05. RANCORES DO PASSADO
— Você se certificou de que a garota não tinha nenhum familiar que pudesse aparecer procurando por ela? — Albert perguntou franzindo a testa.
Na verdade, ele não se importava muito com os jogos macabros de sua esposa com o sobrinho. Se ela queria se divertir um pouco humilhando-o, ele não seria quem impediria, mas também não queria problemas desnecessários.
Albert era um homem marcado pela cautela e desconfiança.
Esperava pacientemente até que chegasse a sua hora.
Essa atitude foi o que lhe garantiu o lugar onde estava agora, como Diretor-Geral da empresa E&A: Edwards & Associates.
Embora nos documentos legais o maior acionista fosse seu sobrinho e o legítimo herdeiro de tudo, era óbvio que enquanto ele fosse considerado um tolo e louco pela sociedade, Albert, como fiel familiar e tutor, cuidaria de ser bilionário em seu nome.
— Claro, meu amor, não se preocupe, é uma pobre coitada manca, órfã, nem os cães chorariam por ela se desaparecesse, então está tudo sob controle.
Ela respondeu massageando os ombros dele, mas na borda do colarinho da camisa do marido, viu as sutis marcas de um batom feminino.
Grace apertou os dentes com raiva, mas seu rosto continuou o mesmo cheio de amor e carinho, embora por dentro estivesse morrendo de ciúmes.
E daí se seu marido se divertia por aí de vez em quando?
Todos os homens faziam o mesmo e enquanto ela fosse a senhora da casa, tudo o mais podia ser relevado.
— Então, como você se diverte com Henry não é problema meu, só lembre-se de mantê-lo vivo e louco, o resto, deixa comigo.
— Vou para o escritório, preciso assinar alguns documentos pendentes — e se levantou para seguir com seus afazeres.
Grace apertou os punhos com fúria.
Por mais que não quisesse dar importância às amantes do marido, isso a irritava e muito, pois era uma humilhação para ela.
Suas mãos coçavam para desabafar, precisava liberar sua fúria e onde melhor do que em uma das pessoas que mais odiava na vida, seu querido sobrinho político Henry Edwards.
Subiu as escadas, entrou em seu quarto para buscar as luvas ásperas que preparava para a ocasião e caminhou até o quarto, no desolado terceiro andar da mansão dos Edwards.
Lá estava ele, sentado em seu canto imundo, como o verme rastejante que era.
Quase não dava para ver bem seu rosto por tanta sujeira e barba, ela mesma tinha se encarregado de deixá-lo naquele estado de mendicância.
Mas Grace não esquecia como era o rosto de Henry, era exatamente igual ao do pai, o homem que ela mais havia amado e odiado na vida.
O homem que a deixou plantada no altar para casar-se com outra mulher, a desgraçada e vadia oportunista, que foi mãe de quem, agora, era seu sobrinho político.
Ela caminhou até a esquina, sem se importar com o mau cheiro que revirava seu estômago, e ficou contente por aquela garota não estar ali.
Só a tinha procurado para continuar humilhando seu "querido sobrinho" e porque era mais conveniente ter uma criada presa em sua mansão, prisioneira de suas regras, do que uma empregada do serviço, que poderia ver ou ouvir qualquer coisa inapropriada e depois sair da mansão espalhando boatos que poderiam prejudicá-los.
Tudo tinha que ser feito com muito cuidado, não podia haver erros.
Ninguém mais se lembrava do verdadeiro herdeiro dos Edwards, mas um único deslize podia complicar tudo.
Ela levantou a mão com os olhos vermelhos de ira e começou a golpear selvagemente o rosto de Henry, que balançava de um lado para o outro devido à violência dos golpes e recebia passivamente todo o castigo.
— Você não passa de um infeliz, um infiel, maldito que me deixou por uma puta!
— Uma qualquer, como você ousou fazer isso comigo, que tanto te amava, teria feito tudo por você, mas me transformou em motivo de risada, uma palhaça para todos!
— Eu te odeio… te odeio…! — gritava Grace histericamente e, mesmo com as mãos ardendo, não cessava a surra.
Seus anéis de pedras preciosas cortavam a pele a cada tapa, e o sangue começou a escorrer do canto da boca de Henry.
— Eu te odeio, Román Edwards, veja só como mantenho seu querido e precioso herdeiro, o filho daquela mulher!
— Onde quer que você esteja, espero que não consiga descansar em paz, sabendo que a mulher que você tanto desprezou está transformando a vida do seu filho em um inferno!
Ela terminou, respirando ofegante, com grossas lágrimas arruinando sua maquiagem refinada, confundindo o passado com o presente, unindo velhos agravos aos novos.
Lembrando-se, mais uma vez com ódio, de como o seu casamento perfeito com o homem que sempre amou foi arruinado pela aparição de uma qualquer que lhe roubou o noivo.
