06. VOCÊ ACEITA SUA ESPOSA?

Deu dois a Henry com a ajuda de um pouco de água da torneira e saíram do mesmo jeito que chegaram, deixando apenas um ungüento para Eva aplicar nas feridas do rosto.

Sem nem perguntar como o paciente havia se ferido.

Eva suspirou olhando para Henry, não podiam continuar com aquele nível de sujeira.

Ela o arrastou de volta para o banheiro, que estava um caos, aproximou a cadeira da pia e inclinou a cabeça de Henry para trás, com muito cuidado e aos poucos, lavou o cabelo dele com sabão e água.

Teve que enxaguar várias vezes, mas finalmente o cabelo loiro de Henry começou a aparecer.

Também lavou sua barba emaranhada, tirando os restos grudados, que precisou cortar com uma tesoura, e mais ou menos, deu alguma forma ao ninho de pássaro no rosto e na cabeça do homem.

Olhando satisfeita para a sua obra-prima, ela o levou de volta para o seu lugar ao lado da janela e começou a secar o cabelo dele com uma toalha.

— Henry, olha que bonito amanheceu o dia, você tem que se animar porque ao menos está vivo e isso é algo bom.

— Talvez em algum momento você consiga recuperar a sua mente, quem sabe, você é um homem jovem, então deve lutar com força— começou seu monólogo enquanto desembaraçava, com muita paciência, o cabelo liso de Henry, que como sempre, apenas olhava para o nada.

Ela falava de tudo com confiança, pensando que tinha encontrado um excelente ouvinte para escutar todas as suas queixas e as desastrosas aventuras de sua vida.

Henry não a julgaria se nem sequer tinha ideia do que estava acontecendo ao seu redor, ou pelo menos, era isso que Eva acreditava.

Ela estava rindo de uma piada que ela mesma fez, sobre um dia em que teve que perseguir um porco, quando olhou pela janela que dava para o jardim lateral da mansão.

Viu uma linda jovem com cachos loiros, muito elegantemente vestida, passeando e rindo pelo jardim, acompanhada de outro homem, também jovem, vestido como um cavaleiro rico.

Eva ficou olhando porque sempre chamava a atenção dela as coisas bonitas como em qualquer garota de 17 anos.

Suspirou abaixando a cabeça. Nada a ver com ela, que se encontrava a milhares de mundos de distância daquelas pessoas.

Só precisava fazer seu trabalho e passar despercebida como um fantasma.

Procurar a oportunidade para sair e descobrir sobre sua irmã e sobreviver.

Mas os planos nem sempre saem como a gente imagina.

— Você está mesmo achando que só com uma desculpazinha vai se livrar disso?!— gritava a menina dos cachos loiros, que parecia um gentil anjo enquanto passeava pelo jardim e que agora se comportava como uma harpia.

— Senhorita, lamento muito, por favor, me desculpe.

— Eu vou limpar seus sapatos imediatamente — suplicou Eva, ainda jogada no chão, suportando a ardência do leite quente fumegante, que havia caído em sua mão quando, entrando no quarto para levar o café da manhã a Henry, se deparou com aquela garota saindo.

— Você se atreve a me tocar, sua nojenta?! — exclamou, afastando-se e evitando a mão de Eva, que ia limpar os sapatos dela, que mal estavam sujos por algumas poucas gotas.

— Esses sapatos são feitos sob medida por um dos melhores estilistas do país e agora você os arruinou! Acha que apenas uma limpeza vai resolver o que você fez?

— Alejandra, não seja tão malvada com a garota — disse de repente o jovem que até aquele momento contemplava todo o espetáculo ao lado.

— Se ela quer limpar seus sapatos, deveria deixá-la consertar seu erro.

Acrescentou fingindo compreensão, e Eva se alegrou ilusoriamente de que alguém finalmente tivesse pena dela, mas suas palavras de agradecimento ficaram presas diante da frase seguinte do jovem.

— Já que ela está tão arrependida, deveria demonstrar isso.

— Ouvi dizer que a língua é excelente para absorver líquidos e, além disso, veja, até tem lama de brincar no jardim; ela deveria ser capaz de limpar tudo e deixá-lo brilhando, não é? — disse com malícia, sorrindo cinicamente, e Alejandra entendeu perfeitamente o plano do irmão.

Dava-lhe um pouco de nojo ter a saliva daquela trapo humano em seus sapatos exclusivos, mas para ver um bom show, valia a pena.

— É verdade o que meu irmão diz. Se tanto quer se desculpar, então terá que fazer de tudo para mostrar sua sinceridade.

— Por exemplo, limpe bem meus sapatos com sua língua, certifique-se de tirar a sujeira da sola — ordenou estendendo o pé e colocando-o diante do rosto de Eva, que não podia acreditar que esses jovens realmente fossem tão cruéis.

— Eu... eu tenho um pano limpo... por favor... — começou a suplicar, embora soubesse que era inútil.

— Com a língua!! Ou acaso não ouviu? Você não estava tão arrependida? — gritou a garota loira, franzindo a testa com impaciência.

Grossas lágrimas começaram a cair dos olhos de Eva, apesar de ela tentar inutilmente contê-las.

