Capítulo 5 Para Hannah
O centro de detenção era mais frio do que Hannah tinha imaginado.
Cobertores finos, uma tábua dura no lugar da cama e um cheiro enjoativo que impregnava o ar.
Ela se encolheu no canto, ondas de dor atacando a parte baixa do ventre. Parecia estar sangrando de novo.
Às três da manhã, a porta se abriu de repente.
Duas mulheres usando o mesmo uniforme de detentas entraram, com um olhar nada amistoso.
—Hannah? —a líder, Ava, mascando chiclete, deu um chute nela com o pé. —Aquela secretária da Robinson Enterprises que trocava o corpo por vantagens?
Hannah se sentou, observando as duas com cautela.
—Você até parece bem inocentinha. —Ava se aproximou e agarrou o queixo dela. —Que pena. Seu corpo é sujo demais.
—O que vocês querem? —Hannah tentou manter a voz calma, mas o pânico crescia por dentro.
—O que você acha? O sr. Robinson mandou ensinar você a se comportar aqui dentro e a não falar besteira quando sair.
Depois de dizer isso, Ava acertou um chute forte na parte baixa do abdômen de Hannah.
Hannah se dobrou de dor, a boca aberta, mas sem conseguir emitir som.
Antes que Hannah se recuperasse, Ava agarrou o cabelo dela com força e a arrancou da cama, arrastando-a.
—Sabe por que a gente está te batendo? Porque você não sabe o que é bom pra você! Por que tinha que envergonhar o sr. Robinson?
Ava a soltou, e Hannah caiu no chão, os joelhos batendo no cimento. Ela gemeu de dor.
No instante em que Hannah tentou se levantar, levou um chute no joelho e caiu de novo. Em seguida, socos e chutes despencaram sobre ela como uma tempestade.
Ela se encolheu, protegendo a cabeça e o abdômen, mas aqueles punhos ainda martelavam com força na cintura e nas costas.
—Lembra: controla essa boca. —Ava pisou nos dedos de Hannah. —Depois que sair da detenção, saiba o que pode dizer e o que não pode. Se você ousar falar besteira...
Ava ia bater nela de novo quando a pessoa ao lado sussurrou:
—Não bate no rosto dela.
Ava soltou um resmungo frio. Inclinou-se até o ouvido de Hannah e baixou a voz:
—Se você ainda não se comportar, da próxima vez não vai ser tão simples quanto só apanhar. Vamos!
A porta se abriu outra vez, e Ava e as outras saíram depressa, escapando pelo corredor.
Hannah ficou estendida no chão, lutando para erguer a cabeça e olhar para fora. Só então a guarda apareceu, atrasada.
Hannah viu o crachá dela: Lucy Perez.
—Agente Perez, me salva. —Hannah estendeu a mão com dificuldade, olhando para ela com súplica.
Lucy franziu a testa, mas mesmo assim abriu a porta e levou Hannah para a enfermaria.
Hannah tinha apanhado, e somado a isso vinha o sangramento do aborto. O médico a examinou e, por fim, deu uma notícia terrível: talvez ela nunca mais pudesse engravidar.
No caminho de volta para a cela, Hannah sentiu como se o corpo inteiro estivesse envolto em gelo.
Seu filho tinha ido embora, seu casamento era uma farsa.
Agora, por causa de uma acusação forjada, ela nunca mais poderia ser mãe.
Enquanto Lucy conduzia Hannah de volta ao quarto, disse em voz baixa:
—De todas as pessoas para provocar, por que você foi escolher justamente o Nicholas? Os métodos da família Robinson são implacáveis.
Lucy estava certa. De todas as pessoas para amar, por que eu fui desejar alguém que nunca poderia ser meu? Está vendo? Não é esse o meu castigo?
Hannah perguntou, num fio de voz:
—Foi ele mesmo que mandou aquelas pessoas?
Os lábios de Lucy se moveram de leve, mas no fim ela não disse nada; apenas a encarou com pena.
Fora ele, quem mais teria poder para agir dentro de um centro de detenção?
Hannah ficou sentada em silêncio na escuridão e, de repente, riu. A risada foi ficando cada vez mais alta, tão estridente que parecia choro.
Naquele momento, no escritório do CEO da Robinson Enterprises.
Nicholas estava sentado no sofá, com Tom à sua frente.
—Sr. Hill, quanto a esse assunto, a Robinson Enterprises está disposta a abrir mão de três pontos percentuais de lucro. —Nicholas empurrou um contrato na direção dele. —A condição é: a parceria continua, e você precisa esclarecer publicamente que não tem nenhum relacionamento impróprio com a Hannah.
Tom arqueou uma sobrancelha.
—Só esclarecer?
