02. ADOÇÃO

Eva meio carregava e meio arrastava um balde pesado de água. Depois de quase três anos, apesar da sua coxeadura na perna direita, ela havia sobrevivido milagrosamente. Claro que viver não era a palavra adequada para o que tinha passado durante esse tempo.

Como se o céu quisesse mantê-la viva para a conduzir a outro nível de tortura, os ossos dela se fundiram de novo, mas como não teve o tratamento adequado, todo esse doloroso processo resultou em uma coxeadura para o resto da vida. Ela tinha dificuldades para caminhar e nem se fala em correr bem.

Por supuesto, que a diretora do orfanato, a Sra. Romina, cumpriria sua palavra de mantê-la viva para torturá-la lentamente. Ela parou um pouco para tomar um mínimo fôlego, porque a dor na perna era constante e nunca parava, nem mesmo para dormir.

Ela suava profusamente em um dia tão quente, mas tinha que fazer seu trabalho se quisesse comer, porque as latrinas não iriam se limpar sozinhas.

— Não sei o que você fez agora, mas a diretora quer ver você no escritório dela. Deixe tudo e me siga — escutou a voz de Petra, uma das cuidadoras do orfanato.

Ela seguiu a mulher de compleição robusta e robusta, sempre vestida de cinza, que intimidava todas as crianças e até os adultos.

— É esta? — perguntou uma senhora finamente vestida à Sra. Romina, enquanto examinava Eva, que tinha sido chamada com urgência ao escritório.

— Nojento, que cheiro horrível, que nojo! — gritou de repente quando se aproximou um pouco de Eva, puxando um lenço e cobrindo o nariz.

Eva não se ofendeu nem um pouco, sabia que deveria estar cheirando a esterco de porco por todos os lados, estava limpando os currais dos animais e, além disso, não é como se tivesse as melhores condições para se higienizar todos os dias.

— Pediu a pior, mas se não gostar, posso procurar outra órfã para você — respondeu impassível a Sra. Romina, como se estivesse comercializando legumes e não pessoas.

— Não, não, não, essa é perfeita... Como você se chama? — perguntou friamente para Eva, que disse seu nome em voz baixa.

Ela não sabia do que se tratava tudo aquilo, mas pelas palavras de toda a conversa, se perguntava com incredulidade se também iam "adotá-la".

— Eva, espera no seu quarto. Vou te chamar em um instante — ordenou a diretora, e Eva saiu como num transe, mancando até seu "quarto".

— Mas ela é realmente manca e tudo, maravilhoso, maravilhoso...! — ouviu a Senhora exclamar, rindo alegremente, aparentemente satisfeita por ter encontrado alguém com deficiência.

Eva esperou ser chamada pela diretora novamente. Não gostava nem um pouco de toda essa situação incerta, mas o que poderia fazer? Fugir de novo pela floresta?

Se não conseguiu quando estava forte e saudável, agora menos ainda poderia escapar de Sebastião e seus cães de guarda.

Respirou fundo e se preparou para enfrentar o que a cadela do destino reservava para ela novamente. O que poderia ser pior do que viver no orfanato dos horrores?

— Como você pôde ver, essa senhora está interessada em te adotar — começou a dizer a Sra. Romina, olhando para ela sentada tranquilamente em sua escrivaninha, enquanto Eva estava de pé na sua frente.

— Já vou fazer 18 anos... — respondeu, lembrando-a de que, para a lei, em breve seria uma pessoa livre, que poderia ir para onde quisesse sem pedir permissão e sem ser detida por aí, para ser devolvida à sua "tutora legal".

— Você mesma disse, vai fazer, mas ainda é minha responsabilidade.

— Eu te dei o tamanho que você tem, você comeu da comida da minha casa e eu te forneci um teto, então chegou o momento de pagar, "querida" Eva. Nada na vida é de graça. Pensou que iria embora assim, tão fácil? — perguntou com evidente sarcasmo.

Eva apertou os punhos ao lado do corpo. Tinha trabalhado pior do que uma escrava para que a deixassem dormir em uma pocilga e dessem sobras de comida como uma mendiga.

— Então, não faça mais birras e se prepare, porque amanhã você vai com sua nova família e deveria me agradecer por ainda te encontrar um lar rico onde morar.

— O que você achava que iria acontecer com uma órfã manca, sem estudos e esfarrapada como você lá fora?

— Que alguém te daria um emprego, que poderia conseguir uma casa? Nem em um prostíbulo desejariam uma garota como você, que só assustaria os homens — concluiu, rindo do próprio comentário depreciativo.

— Quanto... quanto te pagaram por mim? — perguntou Eva de repente, e Romina parou de rir de suas palavras, assumindo uma expressão cruel.