Ela foi novamente invadida por aquele sentimento de impotência, sentindo-se como um trapo sujo, exatamente como estava sendo usada agora.

Abaixou a cabeça, fechou os olhos com agonia e cada célula do seu corpo recebia essa humilhação. Debatia-se entre obedecer ou se rebelar, apesar das consequências.

— O que estão fazendo aqui neste quarto? — ouviu-se de repente a voz de Grace aparecendo na porta.

Ela estava procurando seus filhos, que haviam chegado há pouco das férias escolares e não os via em lugar nenhum.

Imaginou que provavelmente tinham ido zombar do primo e, de fato, aqui estavam.

— Mãe! — chamou Alejandra de maneira coquete, aproximando-se da mãe, com uma expressão de total inocência, bem diferente da que estava mostrando enquanto obrigava uma jovem infeliz a lamber seus sapatos sujos.

— Pequena princesa, quantas vezes eu disse para não virem a essa imundície de quarto.

— Não quero que seus olhos se sujem com esse espantalho — disse Grace acariciando os cabelos macios da filha.

— Robert, não te falei para cuidar bem da sua irmã? — olhou duramente para o filho mais velho.

Ela tinha visto muito bem o que os dois estavam tentando fazer com a manca e estava quase certa de que a ideia havia partido do seu filho.

Ale era inocente demais para pensar em atos tão cruéis, mas sempre acompanhava as ideias do irmão.

Não que Grace se importasse muito com o que seus filhos faziam com os empregados, mas agora ela tinha notícias importantes para dar e não podia deixá-los perder tempo com brincadeiras de criança.

— Mãe, só estávamos brincando um pouco, não leve tão a sério, é só uma empregada — respondeu ele, sem dar importância ao assunto.

— Não brigue com o meu irmão, mamãe, essa garota sujou meus sapatos, a cada dia você contrata pessoas mais incompetentes, olhe para ela, parece uma mendiga — defendeu Alejandra.

— Limpe toda essa bagunça que você fez e da próxima vez não se esgotará com apenas uma bronca! — gritou Grace para Eva, que estava encolhida no chão, enxugando as lágrimas e assentindo.

Em seguida, a família de três saiu do quarto em direção à sala para se atualizarem, e Grace contar as boas novas.

Antes de sair do quarto, Robert lançou um olhar estranho para a nova empregada no chão, com todos os tipos de pensamentos macabros se formando em sua mente doentia e nojenta.

Eva ficou um tempo chorando no chão enquanto recolhia os restos de comida e a porcelana quebrada.

Os cacos feriam seus dedos, mas ela não se importava, o que mais a doía era o coração.


Uma manhã qualquer, quando se preparava para fazer o mesmo de todos os dias, Eva se surpreendeu quando, de repente, Dona Grace entrou abruptamente no quarto.

— Amanhã você vai se casar com meu sobrinho — disse ela sem muitos rodeios, e o coração de Eva apertou-se no peito.

— A governanta vai te indicar tudo o que precisa ser preparado para quando o notário vier celebrar o casamento.

— Acho que não preciso dizer o que pode acontecer se você ousar fazer algo errado amanhã.

Acrescentou de repente, ameaçadora, aproximando-se de Eva e olhando-a como um falcão olha para sua presa.

Eva estremeceu por todo o corpo com um suor frio.

— Amanhã, só precisa dizer "eu aceito" e nada mais.

— Se você ousar falar algo para as pessoas que vêm ou fazer algum escândalo, posso te garantir que eu mesma farei da sua vida pior do que um inferno — disse ela.

— Você só precisa se tornar a esposa órfã e manca do meu sobrinho tolo, entendeu? Só isso.

— Me diga se fui clara! — exigiu, fazendo com que Eva sobressaltasse com o tom alto.

— Muito claro, senhora — respondeu com a cabeça baixa.

— Fico feliz que tenha entendido. Enquanto fizer o que é indicado, você viverá com tranquilidade, mas não gosto de peões desobedientes, então espero que nunca passe pela sua cabecinha esfarrapada tramar algo contra nós, ou pode se considerar morta — sentenciou, e em seguida foi dar a medicação ao sobrinho e se retirou.

Chovesse, trovejasse ou relampejasse, fossem os enfermeiros ou Dona Grace, Henry sempre tomava aquelas duas cápsulas que pareciam vitaminas.

Eva estava com as pernas trêmulas, nem sequer se lembrara de que era seu aniversário de 18 anos.

Preocupava-se demais ao perceber que a ideia de sair para procurar sua irmã era demasiado ilusória.

Nunca poderia sair dessa prisão, nem com 18 anos, nem com sessenta.

Dona Grace jamais confiará nela; havia muitos segredos ocultos que ninguém poderia saber, e o maior de todos era o homem que seria seu futuro marido.

— Henry, me desculpe, não quero que me odeie, também não quero esse casamento, nem sequer me disseram no orfanato que queriam que eu me casasse com você — explicava com olhos vermelhos ao homem, enquanto ajeitava a manta nas pernas dele com as mãos trêmulas.


— Você aceita o Sr. Henry Edwards como seu esposo, para respeitá-lo e cuidá-lo na saúde e na doença, sendo fiel a ele, até que a morte os separe? — perguntou o homem que estava oficiando aquela deprimente cerimônia de casamento.

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