04. MINHA NOVA VIDA NA MANSÃO SOMBRIA
Segundo a explicação bastante sucinta que a Srta. Grace tinha dado, ela, mais do que a esposa daquele senhor trancado no quarto, seria sua criada.
Porque teria que cuidar de tudo referente a "Henry", menos de banhá-lo e trocar os dispositivos médicos que ele usava para suas necessidades.
Para isso, havia um enfermeiro que vinha nos dias programados, o banhava, trocava a bolsa da sonda e outras coisas.
Depois que a Sra. Grace terminou de dizer o que queria, simplesmente fechou a porta e foi embora, não sem antes deixar uma ameaça de que Eva não fizesse nenhuma loucura ou estaria disposta a assumir as consequências.
Eva se virou e observou todo o ambiente e seu novo noivo, que continuava na mesma posição olhando para o vazio.
Suspirou, pensando que, na verdade, esse arranjo não era tão terrível se olhado de outra perspectiva.
Tinha um teto, um pouco de comida e tudo apenas por ser a cuidadora de um homem doente.
Na sua mente, a palavra “marido” foi substituída por “paciente doente” e a situação já não parecia tão terrível.
Arregaçou as mangas da blusa e decidiu que, se fosse ficar ali, naquele quarto, para viver, ao menos teria que mantê-lo limpo. Esperava que um pouco de higiene não incomodasse a dona da casa.
Estava passando pano nos móveis que havia encontrado no banheiro, quando sons na porta a fizeram ficar alerta novamente.
— Venha pegar a comida, não vou entrar para entregar! — falou rispidamente uma criada.
Eva parou rapidamente o que estava fazendo e se aproximou para pegar uma bandeja de comida fumegante que a fez salivar.
— Esta é a comida do senhor, a sua você tem que ir buscar na cozinha. Não têm criadas aqui para trazer ao quarto como uma senhorita, e a partir de amanhã, você busca também a comida dele — indicou de mau jeito, apontando para Henry com a cabeça.
— Posso sair do quarto? — perguntou Eva, temerosa.
— A senhora indicou que você pode sair, mas só até a área de serviço.
— Quando descer a escada, fica à direita — explicou impaciente antes de ir embora.
Eva assentiu e viu como, de fato, não trancaram a porta.
Aproximou-se sem tirar os olhos de Henry, com a bandeja nas mãos, e aí estava o primeiro desafio: como iria dar a comida a ele?
O criado-mudo já estava livre da grossa camada de poeira que tinha, então colocou a bandeja e, com muito cuidado, sentou-se na cama, bem ao lado de Henry.
— Não sei se você pode me ouvir — começou sua apresentação improvisada.
— Meu nome é Eva e peço desculpas por invadir seu quarto e sua vida.
— Além disso, sinto muito pelo escândalo que fiz há pouco — acrescentou, torcendo a boca em uma careta irônica ao lembrar.
— Farei o possível para cuidar de você a partir de agora. Por favor, não me odeie por estar casado comigo; também não é algo que eu teria escolhido.
— Mas, já que estamos nessa juntos, vamos nos dar bem, certo? — perguntou, sorrindo, apesar de o homem não mudar em nada sua expressão abobalhada.
Isso não desanimou a jovem, que continuou com seu monólogo, explicando que lhe daria a comida a seguir.
Levantou a colher cheia de comida até a boca de Henry, mas ele não colaborou de forma alguma.
Eva começou a sentir dores de cabeça, nunca tinha servido de enfermeira.
A única pessoa que havia cuidado era sua irmã mais nova, que abria a boca super rápido, toda vez que tinha a comida na frente.
Passando por uma série de situações constrangedoras, tentando convencê-lo a cooperar sem sucesso, já estava um pouco frustrada.
Começava a entender por que ele tinha tantos restos de comida velha nas roupas.
Sem se deixar vencer, aproximou suas mãos do rosto sujo do homem, com algum temor pela proximidade, e forçou-o a abrir a boca.
Na verdade, ele não resistiu muito e assim ela conseguiu finalmente colocar a colher com o caldo.
Dessa forma, aos poucos e com uma paciência infinita, terminou todo o prato de comida.
Eva o olhou com satisfação e até o elogiou.
Como o homem não se movia, a confiança foi superando pouco a pouco o medo.
Já não estava tão nervosa e, de forma ilusória, pensava que isso poderia ser como um trabalho pelo qual era paga com comida e abrigo.
Era melhor que o orfanato, isso era certo. Ou pelo menos foi o que ela pensou naquele momento.
Olhou para o homem sujo e descuidado, e refletiu que, se iriam conviver juntos no mesmo quarto, pelo menos não deveriam se ver e cheirar como dois mendigos.
