Todos os homens me aterrorizam
Ponto de vista de Elise
Todos os homens me apavoram. Nunca confessei isso a ninguém, e nunca pedi ajuda. O medo começou na noite em que fui atacada. Ninguém sabe, e uma parte de mim está convencida de que ninguém jamais acreditaria em mim.
Por que acreditariam? Eu não sou o tipo de garota que chama atenção. Pequena, quieta, de cabelo castanho, a garota que se esconde atrás dos livros enquanto todo mundo vive a própria vida. Invisível. Esquecível. Ainda assim, foi um dos jogadores de futebol americano mais admirados do campus que me forçou.
Por que ele? Por que eu?
Essas perguntas queimam dentro de mim, mas também são a razão de eu ficar calada. Quem acreditaria em mim se eu dissesse que Julian Ashford me prensou contra uma parede e tirou de mim algo que nunca pertenceu a ele?
Mesmo agora, a lembrança faz meu estômago se revirar. Aconteceu na minha primeira festa de fraternidade, antes mesmo de o semestre começar. Ele estava bêbado, mas isso não desculpa nada. O que ele fez foi monstruoso.
E, de alguma forma, sou eu quem carrega a vergonha, como se a culpada fosse eu. Às vezes isso pesa tanto que eu quero desabar e chorar, mas chorar nunca muda a verdade. Se eu algum dia dissesse isso em voz alta, eu sei que a maioria das pessoas não ficaria do meu lado.
Então, eu fico quieta. Enterro isso bem fundo. Digo a mim mesma que vou sobreviver sem ajuda, porque terapia é cara demais e há pessoas no mundo sofrendo muito mais do que eu.
Pelo menos não estou grávida. Conferi de novo e de novo, apavorada. Talvez esse medo desapareça um dia, talvez eu aprenda a respirar perto de homens de novo.
Mas, por enquanto, estou sentada na biblioteca fingindo que meus pensamentos não são altos o bastante para me afogar. Meu laptop zune enquanto eu digito, trabalhando na tarefa que nosso professor passou. Ele nos colocou em duplas para fazermos novos amigos, mas meu parceiro ainda não apareceu.
Sinceramente, estou aliviada. Eu deveria fazer dupla com Damien Lancaster, e, embora todas as garotas tenham soltado gritinhos de empolgação só de pensar nisso, eu não queria ter nada a ver com aquilo.
Damien Lancaster. Até o nome dele tem peso. As garotas o descrevem com todos os clichês — lindo, alto, largo, impossível de resistir. Uma delas até implorou ao professor para trocar de lugar comigo só para ficar perto dele. Nunca vou entender por quê.
Eu me espreguiço, cobrindo um bocejo, e decido guardar minhas coisas. A fome me corrói, e talvez minhas colegas de quarto tenham deixado alguma coisa intacta na geladeira. Estendo a mão para pegar meu laptop, pronta para sair sem ser notada.
É aí que ouço o som de passos pesados.
— Ei, você!
Viro devagar, com o peito se contraindo.
Uma figura imponente vem direto na minha direção. O moletom cinza estica sobre ombros duros como pedra, e eu preciso inclinar a cabeça para trás para encarar a intensidade do olhar dele.
Futebol. Luta livre. Alguma coisa brutal que exige força. Ele deve ter pelo menos um metro e noventa e cinco, talvez mais. Parece que pertence a um filme, não a esta sala silenciosa.
E ele é deslumbrante de um jeito que me tira o fôlego antes mesmo de eu perceber que estou prendendo a respiração.
Fico paralisada, encarando como uma idiota enquanto minha mente se esvazia por completo.
— Tudo aqui é meu — ele diz, a voz grave e autoritária, ecoando pelo espaço como se fosse dona dele.
Meus lábios se entreabrem, mas nenhuma palavra sai.
— Você é Elise Hawthorne, não é?
Engulo em seco.
— Sim.
O olhar dele prende o meu com uma força que arrepia minha pele, e então ele dá um passo à frente, perto o bastante para o moletom dele quase roçar em mim. A mesa pressiona minhas costas quando o ar entre nós desaparece.
— Quem diria que eu ia te encontrar na biblioteca — ele resmunga, quase como se estivesse falando sozinho. — Parece que minha sorte finalmente melhorou.
