Capítulo 2 Seu marido
A sala reservada mergulhou num silêncio sepulcral.
O rosto de Emily perdeu a cor. O leite que ela segurava caiu sobre a mesa enquanto ela encarava Nicholas com os olhos avermelhados.
—Hannah! —a voz de Nicholas cortou a quietude como gelo. Ele avançou e agarrou o pulso de Hannah. —O que você está tentando fazer? Armar um escândalo aqui, para todo mundo ver?
Pega de surpresa, Hannah cambaleou para trás. Sua cintura bateu na quina afiada da mesa, e um gemido abafado escapou de seus lábios antes de ela desabar no chão.
Uma mancha vermelho-escura começou a se espalhar lentamente pela calça branca.
Emily arfou e então cobriu a boca, os olhos em pânico, mas com um traço de satisfação escondida.
—Hannah, você está menstruada e nem percebeu? Vir a uma reunião de negócios desse jeito... isso não é meio inadequado?
Ela se virou para Nicholas.
—Nicholas, não culpe a Hannah. Ela provavelmente não está se sentindo bem.
Nicholas fixou o olhar na mancha de sangue na calça de Hannah, o rosto sombrio.
Na noite anterior, ele de fato tinha visto aquilo — aquela marca vermelha tênue no lençol.
Ele só tinha presumido que havia sido bruto demais e nem voltou a pensar no assunto. Mas agora, só conseguia pensar que Hannah fizera aquilo de propósito — para humilhá-lo.
—Hannah —disse friamente, a voz carregada de desprezo—, você não sabe qual é o seu lugar? Usando esses truques baratos para enojar as pessoas? Você faz ideia do quanto esse almoço é importante hoje?
O ar ao redor pareceu congelar.
Devagar, Hannah se ergueu do chão. A dor na cintura fez brotar suor frio em sua testa, mas ela ainda assim sorriu.
Calmamente, como se nada tivesse acontecido, ela sacudiu a calça, tirou o paletó e amarrou-o com cuidado na cintura, escondendo a mancha. Cada movimento era contido, quase metódico — como se estivesse organizando documentos, não tentando salvar a própria dignidade.
—Eu sei qual é o meu lugar —disse ela em voz baixa, soltando o ar. —Sou a secretária-chefe da Robinson Enterprises. Minhas atribuições incluem auxiliar o CEO nas operações do dia a dia, organizar agendas, preparar materiais de reunião e acompanhar o andamento de projetos. —Ela ergueu o olhar, firme e inabalável. —Mas não incluem levar remédio e leite para a amiga próxima do CEO fora do horário de trabalho, e com certeza não incluem me pedirem para beber no lugar de outra pessoa quando eu não estou me sentindo bem.
Nicholas franziu a testa; algo inquieto cintilou em seus olhos. A compostura dela parecia incomum. Distante demais. Instintivamente, ele deu um passo à frente.
—Nicholas. —Emily de repente apertou o peito, o rosto empalidecendo enquanto se inclinava para ele. —Eu... eu estou meio tonta.
Nicholas se virou imediatamente para ampará-la, a atenção mudando na hora.
—Não está se sentindo bem? Eu te levo ao hospital.
Emily apontou para o remédio que acabara de tomar.
—Eu não sei o que tem nesse remédio. Posso ser alérgica... estou com dificuldade para respirar.
A expressão de Nicholas ficou fria.
—Hannah, você nem consegue lidar com uma coisa simples como comprar um remédio? Você fez isso de propósito?
—Você vem comigo ao hospital. Você causou a reação alérgica da Emily, então tem que assumir a responsabilidade.
Ele se inclinou e ergueu Emily nos braços, depois lançou a Hannah um olhar impaciente.
—Está esperando o quê? Vá pegar o carro!
Hannah respirou fundo.
Pediu desculpas em voz baixa aos demais à mesa e então se virou e foi atrás — forçando-se a seguir adiante apesar da dor ameaçar derrubá-la.
No carro, Emily se aninhou em Nicholas, choramingando baixinho.
—Nicholas, eu sou inútil, sempre te dando trabalho? Não como a Hannah... tão forte e independente.
Nicholas deu tapinhas nas costas de Emily, consolando-a, com um tom gentil e calmo.
—Você acabou de passar por algo tão desagradável. É normal o seu corpo ficar fraco.
Ele lançou um olhar para Hannah, que dirigia em silêncio.
—Quanto a ela, como secretária-chefe não consegue nem dar conta de uma tarefa tão pequena. Ela não merece o seu elogio.
Hannah apertou mais o volante, os nós dos dedos empalidecendo, mas não disse nada.
Afinal, ela era só uma secretária — uma secretária que nem sabia comprar remédio direito, uma secretária que tinha falhado no trabalho.
No pronto-socorro do hospital, uma pequena multidão de especialistas em dermatologia se reuniu rapidamente. Após um exame detalhado, a conclusão foi que Emily tinha apenas vermelhidão na pele por irritação de contato — nem era uma reação alérgica.
