Capítulo 8 A verdade

Nicholas olhou para Hannah em seus braços.

Os cílios de Hannah tremularam de leve — ela não parecia estar completamente inconsciente.

— Hannah, não precisa mesmo usar esse método pra fugir do trabalho — disse Emily, com a voz tingida de pena.

O olhar de Nicholas foi esfriando aos poucos. — Já que você está bem, levante sozinha.

Ele a soltou, e Hannah escorregou até o chão, a cabeça batendo no canto da mesa com um baque surdo.

Ela finalmente abriu os olhos, a visão embaçada enquanto encarava a pessoa à sua frente.

Nicholas olhou para baixo, os olhos cheios de nojo. — Já cansou de fazer cena? Então volte a trabalhar. Você não tem muito tempo.

Hannah tentou se erguer do chão, mas a tontura fez com que desabasse de novo.

Emily correu para ajudá-la. — Talvez devêssemos levá-la ao hospital? Não dá pra ficar tomando remédio assim, de qualquer jeito… E se for algo sério?

— O que poderia ser sério nela? — Nicholas se virou e caminhou até o próprio escritório. — Já que você não quer estar aqui, a partir de amanhã vai ser transferida para o departamento de logística.

Quando ele saiu depois de pegar os documentos, Hannah já tinha se arrastado de volta até a mesa e retomado o trabalho no computador.

Uma mancha roxa escura já se formava na têmpora, onde ela havia batido na mesa.

Nicholas parou por um instante, mas no fim não disse nada e saiu a passos largos do escritório.

Emily foi atrás dele, com um sorrisinho discreto brincando no canto dos lábios.

No escuro, Hannah finalmente se curvou, a dor atravessando cada nervo.

Ela queria tanto chorar, mas obrigou-se a rir; e, enquanto ria, as lágrimas escorriam sem controle.

As luzes do escritório estavam acesas, mas aquele brilho não alcançava seu coração.

Ela olhou a hora — 3h00.

Faltavam vinte e três dias.

Então ela estaria livre.

Quando Hannah acordou no dia seguinte, já eram 7h00.

Ela só tinha terminado de organizar todos os arquivos e enviado para Emily às cinco.

Ao pensar na transferência de hoje, Hannah soltou o ar. O departamento de logística era bom — silencioso.

Quando chegou ao departamento de logística, a gerente Sharon a levou até a sala do arquivo com uma expressão impotente.

— Srta. Nguyen, o Sr. Robinson quer que você organize os materiais antigos dos últimos três anos. Olha… se você falasse algo mais agradável pra ele… é só o último mês… não seria melhor continuar no escritório da secretaria?

Sharon e alguns funcionários antigos achavam que, dessa vez, Hannah devia estar realmente de coração partido; caso contrário, por que pediria demissão?

Mas, lembrando dos métodos implacáveis de Nicholas e, depois, olhando o estado lastimável de Hannah, Sharon suspirou. — Se você não estiver se sentindo bem, é só me dizer. Nesses vinte e poucos dias que restam, você pode ficar aqui no departamento de logística.

— Assim está bom. — Hannah sorriu. — Sharon, obrigada. Vou começar agora.

A sala do arquivo ficava no segundo subsolo e não via a luz do sol o ano inteiro.

Montanhas de pastas exalavam um cheiro mofado. Assim que ela abriu a porta, a poeira se ergueu no ar.

Hannah colocou uma máscara e começou a separar caixa após caixa.

A maioria eram contratos vencidos, relatórios anulados e atas de reunião sem importância.

Ela separava, numerava e arquivava mecanicamente, com os movimentos cada vez mais automáticos.

O celular vibrou — uma mensagem do financeiro. Salário deste mês: zero. A coluna do bônus estava brutalmente em branco.

Ela ficou encarando a mensagem por um bom tempo, até os olhos arderem.

No intervalo do almoço, no canto mais distante, ela encontrou numa caixa um monte de recibos de hotel amarelados.

As datas eram de quatro anos atrás, na época em que Charles tinha voltado ao país.

Uma assinatura a fez paralisar — Emily?

Número do quarto: 2201 — exatamente o quarto em que o caso de uma noite de Emily e Charles tinha sido fotografado pela mídia.

O coração de Hannah disparou. Emily tinha sido, de fato, quem reservou aquele quarto.

Hannah continuou procurando e encontrou, bem no fundo da caixa, uma carta vinda do exterior.

O destinatário era “Nicholas”.

Hannah abriu o envelope como se estivesse possuída. A carta era bem curta:

[Nicholas: Quando você ler esta carta, eu provavelmente já terei partido, mas preciso lhe contar a verdade. Naquela noite, três anos atrás, o vinho que Emily me deu saiu do seu armário de bebidas. Ela disse que você pediu que ela pegasse uma boa garrafa para me entreter, mas depois percebi que só você e ela sabiam a senha do seu armário. Depois que eu bebi, minha consciência ficou turva. Quando acordei, já estava cercado pela mídia, e não tive escolha a não ser me casar com ela. Alguns dias atrás, descobri que ela e Tom Hill tramaram isso juntos, mas estou morrendo e não tenho como expor a verdadeira natureza dela. Cuidado com ela — ela quer mais do que apenas o título de Sra. Robinson. —Charles]

A carta escorregou das mãos de Hannah.