Não consigo parar de olhar. O peito dele parece absurdamente largo, e ele se porta com um tipo de confiança que beira a arrogância. Talvez seja o homem mais intimidador que já conheci.
— Você está me ouvindo?
Não, estou distraída demais olhando para você.
— S-sim...
Ele suspira, frustrado.
— O professor te deu meu número. Por que você não me mandou mensagem nem me ligou? A gente deveria trabalhar junto.
— Ah...
— O que foi isso? — A voz dele fica ainda mais baixa quando ele se inclina, me pressionando mais contra a mesa. Meu pulso dispara tanto que eu consigo ouvi-lo nos ouvidos.
— Espera. Você é lenta ou o quê?
Abro a boca, mas nada sai.
Ele inclina a cabeça, me estudando como se estivesse dissecando cada parte de mim, e eu prendo a respiração. Uma onda de medo atravessa meu corpo — e se ele realmente me machucar?
Fico completamente imóvel, incapaz de me mexer sob aquele olhar.
— Você está drogada?
Balanço a cabeça rapidamente.
— Então por que você não ligou?
— L-liguei? — A palavra sai torta da minha boca.
— Sim, Elise! — A voz dele troveja, se impondo sobre mim como se fosse dono do lugar. — A gente deveria trabalhar junto. Se explica. Por que você não me mandou mensagem nem me ligou? Fala alguma coisa logo!
Trabalhar junto?
— Eu...
Os olhos dele se estreitam, a paciência se esgotando.
— Mais alto. Fale como uma pessoa normal. Ninguém consegue te ouvir quando você resmunga.
Engulo em seco, lutando contra a ardência nos olhos quando as lágrimas ameaçam cair. Minha língua passa nervosa pelos lábios enquanto a dúvida se revira dentro de mim. Será que ele me confundiu com outra pessoa?
— Eu... desculpa. Mas quem exatamente é você?
No instante em que pergunto, ele deixa os braços caírem do peito. Solta o ar entre os dentes cerrados, recua um passo e finalmente me dá espaço para respirar.
Mesmo com a distância entre nós, não consigo parar de olhar. Ele é enorme, daquele tipo de tamanho que faz você se perguntar se foi criado à base de carne crua e ferro em vez de comida.
Ele é gigantesco. E perigosamente atraente, embora não de um jeito reconfortante. Parece o tipo de homem que tanto poderia proteger a sua vida quanto acabar com ela, e esse pensamento faz arrepios subirem pela minha espinha.
Sem dizer mais nada, ele passa por mim a passos largos e puxa a cadeira à minha frente. Senta-se com a expressão impassível, os lábios formando uma única ordem. “Sente-se.”
Meu coração falha uma batida enquanto pisco para ele. “Você está… falando sério?”
Pelo jeito como o maxilar dele se contrai, dá para ver que está se contendo. “Sério? Você realmente não sabe quem eu sou?”
Balanço a cabeça.
“Tem um pôster meu espalhado por todo este campus, e você nunca me viu?”
Balanço a cabeça de novo.
Ele solta um gemido e passa a mão pelo cabelo cor de areia, a frustração marcada em cada linha do rosto. “Inacreditável. Eu sou Damien Lancaster, seu parceiro de projeto. O que há de errado com você? Você tem dificuldade para falar?”
Não, não há nada de errado comigo. Eu só morro de medo de homens. Especialmente de homens como Damien Lancaster. Infelizmente, ele é meu parceiro.
Espera. Ele acabou de dizer que tem um pôster no campus? Por quê? Ah, deixa pra lá. É melhor eu responder antes que ele perca a paciência de novo.
Com a voz trêmula, consigo dizer: “Não… eu sei falar, sim.”
“Então fale mais alto, certo? Eu não vou ser reprovado nesta matéria porque você se recusa a usar a voz.” O olhar dele desliza para o meu laptop com uma intenção afiada, como se já fosse dono dele. “O que você já tem até agora? E por que ainda está em pé?”
Eu me acomodo na cadeira, cada movimento lento, o corpo fraco de nervosismo. De algum jeito, consigo formar as palavras. “Ainda não cheguei tão longe.”
Damien revira os olhos e puxa meu laptop para si com uma das mãos enormes. Ele analisa a tela com um murmúrio, examinando cada detalhe.