Parou diante daquela jovem que sempre a olhava com aqueles olhos carregados de ódio e rancor e levantou seu queixo com força, ferindo-a de propósito com suas longas unhas afiadas.

— Não o suficiente para compensar todo o dinheiro que perdi por sua causa — respondeu com crueldade, sem nunca esquecer os milhares que custava a irmã dessa desgraçada e o quanto perdeu naquele dia.

Ela também a odiava, por isso se encarregou de tratá-la como um animal, todos esses anos, isolando-a dos outros e cortando suas vontades de viver centímetro por centímetro.

Imaginava que qualquer dia a encontraria pendurada no teto de sua pocilga, no entanto, lá estava, resistindo como uma barata.

Essa noite, permitiram que ela tomasse um bom banho, em um banheiro decente dentro do orfanato, passaram-lhe uma muda de roupa limpa que, embora não fosse nova, estava muito melhor do que seus trapos e, finalmente, comeu uma refeição completa, como uma última consideração para o preso que é levado à cadeira elétrica.

Eva se observou no espelho do banheiro, como não fazia há muito tempo, já nem se lembrava direito de seu rosto.

A desnutrição desses anos a fazia parecer doente, magra.

Seus olhos cor de avelã se destacavam demais no rosto anguloso, as bochechas fundas e as maçãs do rosto muito proeminentes.

Os lábios secos e rachados.

Seus cabelos, que antes eram saudáveis e brilhantes, agora mostravam um castanho opaco e murcho, e sua pele, antes branca, agora tinha uma coloração entre pálida e amarelada.

A roupa ficava folgada e quase pendendo de seu corpo delgado e pequeno. Era como uma boneca feia, quebrada e suja que ninguém queria.

Só esperava que, na nova casa, mesmo que a fizessem trabalhar como escrava, pelo menos houvesse mais oportunidades de comer.

No dia seguinte vieram buscá-la conforme combinado.

Enfrentaria o que viesse com coragem e, uma vez que pudesse ver como era o mundo lá fora, traçaria planos para escapar e se libertar.

Precisava encontrar Elsa.

Entrou em um carro e viu, ainda sem acreditar, enquanto a tiravam aos poucos daquele lugar maldito.

Sonhava com esse momento praticamente todos os dias, embora não exatamente da maneira como estava acontecendo.

Acomodou-se nervosamente na parte de trás do automóvel; à frente havia um senhor mais velho e muito sério, que não falou com ela em nenhum momento, então Eva também não tentou puxar conversa.

Com timidez, Eva observava a paisagem de arvoredos e bosques passar.

Logo as horas foram se passando e a paisagem mudou da zona rural para a cidade turbulenta e depois para bairros com grandes casas luxuosas.

O carro entrou por um enorme portão gradeado e parou em frente a uma escadaria de mármore que levava a uma mansão extravagante.

— Esta é a garota? — ouviu uma criada perguntar ao motorista, que assentiu em resposta.

— Venha comigo, siga-me, não fique aí parada como uma tola — disse ela grosseiramente e começou a andar sem esperar resposta.

Eva a seguiu, passo a passo, com seu característico andar manco, tentando manter o olhar para a frente e não deixar que vagasse por todas as decorações requintadas e caras da mansão.

Levaram-na até uma sala, onde estava esperando no sofá a senhora que havia ido ao orfanato naquele dia para “adotá-la”.

Ela segurava delicadamente uma xícara fumegante, como a madame refinada que era.

— Bem, pelo menos te deram um banho mais ou menos decente, embora ainda esteja fedendo, mas como não serei eu quem se aproximará de você todos os dias, é melhor que continue assim, cheirando como um animal selvagem.

Foi a primeira coisa que disse a “elegante” mulher, enquanto examinava Eva de cima a baixo, que estava parada à sua frente, separada por uma boa distância para não incomodar sua nova tutora com seu “cheiro”.

— Serei rápida com isso porque sua presença me incomoda demais.

— Você deve estar se perguntando o que está fazendo aqui em um lugar em que uma órfã manca como você nunca pisaria e a razão é muito simples: assim que completar 18 anos em alguns dias, você se casará com meu sobrinho Henry.

Soltou assim, sem mais, e Eva sentiu o coração apertar no peito.

Trouxeram-na até aqui para casar-se com um desconhecido?

Que tipo de pessoa seria esse tal Henry que sua família o faria se casar com uma órfã desnutrida, feia e deficiente?

Eva estava suando profusamente, nem em um milhão de anos imaginaria que essa seria a razão para sua adoção precipitada.

Preferiria ser humilhada e trabalhar como escrava nesta mansão a esse acordo doentio.

Ela precisava fugir agora! Escaparia desta outra prisão de qualquer forma!

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