre qualquer lobo — e ele —
Reconheci aquele cabelo prateado e, em silêncio, nomeei-o na minha mente.
Alexander von Volkov.
O príncipe que carregava o sangue mais puro da linhagem do Lobo Ártico.
O sangue dourado que vinha me atormentando com seu calor inquieto — no instante em que captou o cheiro dele, aquietou-se, milagrosamente, como lava fervente encontrando uma geleira ancestral. Ainda queimava, mas já não rugia fora de controle.
“Você está ferido”, eu disse, baixo.
Alexander franziu a testa e tentou se endireitar, para preservar a dignidade que um príncipe ainda pudesse reunir. No momento em que se mexeu, o rosto dele empalideceu até um branco cadavérico, e um gemido abafado lhe escapou enquanto ele escorregava da prateleira e desabava no chão.
“Droga…”
Ele forçou a palavra entre os dentes cerrados.
Fui até ele depressa e me agachei.
Mesmo naquele estado miserável, a aura esmagadora de autoridade que o cercava era quase sufocante. Mas eu sabia que era só a superfície.
Sem hesitar, rasguei a lateral da camisa dele.
O ferimento era horrível. Uma bala de prata estava enterrada fundo nas costelas esquerdas; a carne ao redor estava chamuscada e enegrecida, e sangue escuro, envenenado, escorria de forma constante.
“Não se mexa.”
Agarrei a mão dele quando tentou me empurrar para longe.
No instante em que minha palma tocou a pele ardente dele, o corpo inteiro dele estremeceu violentamente, e aqueles olhos azuis se encheram de imediato de uma cautela gelada e de vontade de matar.
“Cai fora, humana imprudente…”, ele rosnou, as presas de lobo captando um brilho pálido na luz fraca. “Se quer viver, fique longe de mim!”
“Você não se lembra de mim? Eu sou Fiona Sterling.”
Sustentei o olhar dele e disse devagar, palavra por palavra.
Dez anos atrás, nesta mesma seção proibida subterrânea desta mesma biblioteca, nós já tínhamos nos encontrado uma vez.
Deixei a aura reprimida do lobo dourado se erguer — só um fio dela, uma vibração tênue carregando o calor da cura.
As pupilas de Alexander se contraíram bruscamente. Como um gato que sente o cheiro de erva-de-gato, o corpo dele, tenso e rígido um instante antes, ficou duro — e então, estranhamente, cedeu.
“Fiona…”, ele murmurou, a voz tremendo. “É você mesmo…”
“Este lugar não é seguro. O cheiro do seu sangue está forte. Vai atrair quem quer que esteja atrás de você.”
Não havia tempo para colocar a conversa em dia.
Cerrei o maxilar, reuni cada migalha de força que eu tinha, passei um dos braços dele por cima dos meus ombros e, meio arrastando, meio carregando, pus Alexander de pé.
A estante deslizou para o lado, revelando uma pequena porta escondida atrás dela.
Este era o meu refúgio secreto — um santuário absoluto do qual nem meu tio sabia.
Deitei-o no sofá, sobre o cobertor grosso de lã.
Ele era absurdamente pesado. Mesmo enfraquecido, o peso sólido dele me deixou sem fôlego.
“Aguente.”
Virei-me e peguei o kit de primeiros socorros no armário, junto com o pote de pomada especial de ervas que minha mãe tinha deixado.
Quando me virei de volta, com a gaze encharcada de pomada na mão, Alexander já tinha perdido o controle por completo.
O veneno de prata estava corroendo a razão dele, arrastando-o para um estado meio feral.
Ele estava largado contra o encosto do sofá. A gravata tinha sido puxada de lado; vários botões da camisa tinham estourado, expondo um peito largo e poderoso, marcado por cicatrizes antigas.
Aquele olhar azul já não tinha foco. Só restava a fome e o desejo mais primitivos.
“Fique… longe…”
A respiração dele vinha irregular, a voz áspera, em carne viva. “Eu vou… te machucar…”
“Não, não vai.”
Ajoelhei-me diante do sofá e pressionei com firmeza o ferimento dele, trabalhando a pomada.
Um silvo agudo de dor — ele puxou o ar — e, no instante seguinte, ele se virou de supetão e me prendeu sob o corpo dele.
O quarto girou.
Minhas costas bateram no cobertor macio de lã, e eu nem tive tempo de gritar antes que os lábios dele descessem com força sobre os meus.
Aquilo não era um beijo. Era um ataque.
Sangue e ervas e uma necessidade masculina avassaladora — tudo invadiu minha boca, sem dar trégua. Os dentes dele rasgaram meu lábio; a língua dele varreu cada centímetro de mim, sem aceitar resistência.
A palma dele, escaldante, segurou a nuca da minha cabeça e a manteve firme, sem me dar qualquer abertura para me afastar.
Eu lutei, as duas mãos apoiadas no peito dele — e empurrei uma montanha.