Meu pulso falha e tropeça, minha respiração fica instável. Estar tão perto dele me deixa tonta, como se meu corpo não soubesse como existir na presença dele.
Ele arqueia uma sobrancelha. “Quem, em sã consciência, escolhe a Suécia para uma apresentação quando existem tantas opções melhores?”
“Ah…”
“E esse cara na foto, que diabos ele está fazendo? Está nadando pelado?” Ele volta os olhos para mim, a expressão indecifrável. “Você parece doce e inofensiva, mas talvez não seja. Hoje em dia, não dá para confiar em ninguém.”
O quê? Ele está mesmo falando do homem pulando do penhasco na água em um dos meus slides?
“E, aliás, é Noruega. Não Suécia.”
As sobrancelhas dele se erguem, mas, tão rápido quanto, o olhar duro volta.
“Eu sabia. A bandeira entregou.”
É, claro. Alguma coisa me diz que ele não fazia a menor ideia.
— Bom — murmuro, quase sem voz.
Pelo menos eu tinha acertado. Não sou completamente sem noção.
Por algum motivo ridículo, quase sorrio. Damien Lancaster é... diferente.
Os olhos dele se estreitam, como se me desafiasse a contradizê-lo.
— Eu estava te testando. — Então aponta dois dedos para os próprios olhos e, em seguida, para os meus. — Só conferindo se você está focada.
Focada? Esse cara está falando sério?
Eu o observo com cuidado, meio convencida de que Damien talvez seja mesmo desequilibrado, mas sei melhor do que dizer isso em voz alta. Ele é o tipo de homem que poderia me esmagar sem esforço, então ficar calada parece mais seguro.
— Você não ficou feliz com a Noruega como tema?
A Noruega é deslumbrante. Como alguém não ficaria feliz com isso?
— Não, Noruega está ótimo.
Ele empurra o laptop de volta pela mesa, e meu coração dispara tão rápido que chega a doer.
— Vou ignorar o fato de você nunca ter ligado nem mandado mensagem. Você foi bem o bastante. Mas amanhã vamos vir andando pra cá logo depois da aula. Juntos. Entendeu?
Meus lábios se entreabrem, mas nenhum som sai rápido o suficiente. Os olhos dele brilham de impaciência.
— Você entendeu, Elise?
O calor sobe para as minhas bochechas.
— S-sim.
O olhar dele passeia por mim numa varredura lenta, antes de se prender ao meu de novo, pesado de dominância. Damien se porta como um homem acostumado a controlar, acostumado a ver as pessoas se dobrarem à vontade dele. Está em cada movimento, em cada olhar, em cada grama de força que irradia dele.
— Mais alto.
— Sim! — Minha voz falha sob o peso do olhar dele.
— Não estou ouvindo.
Puxo um ar trêmulo e empurro as palavras com mais firmeza.
— Sim. Vamos vir andando pra cá amanhã.
Os olhos dele se estreitam, como se estivesse selando um acordo.
— Juntos.
Mandão nem chega perto de descrever.
— Juntos — repito, baixinho.
— E você não vai me dar o bolo.
Como se eu ousasse. — Eu não vou te dar o bolo.
— Finalmente. Alto o bastante pra eu ouvir. — Damien se levanta até a altura total, imponente sobre mim, ainda sem oferecer nem o menor sorriso. — Continue trabalhando na apresentação.
Só isso? Ele vai simplesmente embora?
Eu encontro minha voz de novo.
— Pra onde... pra onde você vai?
A sobrancelha dele se arqueia.
— Você não está com fome? Vou pegar uma pizza pra gente ali no quarteirão de baixo. Meia hora. Você ainda vai estar aqui.
Antes que eu possa protestar, ele sai em passos largos, sem hesitar.
Eu fico olhando atrás dele, atônita.
A arrogância daquele homem.
“Você ainda vai estar aqui.” Sério?
Um arrepio gelado desce pela minha espinha. Homens como ele, homens que agem como se dar ordens fosse um direito natural, me assustam. Damien Lancaster me assusta. Ele parece perigoso e, ao mesmo tempo, tão marcante que me deixa vulnerável. Outro tremor sobe pela minha coluna, e eu não consigo me imaginar me sentindo segura perto dele algum dia.
