Capítulo 5

Ponto de vista de Fiona

A porta se escancarou, e um frio úmido — impregnado do cheiro de terra molhada e ferrugem — entrou de supetão e sufocou o pouco de calor que a lareira tinha conseguido arrancar do cômodo.

Agachei-me no chão, afastei os dedos da bochecha e espiei pela fresta.

Caleb estava na soleira, tão alto que parecia engolir todo o espaço ao redor.

Ao que tudo indicava, tinha chovido lá fora — não forte, mas o bastante para deixá-lo encharcado da cabeça aos pés.

A camisa sob medida, caríssima, grudava no corpo dele, desenhando cada linha dos músculos por baixo.

Ainda pingavam gotas das pontas do cabelo, juntando-se em filetes finos que desciam pela linha afiada do maxilar.

Mesmo assim, o rosto dele trazia uma calma estranha, inquietante. Os cantos da boca até guardavam o fantasma de um sorriso — como se quem tivesse sido publicamente despido e transformado em motivo de chacota no salão de conferências, agora há pouco, não fosse ele, mas algum desconhecido que nada tinha a ver com ele.

Ao lado daquela tranquilidade controlada, meu estado lastimável parecia lama aos pés dele.

O olhar dele me encontrou, e as pupilas se contraíram de repente.

— Fiona? O que aconteceu com você?

— Professor Thorne. — Arthur pigarreou. — Sua hora não podia ser pior. Victoria... vá pedir à Maria para trazer o estojo de primeiros socorros. Maldita castiçal de prata, cortou a pequena idiota.

Um castiçal de prata?

Caleb cutucou a arma onde ela estava no chão com a ponta do sapato. Mantive a mão pressionada com força contra a bochecha, sem ousar deixá-los ver que o ferimento já começara a se fechar.

— Use isto.

Caleb tirou do bolso um frasquinho com um líquido roxo e pegou o lenço que a criada, Maria, lhe ofereceu.

Desenroscou a tampa com uma calma calculada e deixou cair uma única gotinha de um violeta profundo no tecido.

Então fechou de novo imediatamente, como se mais uma gota fosse um desperdício imperdoável.

— Sangue de lobo dourado. Específico para curar feridas causadas por prata. O preço no mercado negro já é absurdo. — Ele fez uma pausa. — Use com parcimônia. Você é só uma mestiça — a ferida não pode ser tão profunda.

Ele nem olhou para mim. As palavras soaram ocas, indiferentes.

Em seguida, vi-o atravessar até a lareira, estender as duas mãos para as chamas e se aquecer com uma naturalidade perfeita.

A luz do fogo brincava no perfil úmido dele enquanto fios de vapor se enrolavam para cima.

A compostura dele era tão absoluta que aquilo poderia muito bem ser seu salão particular, não o quarto onde meu destino estava sendo decidido.

Fiquei imóvel no chão, o lenço pressionado ao rosto.

A umidade fria dele se espalhou pela minha bochecha. No lugar da dor veio uma dormência suave, crescente — a carne se recompondo sob o tecido.

— Obrigada, Professor Thorne.

Mantive a expressão fria, deixando que meu maxilar carregasse a teimosia que eu segurava por dentro.

— Mas acredito que já terminamos.

— É mesmo?

Caleb se ergueu e caminhou na minha direção.

Cada passo dos sapatos de couro no assoalho soava com um tum pesado, como se cada um esmagasse diretamente um nervo.

— Eu, por outro lado, acredito que fizemos as pazes.

Ele fixou em mim aqueles olhos azul-acinzentados — a paciência de um lobo-cinzento esperando a presa se cansar.

Não consegui evitar recuar meio passo, o lenço ainda colado ao rosto. Aquele olhar fazia minha pele inteira se arrepiar.

— Se você estiver disposta a honrar o noivado — disse Caleb por fim, com a voz tão fria quanto a chuva lá fora, sem um traço de calor —, eu posso fingir que hoje nunca aconteceu.

— Absolutamente não.

Minhas pupilas se contraíram.

Era como se uma mão invisível, gelada, tivesse agarrado meu coração e o apertasse com força.

Eu mal suportava a falta de vergonha dele. Aquilo não era apenas um insulto escancarado — era um ataque à inteligência mais básica.

Depois de tudo o que tinha acontecido, como ele podia achar que eu ficaria ali e trocaria anéis com ele como se nada tivesse ocorrido?

— Fiona.

Arthur bateu duas vezes no chão com sua bengala de carvalho.

— Suba. Volte para o seu quarto. Tenho coisas a discutir com o Professor Thorne em particular.

Eu não queria nada além de colocar distância entre mim e aquele homem sem vergonha. Cada segundo sob o olhar dele era pior do que engolir algo podre.