Eu sentia ele tremer. Ele lutava contra o instinto de fechar as mandíbulas em torno da minha garganta, mesmo sem conseguir resistir à aura de cura no meu sangue, que o puxava com uma força contra a qual nada podia lutar.
Ele estava bebendo a minha saliva — ou melhor, usando aquilo para extrair de mim a força de cura e combater o veneno de prata.
Pouco a pouco, parei de me debater.
Porque eu tinha sentido nele o cheiro de cedro — aquele que fazia tudo dentro de mim se aquietar.
Minha mão direita ficou caída, inerte, mas a esquerda se ergueu devagar e foi repousar, de leve, nas costas dele, úmidas de suor.
Alexander pareceu perceber a mudança em mim. O movimento dele desacelerou.
A pressão feroz, devoradora, amoleceu e virou algo mais suave. Ele contornou meus lábios como se saboreasse uma iguaria perdida para o mundo havia séculos.
Por muito tempo.
Tempo demais.
Até que nós dois quase ficamos sem ar, ele enfim ergueu a cabeça.
A testa dele encostou na minha e, pela primeira vez, um fio tênue de lucidez voltou àqueles olhos azuis.
Ele olhou para meus lábios inchados e para as lágrimas que se juntaram nos cantos dos meus olhos pela falta de ar, e sua expressão se tornou impossível de decifrar.
— Eu tenho que ir. Estão me chamando.
Disse Alexander.
Quando voltei para a Mansão Sterling, já era alta madrugada.
As portas entalhadas de nogueira-preta se fecharam atrás de mim com um baque pesado, barrando o vento e a chuva — mas nada podia barrar o peso sufocante que pressionava cada canto daquela casa.
A sala de estar estava escura. Só a lareira ardia, e a luz dela esticava a sombra do homem sentado na poltrona principal pelo chão, longa, como uma criatura exibindo as garras.
Arthur Sterling.
Meu tio. O atual chefe do Consórcio Sterling. Meu guardião, no papel.
Ele segurava um charuto entre os dedos, e a ponta incandescente pulsava, entrando e saindo da escuridão.
— Ajoelhe-se.
Ele não olhou para mim. Sua voz era tão indiferente quanto se estivesse dando uma ordem a um cachorro.
Eu não me mexi. Apenas fiquei no hall de entrada, com o controle remoto ridículo ainda preso na minha mão.
Eu não fazia ideia do que Caleb tinha feito no salão de conferências depois que eu fugi. Talvez ele tivesse mesmo despedaçado o console de mídia de várias toneladas. Talvez tivesse mordido cada um dos convidados na sala para apagar a memória do que tinham visto.
— Tio Arthur — eu disse, com calma —, imagino que o senhor já tenha visto as notícias. Depois desta noite, Caleb Thorne e eu acabamos — completa e irrevogavelmente.
Crac!
Arthur esmagou o charuto no cinzeiro de cristal com um estalo seco e abafado.
Ele se levantou, atravessou a sala em passadas longas e parou diante de mim. Seus olhos turvos ardiam.
Ergueu a mão para me bater.
Eu não recuei.
Mas, no instante em que a palma ia alcançar meu rosto, ele parou.
Porque tinha visto meus olhos.
À luz do fogo, os olhos que deveriam estar suaves e amedrontados agora traziam um brilho frio que ele nunca tinha visto ali antes — um brilho que o fez hesitar.
— Tio — eu disse, sustentando o olhar dele sem piscar, a voz baixa, mas cada palavra caindo com o peso do ferro —, se o senhor ainda insistir em me prender a esse noivado depois de tudo o que aconteceu esta noite, só vai arrastar o nome de toda a família Sterling para a lama.
— Você ousa dizer que sou eu quem arrasta o nome para a lama!
Os músculos do rosto de Arthur se contraíram. As pupilas dele se estreitaram até virarem pontos.
— Para algo tão manchado quanto o seu sangue mestiço, conseguir a aceitação da família Thorne já era mais do que você merecia. Por que faria uma coisa tão absurda?
Aos olhos de Arthur, o caso de Caleb com uma estudante mal chegava a ser uma mancha.
Era simplesmente o tipo de conduta privada que um lobisomem mantinha enquanto apresentava à sociedade humana uma fachada de convivência civilizada —
— Você tem ideia de quanta influência a família Thorne tem no Conselho de Coexistência? Tem ideia de quantos interesses comerciais compartilhamos? E tudo por causa do seu orgulho mesquinho e patético! Fiona — você sabe quantos inimigos vai criar para a família Sterling?
— Inimigos? — escapou de mim uma risada fria. — E deixar ele sugar até a última gota da fortuna da família Sterling e depois nos chutar para o lado… isso não conta como criar inimigos?
— Chega.
Uma voz feminina, cortante, nos interrompeu.
Minha prima Victoria desceu a escada.
Ela tinha trocado o vestido de grife e vestia um robe de seda. O olhar que ela lançou para mim estava carregado de veneno.
— Fiona. Você ainda tem a cara de pau de voltar?
