Capítulo 2
Uma mãozinha pequena, gelada como gelo, agarrou-se fracamente ao meu manto.
Aquele toque tênue rompeu meu poder divino recém-desperto. A masmorra era um freezer, e Arya tremia violentamente nos meus braços. Uma febre alta a queimava por dentro, e seu corpinho esquelético estava frio como a morte.
Mesmo morrendo, essa menina de sete anos encostou a bochecha arroxeada no meu ferimento, tentando desesperadamente estancar o sangue: “Não dói, mamãe... A Arya te protege...”
Meu coração se retorceu, como se uma lâmina girasse dentro dele.
Sem hesitar, interrompi o poder divino que curava meu corpo. Agarrei aquele fio de chama dourada pálida e o forcei inteiro para dentro do coração congelado de Arya.
A luz tremulou sob a pele dela e sumiu. A testa franzida relaxou um pouco, a respiração se estabilizou — viva por um fio.
Então o fogo divino se apagou. Dor e escuridão me engoliram por completo.
O tempo perdeu o sentido.
Quando acordei, o sangue tinha secado negro sobre a pedra, fedendo a podridão.
Minha garganta estava seca como um deserto, com gosto de cobre. Alexander tinha cortado toda a água e comida. Sem aquela centelha divina, Arya estaria morta.
Arrastei meu corpo quebrado para mais perto, envolvendo-a com o pouco calor que ainda me restava. O ferimento da espada de gelo não fechava — cada respiração parecia lâminas na minha garganta e nos pulmões.
De repente, a porta de ferro rangeu e se abriu.
O perfume de rosas anunciou Isabella antes de ela aparecer, ladeada por dois magos de alta patente.
Ela vestia seda vermelha em chamas, bordada com o totem da fênix da Grã-Duquesa. O rosto dela brilhava de saúde — nem sinal da doença que a vinha matando.
O sangue do meu coração tinha feito mais do que suprimir a corrupção demoníaca dela. Tinha deixado Isabella radiante.
— Meu Deus, Cecilia... olha você, se revolvendo na sujeira como uma vira-lata sarnenta. — Isabella apertou uma luva de renda contra o nariz, os olhos brilhando de nojo e vitória.
Encarei através dela. Não adiantava desperdiçar fôlego com quem já estava morto.
Meu silêncio a deixou ainda mais furiosa. Ela se aproximou, olhando para mim e para Arya desacordada com desprezo escancarado.
— Alexander marcou a data, Cecilia. Na próxima lua cheia — a minha Cerimônia do Nirvana. — Ela fez carinho na fênix do vestido como se fosse um bichinho. — Assim que eu concluir o ritual e me tornar a verdadeira Herdeira da Fênix, ele vai tirar seu título. A Cidade de Aurora só tem uma senhora. Eu.
Quase ri.
Cerimônia do Nirvana? Um rito antigo que só um verdadeiro sangue de fênix consegue sobreviver. Essa mulher nem sequer conseguia sentir elementos de fogo, e ainda assim sonhava com renascimento?
— O que é tão engraçado?! — A voz de Isabella ficou estridente. — Sua casca ressecada... acha que ainda pode zombar de mim?
— Só da sua estupidez. — Encarei os olhos dela com calma. — Você acha que o meu sangue faz de você uma fênix? Dá pra vestir um porco de seda, Isabella. As chamas vão te reduzir a cinzas.
— Vadia! — O rosto de Isabella se contorceu de ódio. A bota dela desceu com força bem em cima do meu ferimento aberto.
A agonia escureceu minha visão. Mordi o lábio até sangrar para engolir o grito, usando meu corpo para proteger Arya por completo, sem deixar Isabella encostar nela nem um instante.
— Ainda tem essa boquinha esperta? Vamos ver quanto tempo você aguenta! — Isabella rosnou e, de repente, pareceu se lembrar de algo. Tirou um objeto de dentro do vestido e o sacudiu diante dos meus olhos.
Era o Amuleto Estelar. A pedra estrelada azul translúcida engastada em mithril.
O símbolo que Alexander pendurara no meu pescoço com as próprias mãos quando eu o salvei do Abismo anos atrás. Depois, roubado por Isabella, virou a prova irrefutável da “graça salvadora” inventada por ela.
