Capítulo 6 Merecia ser derrotado?
Emily desligou o telefone e, com toda a calma do mundo, pegou o café de Nicholas para dar um gole.
Hannah apanhou? Se ela morresse na detenção, melhor ainda.
No terceiro dia da detenção de Hannah, a porta da cela finalmente se abriu.
— Hannah, você pode ir agora — disse Lucy, em voz baixa.
Hannah estava sentada no canto e ergueu o olhar devagar.
— Ir?
— Provas insuficientes, nenhuma perda grande causada, então por enquanto não vamos responsabilizar você — Lucy lhe entregou um documento. — Assine isto e você pode sair. Deixe seu celular ligado; se for necessário, você vai ter que voltar para cooperar.
A mão de Hannah tremia enquanto assinava.
Não de empolgação, mas porque estava fraca demais.
Tortura psicológica somada à tortura física; em apenas três dias, ela tinha emagrecido muito.
Ela não conseguia comer. Naqueles três dias, mal tinha sobrevivido à base de soro com glicose.
Observando-a assinar, Lucy falou de novo, com compaixão na voz:
— Depois que sair, fique longe de certas pessoas.
A caneta de Hannah hesitou.
— As provas no seu caso nem de longe eram suficientes para manter você detida. O Tom depois mudou a versão, disse que aqueles duzentos mil dólares eram um bônus de projeto que caiu na conta errada. E, sobre as fotos, ele também admitiu que foi questão de ângulo.
Lucy fez uma pausa.
— Normalmente, você teria sido liberada no primeiro dia, mas alguém segurou isso e arrastou por três dias.
Hannah manteve a cabeça baixa e terminou de assinar.
— Obrigada.
Ela olhou a data.
Logo. Mais vinte e cinco dias, e ela finalmente poderia se afastar de Nicholas, o homem a quem um dia tinha dado tudo para amar, mas que agora, enfim, já não amava.
Quando saiu pela porta do centro de detenção, a luz do sol era tão forte que ela não conseguiu abrir os olhos.
Levantou a mão para protegê-los e então notou um carro preto parado na entrada.
Nicholas e Emily estavam ao lado do carro.
Emily veio primeiro, o rosto exibindo a medida exata de preocupação e delicadeza:
— Hannah, finalmente você saiu. Eu fiquei tão preocupada com você nesses últimos dias.
Ela estendeu a mão para pegar a de Hannah, mas Hannah deu um passo para trás por instinto.
Esse movimento fez Nicholas franzir a testa.
— O Nicholas não queria vir, mas eu implorei para ele te buscar — Emily continuou, como se não tivesse notado a resistência de Hannah. — Mesmo que você tenha feito algo errado, você esteve com o Nicholas por tantos anos. A gente não podia simplesmente deixar você voltar sozinha.
Cada frase de Emily soava como cuidado, mas cada palavra era como uma agulha, espetando até Hannah ficar entorpecida.
Hannah não disse nada; apenas manteve a cabeça baixa. Ela não queria ir com aquelas duas pessoas.
Mas sabia que ainda não podia fugir.
— Entra no carro — disse Nicholas, sem emoção na voz.
Hannah ficou parada.
— O quê, quer que eu te implore? — o tom de Nicholas ficou frio.
Hannah sorriu de repente.
— Eu não ousaria.
O sorriso era fraco e leve, mas não havia o menor traço de diversão em seus olhos.
Ela foi até o carro, puxou a porta e entrou no banco de trás sem olhar para eles.
Emily congelou por um instante. Hannah não ia fazer escândalo? Ia simplesmente acompanhar?
Um lampejo de irritação atravessou os olhos de Emily, mas ela rapidamente disfarçou e entrou no banco de trás também.
Nicholas sentou ao volante e olhou para Hannah pelo retrovisor.
Só três dias, e ela se deixou ficar assim; para quem ela estava fazendo cena?
O carro arrancou, e o ar frio do ar-condicionado bateu neles.
Hannah estava usando apenas a camisa que vestia quando foi detida. Não conseguiu evitar um tremor.
— Você está com frio? — Emily entregou o próprio casaco. — Vista o meu por enquanto, não pega um resfriado.
Era uma camisa de marca de luxo — a marca favorita de Nicholas.
Ainda carregava um leve cheiro de perfume, o que Nicholas mais gostava. Hannah tinha usado uma vez, mas, depois que ele disse “não combina com você”, ela nunca mais tocou nele.
— Não precisa. — Hannah afastou.
A mão de Nicholas, que ia desligar o ar-condicionado, hesitou e então recuou.
— Deixa ela congelar.