Ela teve que se conformar com o substituto, o meio-irmão de Román Edwards.
Não estava apaixonada por seu marido, apenas fingiam um casamento feliz.
Ela não seria abandonada novamente, tinha que manter sua posição a qualquer custo.
Grace olhou para o farrapo de homem no canto, que não havia soltado um gemido durante seus cruéis tapas, e jurou que enquanto vivesse, o filho daquela mulher não seria mais que a sombra do homem que um dia foi.
Ela já tinha cortado as asas desse orgulhoso fênix e não deixaria que ele escapasse de sua gaiola, jamais.
Virou-se e se preparou para sair do quarto, mas casualmente estava entrando a futura esposa que havia preparado para Henry.
Tirou as luvas com nojo, sob o olhar surpreso de Eva.
— Jogue no lixo — ordenou, atirando as luvas ao chão com desprezo.
— E espero que você seja inteligente o suficiente para manter a boca fechada sobre o que vê e ouve nesta casa, porque pode acreditar, eu tenho métodos de sobra para me livrar de uma esfarrapada como você.
A ameaçou com maldade e ouviu a garota sussurrar que entendia, de cabeça baixa.
Saiu do quarto mais calma, mas de tanto usar força, suas mãos doíam, teria que encontrar algo depois para bater melhor, não ficaria sempre se machucando sozinha.
Decidiu passar em seu quarto para se retocar e voltar a assumir a posição de Sra. Edwards, que tanto sonhou, mesmo que fosse, com o irmão errado.
Eva estava tremendo por toda parte, na verdade, tinha ficado do lado de fora da porta por alguns minutos e pôde ver, pela fresta, como aquela mulher batia e gritava como uma louca naquele pobre homem indefeso.
Quando teve certeza de que ela havia partido, correu até onde estava Henry para olhar seu rosto inchado e ferido.
Ela sentiu muita pena da situação dele, ela melhor do que ninguém sabia o que era aguentar passivamente ser espancada.
Foi ao banheiro e pegou uma toalha, uma das mais limpas que encontrou, e um pouco de água em uma bacia pequena.
Aproximou-se e começou a limpar o mais delicadamente possível o sangue no rosto de Henry, que continuava olhando perdido para o vazio como um boneco quebrado.
Eva aproveitou a ocasião para limpar também um pouco da sujeira do corpo de seu futuro marido.
Teve que trocar a água várias vezes, mas pelo menos agora dava para ver os pedaços de pele branca por baixo de tanto pelo emaranhado da barba.
Pensou que deveria ajudá-lo a cortar um pouco todo aquele ninho de pelos, mas também tinha um pouco de medo, caso a madame não gostasse das mudanças.
Era óbvio que aquela mulher tinha um ódio infinito desse homem e por isso, sendo tão ricos, o mantinham nesse estado deplorável.
Foi até o enorme armário de madeira e o abriu.
O cheiro de mofo e umidade veio direto ao seu encontro, inclusive alguns insetos rastejaram pelo chão de madeira, escondendo-se da luz repentina.
Eva examinou as roupas que supunha serem de Henry.
Apesar de algumas peças estarem comidas por bichos e sujas, ainda era perceptível que eram de boa qualidade.
Ela vasculhou e encontrou um conjunto de roupa decente.
Dispôs-se a trocar a roupa do paciente, por uma menos repugnante.
A parte de cima foi relativamente fácil, mesmo Henry sendo um homem alto e forte, mesmo tão magro, mas a parte de baixo seria um verdadeiro desafio.
Eva afastou a coberta de flanela que cobria suas pernas, mas ficou espantada ao encontrá-lo com as calças todas mal vestidas e com os sacos que estavam colados ao seu corpo, para ajudar a recolher os resíduos do seu organismo.
Inspirou fundo e, quase às cegas, sem olhar muito, trocou as calças com imenso esforço.
— Henry, a verdade é que eu pensei que estava mal, mas acho que você me superou. Não se preocupe, serei uma boa cuidadora — prometeu olhando em seus olhos cinzentos, nublados e perdidos.
A vida de Eva começou na mansão dos Edwards como outra criada.
Fazia as tarefas que lhe mandavam, suportando as zombarias e maldades das outras, mas nada a que não estivesse acostumada.
Procurava cuidar de Henry o melhor que podia e um dia chegaram os enfermeiros que o atendiam para dar-lhe banho e trocar seus aditamentos médicos.
Esperava que ao menos lavassem um pouco sua cabeça, pois certamente parecia que o lavavam muito por alto.
E, de fato, como suspeitou, nada de lavar a cabeça, um banho qualquer e ponto.
Eva entregou um conjunto de roupas limpas que tinha lavado ontem e eles o trocaram e o retiraram do banheiro, sentando-o novamente em sua cadeira de rodas.
— Não esqueça do medicamento — lembrou um cuidador ao outro, que assentiu e tirou um frasco de pílulas azuis.