Tom — o CEO do Skyline Group, o mesmo Tom da parceria do projeto Sunrise City!

O celular dela vibrou de repente. Surgiu um e-mail anônimo, contendo apenas um arquivo de áudio.

Hannah clicou sem pensar, e as vozes de Tom e Emily soaram com clareza.

“Emily, você é implacável — destruindo a reputação da Hannah e ainda me deixando lucrar mais três por cento de graça.”

“Cada um consegue o que precisa. Mas, Tom, seus contatos na mídia precisam forçar mais. Eu quero que a Hannah nunca mais consiga mostrar a cara neste setor.”

“Não se preocupe — você está me fazendo ganhar dinheiro, então vale tudo.”

“Mas o Sr. Robinson vai aceitar? Acho que ele ainda tem alguns sentimentos pela Hannah.”

“Sentimentos? Ele só precisa se importar comigo. Quanto a qualquer um que ameace os interesses da empresa, ele abandona sem hesitar.”

O áudio foi interrompido abruptamente.

Hannah viu a tela do celular escurecer, quase sem conseguir respirar.

Nesse plano cuidadosamente arquitetado, ela e Nicholas eram peões.

Não — ela nem chegava a ser um peão.

Ela era apenas um obstáculo, facilmente varrido para o lado — um sacrifício descartável, jogado fora sem pensar duas vezes.

Depois do trabalho, Hannah levou as provas de volta para aquele suposto “lar” e se sentou em silêncio na sala, esperando.

À meia-noite, Nicholas voltou.

Ele fedia a álcool, os passos vacilantes — claramente bêbado.

Hannah levantou o olhar e encontrou os olhos injetados de sangue de Nicholas.

“Você está aqui.”

Ele afrouxou a gravata e caminhou na direção dela. “Voltou tão cedo? Parece que seu trabalho é fácil demais.”

Hannah não disse nada, apenas o observou em silêncio.

De repente, Nicholas avançou e agarrou o pulso dela. “Eu estou falando com você!”

Hannah olhou para ele com calma e perguntou: “Quais são as instruções do Sr. Robinson?”

“Instruções?” Nicholas soltou um riso de desprezo. “Como eu ousaria te dar instruções? Você é tão capaz — se machuca, toma remédio, finge doença. Hannah, que truque você ainda não usou?”

Ele a puxou em direção ao sofá, prensando o corpo contra o dela; o bafo carregado de álcool bateu no rosto dela.

“Você não sempre quis garantir sua posição como Sra. Robinson? Então cumpra seus deveres de esposa.”

Ele rasgou com brutalidade a gola dela.

Hannah deu um tapa no rosto dele sem aviso. Nicholas ia revidar quando viu a mágoa nos olhos dela.

“Deveres de esposa? Eu sou sua esposa?”

Nicholas congelou no lugar.

Hannah conteve a raiva, mas seu corpo tremia incontrolavelmente.

“Nicholas, se você tem necessidades sexuais, por que não vai atrás da Emily? Você não tem coragem de tratar ela mal, então vem descontar em mim?”

Nicholas cobriu o rosto e a encarou, incrédulo. “Você enlouqueceu?”

“Sim, eu enlouqueci!”

Hannah se levantou, pegou a carta e os recibos sobre a mesa e arremessou tudo no rosto dele.

“Eu enlouqueci por te amar todos esses anos! Enlouqueci a ponto de me matar de trabalhar por você e, no fim, nem conseguir a sua confiança mais básica!”

Ela tinha sido louca por deixar que a enganassem com uma certidão de casamento falsa por três anos!

Os papéis se espalharam pelo chão.

Nicholas olhou para baixo, os olhos sem foco. O álcool entorpecia sua mente — ele já não conseguia enxergar com clareza o que estava à sua frente.

“Esta é a carta de despedida do Charles.”

A voz de Hannah tremeu. “Antes de morrer, ele quis que você soubesse a verdade. Quem o dopou foi a Emily, e o cúmplice dela foi o Tom!”

Ela abriu o celular e colocou o áudio para tocar.

As vozes de Tom e Emily ecoaram com nitidez na sala silenciosa.

A cor foi sumindo do rosto de Nicholas, pouco a pouco. O olhar dele permaneceu preso ao rosto de Hannah, e a mente repetia uma única frase.

Fui louco por te amar todos esses anos?

Então… ela não o amava mais?

Hannah se aproximou dele, olhando diretamente em seus olhos. “Olhe bem! Esta é a sua querida Emily — esta é a verdade!”

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