Capítulo 1 Despedaçado

Sophia Taylor cambaleou pela porta de casa, os olhos fundos de desespero. Ela entrou direto no chuveiro, abriu a água no máximo, quase fervendo, e começou a esfregar a própria pele com uma força brutal, de novo e de novo.

— Suja… tão suja… — murmurou para si mesma, indiferente ao fato de que a pele estava coberta de grandes manchas de sangue.

Os cortes ficaram expostos à água quente, e o sangue se misturou com a água que escorria, causando uma dor cortante, como se uma faca a rasgasse, mas ainda assim isso era ofuscado pelo ódio profundo que sentia de si mesma, pela repulsa.

Por fim, as forças a abandonaram. Ela desabou no piso do box, o corpo coberto de arranhões e hematomas, enquanto soluços desesperados e gritos entrecortados ecoavam pelas paredes de azulejo.

Ela tinha sido violentada por um estranho; não conseguia nem lembrar do rosto dele.

E o marido a havia deixado para passar a noite inteira com o primeiro amor.

Os olhos de safira de Sophia, antes cheios de vida, agora encaravam o vazio, tão mortos quanto um cadáver.

Ela lutava desesperadamente para apagar a memória da noite passada, mas ela a perseguia como uma sombra.

Quando finalmente se arrastou para fora do banheiro, o som de um motor rompeu o silêncio.

Zachary Spencer tinha chegado.

Ele vestia o mesmo terno do dia anterior, o rosto bonito marcado por um olhar profundo que carregava uma forte aura de autoridade.

Zachary era meticulosamente cuidadoso com a aparência — nunca usaria a mesma roupa dois dias seguidos.

A realidade atingiu Sophia como uma faca girando em uma ferida já mortal.

Zachary franziu levemente a testa ao notar o estado acabado de Sophia.

— Nosso casamento de conveniência precisa terminar antes do combinado. Diga quais são as suas condições para o acerto — peça o que quiser.

— Posso ficar com metade dos seus bens — e você pode ficar com metade dos meus — respondeu Sophia, a voz carregada de amargura. — Isso é por causa da volta da Paula, não é?

A expressão de Zachary escureceu.

— O que ela tem a ver com isso?

Sophia fez força para pegar o celular e abriu as notícias. A manchete gritava: Herdeiro do Grupo Spencer, Zachary Spencer, é visto saindo de quarto de hotel com a atriz global Paula Clark — caso secreto vem à tona?

Os olhos de Zachary ficaram gelados ao terminar a leitura.

— A mídia adora esses joguinhos de palavras. Vou mandar minha equipe tirar isso de todos os sites.

Sophia não respondeu, mas reparou nos arranhões no pescoço dele.

Três marcas, de profundidades diferentes, nitidamente feitas por unhas.

Somando a noite que ele passara fora e a manchete daquela manhã, o que mais havia para entender?

Zachary tinha sido infiel.

As mãos dela se fecharam em punhos, mas o que a inundou não foi raiva, e sim uma dor esmagadora no peito.

E ela também tinha estado com outro homem na noite anterior.

Os dois eram patéticos.

Ela deveria ter percebido há muito tempo que, entre ela e Paula, Zachary sempre escolheria Paula, sem hesitar.

Sophia olhou para Zachary com uma expressão indecifrável, fitando o homem que tinha feito parte de toda a juventude dela.

O avô dela salvara a vida do avô de Zachary na guerra. Quando a família Taylor faliu, os Spencer a acolheram como forma de pagar essa dívida.

Ela tinha oito anos.

De uma criança confusa, a uma adolescente apaixonada, até se tornar esposa dele — esse caminho consumira dezesseis anos da vida de Sophia, e agora estava chegando ao fim.

O coração de Zachary sempre tinha sido da Paula. Se o avô dele, Dylan Spencer, não estivesse morrendo e não tivesse insistido para que eles se casassem, Zachary não teria feito essa escolha.

Eles tinham até assinado um acordo pré-nupcial logo no começo. Aquele casamento sempre tinha sido um negócio, nada além disso.

Depois de morder o lábio com tanta força que sentiu o gosto de sangue, Sophia finalmente conseguiu falar:

— Eu concordo.

Ela se virou e subiu as escadas para pegar o contrato de casamento na gaveta da cômoda. Rasgou o documento em pedacinhos na frente dele.

Falou com calma, piscando rápido para conter as lágrimas que estavam prestes a cair:

— Amanhã é dia de semana. Se você estiver livre, me avisa antes pra gente resolver a papelada.

Zachary parecia genuinamente surpreso com a facilidade com que ela estava aceitando tudo aquilo.

Os lábios dele se entreabriram levemente.

— Eu sei que te decepcionei. Se você precisar de qualquer coisa no futuro, pode me procurar. Mas sobre o divórcio, eu espero que a gente consiga agilizar. Quanto ao Dylan...

A dor no peito de Sophia ficou mais intensa, mas ela se obrigou a sorrir.

— Vamos esconder isso do Dylan por enquanto. Depois que estiver tudo resolvido, eu digo pra ele que vou embora pra fora do país estudar daqui a um mês.

Dylan era a única pessoa no mundo que tinha dado a ela um amor de família de verdade.

Ela não suportaria vê-lo sofrendo.

Além disso, Dylan já tomava vários remédios para pressão alta. O choque do divórcio provavelmente acabaria colocando-o no hospital.

A expressão de Zachary ficou mais pesada, mais complicada.

Sophia tinha pensado em tudo, e era justamente isso que o incomodava.

Ele tinha crescido junto com Sophia — conhecia bem a tendência dela a fazer drama e ter ataques quando ficava chateada.

Tinha algo errado ali.

— Você está pálida. Está passando mal?

Ele estendeu a mão para checar a testa dela, ver se estava com febre, mas Sophia se afastou num movimento suave, mantendo a distância entre os dois.

— Só um pouco indisposta. Depois eu tomo um remédio.

Zachary deixou a mão cair, o rosto indecifrável enquanto a observava.

— Você está estranha hoje.

Os punhos cerrados de Sophia relaxaram um pouco.

De repente, ela se deu conta de que, mesmo depois do divórcio, ela e Zachary tinham todos aqueles anos de convivência, de terem crescido juntos. Pelo menos esse laço ainda existia.

Talvez ela pudesse pedir ajuda a ele para descobrir quem era o homem da noite anterior.

Com a posição e a influência que ele tinha, o Grupo Spencer controlava dois terços da estrutura econômica da cidade. Se ele resolvesse investigar alguma coisa, pouca coisa ficaria escondida.

Sophia mordeu o lábio sem perceber.

— Eu acabei me metendo num problema. Talvez eu precise da sua ajuda com uma coisa.

Ela lutava para encontrar as palavras certas na própria cabeça.

Como é que ela ia conseguir dizer algo tão humilhante em voz alta?

Zachary franziu a testa, confuso.

— Que tipo de problema?

Sophia respirou fundo, se preparando para falar, mas o celular de Zachary tocou antes que ela conseguisse dizer qualquer coisa.

Ela não conseguiu ver o nome de quem ligava, por causa do ângulo, mas viu a suavidade que tomou conta do rosto dele no mesmo instante.

Paula, sem sombra de dúvida.

Seja lá o que a voz do outro lado da linha disse, fez a expressão de Zachary se encher de preocupação.

— Já estou indo.

Ele pegou o celular e foi direto para a porta, sem dirigir nem um último olhar para Sophia.

Próximo Capítulo