Depois trataria dessa tarefa, agora precisava comer porque estava morrendo de fome.
Saiu do quarto um pouco nervosa e desceu as escadas lentamente até o primeiro andar.
Rezava para não encontrar ninguém, queria ser invisível para passar despercebida e sem problemas.
Ficava angustiada até de pisar no tapete macio com seus sapatos sujos.
Tudo nesse lugar transbordava luxo e extravagância, dinheiro e poder, e ela se sentia como a lama grudada nos sapatos dessas pessoas de alta classe.
A funcionária tinha dito primeiro andar à direita, e foi para lá que caminhou com rapidez e silêncio, chegando ao que parecia ser a área de serviço.
Empurrou uma grande porta de metal de vaivém, mas ficou paralisada no lugar quando todos os olhos no cômodo se fixaram de repente nela.
— Uma mendiga entrou na mansão?! — gritou de repente uma das mulheres que até então comia e ria à grande mesa retangular onde todos os funcionários jantavam.
— O que os guardas da entrada estão fazendo?
— Esta é uma propriedade privada, se queria sobras, deveria ter esperado até jogarem no lixo.
— Eu a expulso, continuem comendo — um dos garçons até se levantou para arrastar Eva para fora.
Eva ficou paralisada, com o rosto avermelhado de vergonha, estava prestes a negar que era uma mendiga, quando uma voz forte a interrompeu.
— Ela é funcionária pessoal da madame. Parem de perder tempo e continuem comendo, que o trabalho da mansão não se faz sozinho — ordenou uma mulher mais velha sentada à cabeceira da mesa e todos se calaram imediatamente, e o tilintar dos talheres recomeçou.
— Você, vá até o fundo, a cozinheira vai te servir a sua parte, e fique para comer lá atrás, em um lugar onde não tenhamos que te ver — olhou para Eva de cima a baixo com desprezo.
— Além disso, saiba que nesta mansão ninguém come de graça. Você é responsável pelo terceiro andar e pela área de serviço, e terá que limpar os banheiros das mulheres.
— Faço revista todos os dias e quero tudo brilhando ou sofrerá as consequências. Pegue seu uniforme antes de sair.
— Sim, senhora — respondeu Eva em um sussurro, ela devia ser a governanta.
Caminhou mancando em direção à porta que lhe haviam indicado, com a cabeça baixa.
—Mas os banheiros não eram limpos pela Sra. Brooke?… Sra. Drulog, a senhora vai amolecer com aquela velha desgraçada? – Eva ouviu alguém comentar às suas costas, embora não entendesse muito bem de quem falavam.
—Isso não é da sua conta, Lisett. Coma sua comida que mais tarde eu vou verificar se a louça está impecável.
E ninguém mais se atreveu a abrir a boca depois disso.
Eva conheceu nos fundos da enorme cozinha uma senhora enrugada e curvada, que parecia um pouco maltratada e, ao que tudo indicava, era a cozinheira.
- Oi... oi, me mandaram buscar minha comida - tentou se apresentar, mas a senhora não falou com ela e apenas serviu sua comida numa bandeja.
Comeu sentada numa mesinha velha que ficava num canto afastado da cozinha. Quase gemeu quando o caldo quente desceu por sua garganta e começou a encher pouco a pouco seu estômago vazio.
A velha na cozinha não parou um instante desde que Eva começou a comer. Eva a via limpando aqui e ali, descascando ingredientes e verificando as panelas.
Parecia um trabalho árduo para uma pessoa só, ainda mais na idade dela, mas Eva só podia sentir pena em seu interior.
Na sala, Grace finalmente ouviu o carro de seu marido chegando do trabalho.
Ela se levantou do sofá, alisou a delicada saia e caminhou até a porta para dar as boas-vindas ao senhor da casa.
Logo, um homem alto, de cabelo loiro grisalho, porte elegante e atitude régia e intimidante, fez sua aparição na mansão.
—Querido, que bom que hoje você chegou cedo em casa – disse Grace sorrindo coquetemente e ajudando Albert Edwards a tirar o sobretudo, para entregá-lo ao mordomo que aguardava ao lado da porta.
—Hoje a reunião de acionistas terminou mais cedo – respondeu ele aceitando o beijo que a esposa lhe deu – Está tão feliz?
—Claro que estou feliz, venha que tenho muitas boas notícias para te dar – disse misteriosamente enquanto o levava para a sala, onde mandou servir o café e sentou-se ao lado do marido para contar as novas “travessuras” que havia feito com seu sobrinho, o legítimo dono daquela mansão e de tudo que eles desfrutavam.