— Alexander disse que isto testemunha o nosso amor. — Os olhos de Isabella faiscaram de maldade. — Mas eu sempre achei uma coisa horrorosa. Afinal, algo que você tocou nunca poderia ser puro.
Fiquei encarando aquele amuleto, enquanto meus dedos arranhavam trilhas ensanguentadas no chão de pedra.
— O que você vai fazer? — Minha voz estava fria como gelo.
— O que eu vou fazer? Eu só pensei que, já que você é tão apegada a isso, por que não destruí-lo bem na sua frente? — a risada estridente de Isabella ecoou.
Ela jogou o amuleto no chão e ergueu a bota com pontas de ferro, descendo-a num pisão cruel.
Crac—
A pedra estelar se despedaçou em um pó opaco sob o salto dela.
Meu coração pareceu se partir junto com aquele som.
Não porque eu ainda me importasse com ele, mas porque aquela pedra era a única prova do que realmente tinha acontecido. Agora, até isso tinha desaparecido.
Dentro daquela pedra estelar, eu havia selado um fragmento de memória do Abismo — achei que, um dia, ele veria aquelas imagens e entenderia o que de fato aconteceu.
Mas agora, tudo estava destruído.
— E então? Dói? Está se sentindo impotente? — Isabella me olhou triunfante. — Cecilia, você nunca vai vencer contra mim. Tudo o que era seu — seu marido, seu status, sua linhagem — agora é meu!
Nesse instante, passos pesados ecoaram do lado de fora. Alexander entrou a passos largos.
Os olhos dele caíram sobre o pó espalhado pela pedra. Seu rosto escureceu.
— O que aconteceu? Como o amuleto se quebrou?
A expressão de Isabella desmoronou no mesmo instante, e lágrimas escorreram por seu rosto.
— Alexander... eu o trouxe para mostrar à Cecilia, para convencê-la a perdoar você. Mas ela enlouqueceu — arrancou-o de mim e o esmagou. Ela amaldiçoou nós dois, disse que vamos queimar no inferno...
— Cecilia! — Alexander se virou para mim, os olhos em chamas. — Aquela era a única prova de que Isabella salvou minha vida no Abismo! Como você se atreve?!
Ergui o olhar para o homem que eu um dia amei. A cegueira dele era quase bela em sua totalidade.
— Você destruiu o que ela lhe deu, Alexander. Não eu.
— Ainda desafiando! — Relâmpagos crepitaram na palma da mão dele.
O golpe me atingiu como um aríete.
Fui lançada para trás, me chocando contra a pedra. Carne queimada. Era isso que eu sentia pelo cheiro. A dor deveria ter me feito desmaiar — em vez disso, tornou tudo cristalino.
— Mamãe! — Arya despertou sobressaltada com o choque residual. Ela rastejou em minha direção, soluçando, mas Alexander a agarrou pelo colarinho e a ergueu.
— Joguem essa bastardinha na Torre da Tempestade! Que ela aprenda a ter respeito!
— Solte-a! Alexander, desconte isso em mim! — rastejei para a frente em desespero, conseguindo apenas agarrar um punhado de lama da bota dele.
Alexander olhou para mim sem nenhuma misericórdia.
— Cecilia, isto é um aviso. Se você ousar tocar em Isabella de novo, vou fazer você assistir sua filha queimar.
Ele foi embora com Isabella e Arya. Na masmorra ficaram apenas eu e o pó espalhado que um dia fora minha esperança.
Fiquei deitada no chão de pedra congelado e, de repente, comecei a rir baixinho. O som ecoou pela câmara mortalmente silenciosa.
O amor humano — tão falso, tão cego. Como tudo aquilo parecia patético agora.
Fechei os olhos. O selo divino dentro de mim já estava coberto de rachaduras como teias de aranha, precisando apenas de um último golpe fatal para desmoronar por completo.
Sem pressa. Porque eu sabia que algumas tigelas de sangue jamais poderiam preencher o vazio abissal dentro de Isabella. A reação completa da energia demoníaca era apenas uma questão de tempo.
Eu esperaria em silêncio na escuridão da masmorra.
Em breve, Alexander. Quando você descobrir que o sangue de um coração comum já não basta mais e, por causa daquela mulher falsa, vier pessoalmente arrancar a última coisa do meu corpo...
Esse será o fim dessa farsa doentia.
E o dia em que o seu verdadeiro pesadelo começa.