Juntei a saia e fugi escada acima. No instante em que puxei a porta e a fechei, escorreguei pela parede até o chão.

Afastei o lenço e me olhei no espelho.

O ferimento tinha sumido. A pele estava lisa, sem marca nenhuma.

Puxei o ar, assustada, e encarei a mancha tênue, violeta-avermelhada, que ficara no tecido.

Sangue de lobo dourado, vendido no mercado negro. Uma única onça valia centenas de milhares de libras.

O remédio soberano para feridas de prata. Moeda forte no mundo dos lobisomens.

Fechei os olhos e inspirei, com avidez, o cheiro naquele lenço — o cheiro do povo da minha mãe.

A memória me arrastou de volta, turva e veloz, ao calor dos braços da minha mãe na infância —

Ela era a santa mais bonita do clã do Lobo Dourado, com cabelos longos que caíam em cachos naturais tão macios e dourados quanto lã, e olhos âmbar-dourados que sempre guardavam uma ternura inesgotável.

Eu sentia falta do cheiro dela. Sentia falta da canção de ninar antiga que ela cantava quando me embalava.

Mas eu não podia me afundar nisso. Não podia deixar que aquilo me engolisse. Eu precisava manter a cabeça completamente fria.

Caleb ter chegado sem avisar no meio da noite não era uma visita casual — eu tinha certeza.

Levantei duas tábuas do assoalho, expondo as vigas por baixo.

Pela fresta, eu conseguia ver a sala de estar lá embaixo e ouvir cada palavra da conversa de Arthur e Caleb com perfeita nitidez.

— Eles bateram nela? Com isso?

Caleb pegou do chão o castiçal de prata, aqueles olhos azul-acinzentados fixos, duros, em Arthur.

— Enquanto ela ainda for minha noiva, ninguém tem o direito de encostar um dedo nela.

— Poupe-me do teatro, Thorne.

A bengala de Arthur desceu no chão com um estalo seco. A voz dele era fria e plana.

— O vídeo seu com aquela aluna já está em todo o topo do fórum da universidade. O que vai ser preciso para você cair na real — precisa passar numa tela na Times Square?

— Isso não é da sua conta. — Caleb mostrou as presas, com desprezo escancarado. — A caça está na natureza de um lobisomem. E vocês, humanos, também não são exatamente exemplos de fidelidade aos seus parceiros. Eu só estava fazendo como os locais fazem — provando cedo o corpo humano, para não ficar engasgando com o fedor imundo daquela mestiça todas as noites quando a gente se casar.

Enquanto falava, o olhar dele deslizou de lado até Victoria, e um sorriso de escárnio lhe atravessou o rosto.

— A menos que minha informação esteja errada, sua única filha, senhorita Sterling, na verdade não compartilha a distinta linhagem da sua primeira esposa. Então, senhor Slater… a gente realmente quer continuar por essa linha de conversa?

— Diga o que você veio fazer aqui de verdade esta noite, professor Thorne.

Um músculo saltou na bochecha de Arthur, e os bigodes bem aparados acima dela se moveram com a contração.

— Ora, trazer um presente para minha querida noiva.

Arthur bateu palmas duas vezes. O motorista dele entrou vindo do carro, carregando um belo estojo de couro e um convite, cujo envelope exalava um perfume intenso de sândalo.

— Aliás, é um alívio que a pessoa importante não tenha presenciado a ceninha no salão de conferências hoje. Caso contrário, sinceramente não sei dizer se eu teria conseguido preservar o bom senso e a compostura… em vez de simplesmente torcer o pescoço do cordeirinho ali mesmo.

O tom dele era de fúria genuína, mal contida. Eu tinha quase certeza de que só havia um candidato para aquele “cordeirinho”.

— A pessoa importante?

Arthur pigarreou de leve e alisou o bigode com uma das mãos.

— Você quer dizer aquele cujo voto pode ter um peso de verdade na próxima eleição do gabinete do Conselho de Coexistência? O príncipe Volkov?

— Exatamente.

Uma reverência rara atravessou o rosto de Caleb — a submissão profunda e sincera que o mundo dos lobisomens reservava à sua mais alta autoridade.

— O que eu não consigo entender é o motivo. Ele mandou avisar no último momento que não viria. Graças a Deus aquele episódiozinho miserável nunca foi posto diante dos olhos dele.

Fiquei deitada, colada às tábuas do assoalho, absorvendo a conversa palavra por palavra.

Quando mencionaram Alexander, chegaram até a especular por que ele tinha desistido sem aviso.

Mas eu sabia exatamente onde ele estava.

Naquela mesma hora, emboscado e ferido, ele tinha se abrigado na biblioteca — sozinho numa sala comigo.

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