—Eu vou lidar com a polícia. —disse Nicholas. —Ela não vai ter problemas, mas vai levar tempo.
—O sr. Robinson é bem sentimental —Tom ergueu as sobrancelhas, com um meio sorriso. —Mas fazendo isso... não vai deixar a srta. Brown descontente?
Os olhos de Nicholas ficaram gelados. —Isso é um assunto particular meu.
—Claro. —Tom assentiu depressa e assinou o contrato. —Então, quanto à srta. Nguyen, vou ter de incomodar o sr. Robinson para bancar o herói e salvar a donzela.
—Não precisa se preocupar com isso. —A expressão de Nicholas se fechou enquanto ele se levantava para acompanhá-lo até a saída.
Depois que Tom foi embora, Nicholas ficou sentado no escritório, olhando em silêncio para a antiga estação de trabalho de Hannah.
O celular vibrou. Era uma mensagem de Emily.
[Nicholas, você ainda está no escritório? Fiz sopa, quer que eu leve aí?]
Ele encarou a tela sem responder.
De repente, a imagem de Hannah se afastando enquanto a levavam passou pela mente dele —tão magra, tão frágil, e ainda assim de postura tão firme.
Ele se lembrou de quando ela começou a trabalhar para ele; era do mesmo jeito.
Naquela época, ele tinha acabado de ser abandonado pela família Robinson. Todos o tinham deixado, mas só ela ficou, acompanhando-o de uma crise a outra.
Mas, ao pensar naquelas fotos...
Nicholas respirou fundo, e a irritação se espalhou por dentro.
Como Hannah, que só tinha olhos para ele, poderia ter iniciado um relacionamento com Tom? Isso era insano.
Emily estava lá embaixo, olhando para o escritório iluminado do CEO.
Era a primeira vez que Nicholas não respondia à minha mensagem de imediato.
O carro de Tom acabara de sair. Nicholas já devia estar livre agora, então por que não responde? Ele está pensando na Hannah?
Emily apertou com força o recipiente térmico e foi em direção à empresa.
Três minutos depois, chegou ao escritório do CEO. —Nicholas, eu fiz sopa para você.
Nicholas assentiu de leve, mas não disse nada.
Emily colocou a sopa sobre a mesa de centro. Seu olhar varreu o contrato recém-assinado, e seu coração deu um salto. —Nicholas, abrir mão de três pontos percentuais para o Tom... isso não é demais?
O lucro previsto para a Robinson Enterprises nesse projeto era de apenas cinco pontos percentuais. Agora ele estava cedendo mais da metade?
A voz de Emily tremeu um pouco. —É por causa da Hannah?
—Para acalmar a opinião pública o mais rápido possível. —Nicholas se levantou e foi até a janela, com o tom inalterado. —A cada dia que ela fica detida, a ação cai mais um dia.
Emily apertou os lábios e então o abraçou por trás. —Nicholas, eu sei que você está sendo sentimental, mas a empresa é algo que você construiu do zero. Eu não quero que todo o seu esforço vá por água abaixo.
—Hannah, afinal... —a voz dela suavizou— trouxe isso para si mesma.
Ao ouvir as palavras “trouxe isso para si mesma”, a testa de Nicholas franziu, quase imperceptivelmente. Em seguida, ele afastou as mãos dela. —Vou ao banheiro.
Observando-o se afastar, Emily mal conseguiu esconder o ciúme e o ódio no olhar.
Por causa da Hannah, Nicholas estava mesmo disposto a abrir mão de tanto lucro. Hannah era realmente tão importante assim?
De repente, o telefone na mesa de Nicholas tocou.
Emily atendeu.
—Sr. Robinson, isso é grave. A srta. Nguyen foi espancada na detenção. A gente pode pagar fiança e tirá-la de lá primeiro? —veio a voz chorosa de Tina, a assistente de Hannah.
Antes de ser detida, Hannah tinha deixado o número de Tina como contato.
Os lábios de Emily se curvaram num sorriso, mas seu tom era especialmente sério. —Srta. Smith, se a gente tirar a srta. Nguyen de lá agora e a mídia descobrir, vão dizer que o sr. Robinson está acobertando uma criminosa. Amanhã as ações da empresa vão cair ainda mais.
—Mas a srta. Nguyen...
—Tina, eu sei que você e a Hannah são próximas pessoalmente, mas os interesses da empresa vêm primeiro. —Emily interrompeu Tina. —Também é essa a intenção do sr. Robinson, não é, Nicholas?
Emily olhou para a cadeira vazia e continuou: —O sr. Robinson também concorda com o que eu estou dizendo. O sr. Robinson vai cuidar desse assunto. Tina, não complique as coisas. Entendeu?