Mas com Nicholas presente, o médico ainda assim prescreveu medicamentos e pediu que ela ficasse em observação.
Emily estava deitada na cama, com aparência fraca. “Nicholas, eu estou bem. Já posso receber alta.”
“Ouça o médico.” O tom de Nicholas era firme.
Então, ao notar Hannah ainda parada ali perto, ele falou com seu tom habitual de quem manda: “Vá buscar para a Emily um copo de água morna, a cento e dez graus Fahrenheit. E compre uma toalha limpa. Passe na farmácia para pegar o remédio.”
Hannah se virou e saiu sem dizer uma palavra.
No caminho de volta, ela encontrou Opal, a enfermeira que havia cuidado dela naquela manhã.
“Srta. Nguyen!” Opal franziu a testa. “O médico não disse para você ficar no hospital alguns dias, em repouso? Por que você saiu sem avisar? Está tomando seus antibióticos no horário certo?”
Nicholas passava por ali e ouviu aquilo. Suas sobrancelhas se franziram levemente. “Ficar no hospital? Cólicas menstruais seriam graves a ponto de precisar de internação?”
Opal, por instinto, começou a explicar.
Hannah falou primeiro. “Não é nada. Eu já me recuperei. Eu trouxe o que você pediu. Vamos entrar.”
Mas Nicholas não se mexeu. Seus olhos se estreitaram um pouco, a suspeita se infiltrando. “Eu sou seu marido”, ele disse, a voz endurecendo. “Faço uma pergunta por preocupação, e é assim que você responde?”
Marido?
Hannah quase teve vontade de rir.
Esse homem — que a enganou por três anos com uma certidão de casamento falsa — ainda tinha a audácia de, cheio de razão, se chamar de marido dela.
Opal se lembrava claramente de que Hannah tinha feito a cirurgia sozinha, pago as contas sozinha e quase tinha sofrido uma hemorragia durante o procedimento.
Olhando para aquele Nicholas, que parecia tão ligado a ela, Opal disse friamente: “Como você tem coragem de se chamar de marido dela e ainda mandar ela fazer esses favores? Você sabe que ela acabou de...”
“Acabou de quê?”
“Nicholas!” A voz de Emily soou de repente do quarto, frágil e urgente. “Meu braço… está coçando tanto. O remédio ainda não chegou?”
A pergunta que Nicholas estava prestes a fazer ficou presa na garganta.
Sem hesitar, ele tomou a pomada das mãos de Hannah. “Espere aqui”, disse, seco.
E então foi a passos largos até Emily.
Hannah observou em silêncio a figura dele se afastando.
É claro. Sempre que Emily aparecia… era ela quem ele escolhia.
Até estranhos conseguiam ver o meu sofrimento e sentir pena de mim, mas Nicholas, a quem eu amei por tantos anos, é quem mais me machuca.
Tudo bem. Eu também não queria que ele soubesse que eu tinha acabado de perder nosso filho.
E mesmo que soubesse… que diferença faria?
Nos trinta dias que restam, eu só quero passar por eles em paz, sem acrescentar mais problemas.
A visão dela ficou branca, e Hannah não aguentou mais. Desabou pesadamente para o lado.
“Srta. Nguyen!”
Quando Hannah acordou de novo, a dor envolvia seu corpo como correntes.
Ao ver a luz do sol do lado de fora da janela, percebeu, atordoada, que estava em casa.
Ela tinha dormido um dia inteiro, mas a dor no corpo não tinha diminuído nem um pouco.
Forçou-se a sair do quarto, e então seus passos pararam de repente.
Nicholas estava sentado ereto no sofá da sala, lendo um relatório financeiro enquanto bebia café preto.
Ele estava mesmo ali.
Em três anos, ele tinha aparecido em casa de manhã menos de dez vezes.
“Você acordou”, ele disse, erguendo os olhos. O olhar dele demorou no rosto pálido dela, frio e distante.
“Já que levantou, se apronte. Esteja no escritório às nove em ponto. Não atrase a transferência do trabalho com a Emily.”
A mão de Hannah, segurando o batente da porta, apertou com força. Depois da cirurgia e sem comer havia um dia, ela mal conseguia ficar em pé.
“Eu não estou me sentindo bem”, disse baixinho. “Posso tirar o dia?”
“Não está se sentindo bem?” Nicholas soltou uma risada fraca, debochada. “O que foi? Cólicas menstruais? Uma atuação bem convincente.”
Ele se levantou e foi até Hannah, sua figura alta criando uma sensação invisível de opressão.
“A Emily ficou tão preocupada com você que, mesmo doente, foi perguntar ao médico sobre o seu estado.”
“O médico disse que você só tem cólicas normais. Você não tomou antibiótico nenhum, e em nenhum momento ficou internada.”
“Hannah, você desmaiou ontem — estava fazendo show para quem?”
