03. MEU FUTURO MARIDO

— Soltem-me, por favor, deixem-me ir, tenham piedade, soltem-me, por favor...! – gritava Eva desesperada enquanto era arrastada por dois homens vestidos como o restante do serviço.

Apesar dos seus gritos e súplicas, continuou sendo levada à força até seu novo quarto, conforme as instruções da Sra. Grace Edwards, a tia do futuro noivo, Henry Edwards.

Eles não se importaram nem com as escadas e a arrastaram sem piedade até o terceiro andar da mansão, lançando-a no último quarto do corredor, que era mais escuro que a boca de um lobo.

Ao ser jogada brutalmente no chão, Eva tentou se levantar, mas sua perna machucada não ajudava em nada, então ela se arrastou até a porta fechada e começou a bater nela.

— Abram, por favor, por favor, senhora, farei todas as tarefas que me mandar, limparei sua casa, os banheiros, tudo o que ninguém quer fazer, eu farei!

— Serei sua escrava, mas por favor, deixe-me sair, não quero me casar com ninguém!, não quero me casar...! – gritava Eva até que sua voz se quebrou e, finalmente, desta vez, não conseguiu conter as grossas lágrimas que caíam de seus olhos.

No meio de seus golpes frenéticos na porta e seus gritos desesperados, ouviu o som de saltos que se aproximavam e pensou, ilusoriamente, que aquela senhora teria se apiedado dela.

— Cale a boca de uma vez, que sua voz está me dando dor de cabeça! Acredite ou não, estou sendo benevolente com você! – gritou irritada.

Esperava que essa garota entrasse rapidamente na razão, pois havia pago mais do que valia e não queria ter que voltar àquele lugar sujo para buscar um substituto.

Além disso, onde encontraria uma aberração como ela, ninguém parecia mais perfeito para o presunçoso do seu sobrinho do que essa aleijada andrajosa.

— Você tem duas opções: ou aceita se casar com meu sobrinho e vive sob meus arranjos, ou te prendo até que alcance a maioridade, chamo a polícia e te acuso de roubar uma das minhas joias caras, para que te trancem na cadeia para sempre. Você escolhe!

Propos, silenciando efetivamente os gritos de Eva, que, entre seus soluços, estava finalmente entendendo que não haveria uma escapatória fácil para essa situação.

Ela tinha certeza de que as ameaças dessa mulher cruel não eram um blefe.

Com apenas algumas palavras de uma pessoa tão rica como aquela, seria enviada direto para uma cadeia real pelo resto da vida, ou pelo menos por muitos, muitos anos.

— Vejo que já está entendendo como é a sua situação.

— Então te aconselho a ficar caladinha e bem comportada, obedecer todas as minhas ordens ou pode se despedir da sua liberdade — sentenciou Grace, saindo com passos firmes, um pouco estressada por ter se alterado.

Ela caminhava feliz pensando em todas as humilhações que tinha preparadas para seu sobrinho.

Eva tremia contra a porta, soluçando. O que ela faria agora?

Pelo menos conhecia o ambiente do orfanato, mas aqui ela estava em um lugar novo, com novas regras de tortura que desconhecia e, portanto, não sabia como enfrentá-las.

Tentou se acalmar, respirar fundo, primeiro descobrir onde estava agora, embora o fato de que o quarto estivesse na penumbra não ajudasse muito.

A escuridão é algo que amedronta qualquer pessoa, ainda mais alguém já assustada.

— Aaaaahhhhhh! — gritou de repente com terror, arrastando-se para encostar suas costas trêmulas na porta, enquanto olhava para o canto do quarto onde tinha certeza de que uma pessoa a observava.

Eva se obrigou a calar a força, apesar do fato de que, obviamente, havia uns olhos fixos nela. Mas a "pessoa" não havia se movido do canto onde estava... sentada?

— O que... o que você quer... quem é você...? — a jovem começou a perguntar, gaguejando, mas não ouviu nenhuma resposta.

— Eu... eu não quis te incomodar, fui jogada aqui contra a minha vontade... não me machuque, por favor... — suplicou, por fim.

A porta estava completamente fechada, ela já havia verificado, então estava trancada com quem quer que estivesse a espionando entre as sombras. E, possivelmente, isso não era nada bom.

Eva tentou se comunicar de várias formas com a outra pessoa prisioneira no quarto, sem sucesso algum.

Nem sequer tinha visto a silhueta se mover um pouco. Será que seu medo estava pregando peças nela?

Talvez fosse apenas um manequim como aquele que a Senhora Talbot usava para ensinar sobre o corpo humano.

Um ser humano não deveria ficar tão estático na mesma posição por tanto tempo, deveria?

Eva não era a mais corajosa do mundo, mas também não era a mais covarde. Decidiu que não ficaria o dia todo jogada no chão, esperando que as coisas se resolvessem sozinhas.

Levantou-se gemendo de dor pelo corpo todo, como já era normal para ela, e entre as sombras, viu que a janela estava coberta por uma cortina espessa e escura que bloqueava toda a luz.