A atmosfera no carro ficou tensa.
Emily mordeu o lábio e então suspirou. “Hannah, me desculpa. Eu não devia ter tomado conta do seu projeto. Eu só queria ajudar o Nicholas, mas ignorei os seus sentimentos.”
Ela se virou para Nicholas, a voz cheia de culpa. “Nicholas, eu devo começar como funcionária comum. Devolva o cargo de gerente para a Hannah.”
“Não fale besteira.” Nicholas a interrompeu. “Esse cargo sempre foi seu. A Hannah não tem capacidade pra dar conta.”
Ele olhou para Hannah pelo retrovisor, em tom severo. “Hannah, a Emily está sendo atenciosa com você. Não seja ingrata.”
Hannah falou de repente. “Sr. Robinson, aqueles duzentos mil dólares… o senhor foi até o fim nisso?”
O carro ficou em silêncio.
Os olhos de Emily vacilaram e, então, ela pegou a mão de Hannah. “O Tom esclareceu que foi um mal-entendido. Agora está tudo bem.”
“Eu estou perguntando ao Sr. Robinson.” Hannah afastou a mão de Emily e encarou Nicholas diretamente. “A secretária-chefe da Robinson Enterprises suspeita de suborno comercial… uma coisa tão grande dessas, o Sr. Robinson investigou a fundo? Em que conta foram parar aqueles duzentos mil dólares? Quem tirou as fotos? E quem entregou isso à mídia?”
O tom de Hannah era calmo e firme, como se não fosse largar o assunto até Nicholas lhe dar uma explicação.
Mas Nicholas não disse nada.
Ele tinha investigado, mas não queria falar, porque, se falasse, envolveria mais coisas.
Como o fato de que o endereço de IP da transferência dos duzentos mil dólares era de dentro da Robinson Enterprises.
Como o fato de que o fotógrafo era colega de faculdade de Emily.
Como o fato de que a mídia recebeu as fotos logo depois que Emily assumiu a posição dela.
Ele acreditava que essas coisas não tinham nada a ver com Emily. Afinal, ela tinha acabado de voltar ao país; ela não devia saber.
Mas, se isso viesse à tona, a culpa recairia sobre ela — e ele não permitiria isso de jeito nenhum.
“A polícia encerrou o caso”, concluiu por fim.
“Encerrou o caso?” Hannah riu, amarga. “Então eu mereci ficar presa por três dias, mereci apanhar, mereci quase morrer no centro de detenção?”
“Apanhar?” Nicholas freou com força. O som estridente fez os tímpanos de Hannah doerem.
Ele se virou e agarrou o pulso dela. “Quem bateu em você?”
O aperto dele foi forte, bem em cima do hematoma no braço.
Hannah puxou o ar, de dor. A manga dela foi levantada, revelando grandes manchas roxas e azuladas de hematomas no antebraço.
A expressão de Nicholas mudou na hora.
“O que aconteceu?” A voz dele vinha carregada de raiva.
“Sr. Robinson, o que o senhor está fingindo? O senhor não sabe melhor do que ninguém como foi a minha vida lá dentro?”
Vendo o deboche no olhar de Hannah, os dedos de Nicholas se fecharam ainda mais, apertando até os ossos dela doerem.
“Nicholas, pega leve! A Hannah ainda está machucada.” Emily puxou a mão dele com força e então deu a explicação que já tinha preparada. “Que tipo de lugar é um centro de detenção? Tem todo tipo de gente, briga acontece o tempo todo.”
Emily enrolou a manga de Hannah. As lesões no braço eram chocantes.
“Centros de detenção têm câmeras 24 horas e guardas fazendo ronda. Como você poderia ter apanhado assim?” Havia certa dúvida na voz de Emily. “Ou será que…”
Ela pareceu se lembrar de algo de repente, arregalando os olhos. “Você não se machucou de propósito pra conseguir sair por motivo médico, foi? Senão, por que não tem nenhuma marca no seu rosto?”
“É… por que não tem nenhuma marca no meu rosto?” Os lábios de Hannah se curvaram num sorriso de escárnio enquanto ela olhava para Nicholas.
Porque eu ainda preciso aparecer em público, porque eu ainda preciso ser a assistente da sua Emily querida. Eu posso apanhar, mas isso não pode, de jeito nenhum, afetar a Robinson Enterprises e a Emily.
Nicholas franziu o cenho. O sorriso de Hannah só lhe pareceu provocativo.
Ele se virou e ligou o carro, falando friamente. “Se você tem energia pra se machucar, tem energia pra trabalhar! Vá ao escritório amanhã. Esses três dias contam como falta não autorizada.”