A única coisa ruim é que aquela janela estava muito perto daquele “manequim”.

Dando coragem e força interna, começou a caminhar devagar até o local, cuidando para não tropeçar em nada. Embora não enxergasse muito, algumas silhuetas se distinguiam, e ela conseguiu contornar os obstáculos aos poucos, até chegar à cortina.

“É só um boneco sentado”, pensou consigo mesma e agarrou as duas bordas da pesada cortina para abri-la e deixar o sol entrar de repente.

A cortina parecia não ser lavada há muito tempo e estava cheia de poeira, então Eva começou a tossir, sufocada, com todo o pó que entrou pelo nariz.

Mas a tosse ficou presa em sua garganta quando olhou para onde sentia a “presença” e descobriu, com horror, que não era manequim nenhum, mas um homem de verdade, sentado em uma cadeira de rodas e olhando fixamente para ela.

Tapou a boca para evitar gritar novamente e, com os olhos arregalados, olhava sem piscar para o homem.

O que dizer? O que fazer?

Por que aquele homem não falara até agora?

Estava esperando ela se aproximar para atacá-la? Milhares de perguntas invadiam sua mente e ela não sabia como sair daquela situação tão bizarra e estranha.

— O... Olá, meu nome é E... Eva — gaguejou uma apresentação, mas como de costume, não obteve resposta.

— Eu não... não quero invadir seu quarto, eu só... como você viu... me deixaram trancada aqui e não posso sair.

Mas o homem não deu sinais de que queria esclarecer alguma coisa.

Então Eva percebeu que a expressão do desconhecido não estava muito normal. De fato, ele olhava para ela, mas ao mesmo tempo não parecia que estava focando nela.

Seu olhar era vazio e sem vida.

Eva até se moveu um pouco para o lado, mas o homem não fez menção de segui-la com os olhos.

Ele só observava um ponto fixo, como se estivesse perdido ou fora de si...

A jovem estava extremamente confusa.

Era óbvio que aquele homem não era “normal”, além disso, ele estava em condições precárias, tão sujo quanto aquele quarto.

Eva agora olhava para ele com mais confiança, percebendo que ele não sairia da cadeira de rodas para agredi-la a qualquer momento.

Ele estava magro, dava para notar que era um homem alto, mas agora estava encurvado, com o cabelo loiro, rebelde e sujo, assim como a longa barba descuidada.

Seus olhos cinzentos e vazios olhavam para o nada.

As roupas que ele usava eram de boa qualidade, mas não era possível identificar a cor exata, devido a toda a sujeira e até restos de alimentos secos que tinha.

Não sabia quem era aquele homem, mas o que era certo, era que não gostavam muito dele naquela casa também.

Estava prisioneiro naquele quarto descuidado, assim como ela, e o mantinham nas sombras como um fantasma aterrorizante.

Eva olhou ao redor, apesar do mobiliário luxuoso, nada podia brilhar sob aquela camada de poeira e sujeira.

Tudo naquele ambiente cheirava a mofo e a velho, a decadência e te levava à depressão até o fim.

De repente, um som na porta a colocou em alerta, alguém estava entrando no quarto.

Ela se virou assustada e se deparou com sua "benfeitora", que entrou no quarto com uma expressão de desgosto e cobrindo o nariz com um delicado lenço bordado.

— Vejo que já parou de gritar, espero que esteja se adaptando à sua nova situação.

— Sua tarefa nesta casa é apenas ser uma boa esposa, então acho que melhorei sua vida, comparado àquele orfanato deplorável onde vivia.

— Não precisa me agradecer — acrescentou, sem sequer deixar Eva falar, que na verdade não tinha intenção alguma de agradecê-la.

— Em alguns dias você se casará, sem reclamar.

Eva fechou os olhos de cansaço.

Não sabia que tipo de jogo sádico aquela mulher rica estava tramando, mas como sempre, descobriu com impotência que ela era apenas uma peça do destino cruel e pouco podia fazer para mudar as coisas.

Sua vontade, não valia nada.

— Com quem vou me casar? — perguntou finalmente olhando para a mulher à sua frente, embora em seu coração já tivesse uma suposição.

— Oh, querida, que descuido meu, não apresentá-lo a você! — exclamou com falso arrependimento.

— Eva, te apresento seu futuro esposo, o senhor Henry Edwards, ali atrás de você, sentado na sua cadeira de rodas, esperando por sua belíssima esposa.

— Um inválido louco com uma órfã manca, que combinação aberrante! — começou a rir com vontade de sua piada depreciativa.

Eva olhou para trás, com tristeza, para o homem que seria seu marido.

Henry Edwards não estava entendendo nada, não percebia que havia caído mais um degrau na sua vida, de ser um jovem e promissor herdeiro multimilionário a ser um pobre homem tolo, que além de não poder se valer por si mesmo, ia ser forçado a casar com uma mulher que não conhecia e que jamais teria escolhido como esposa, se ainda fosse o Henry Edwards de antes.

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