Meus colegas de quarto iam perder o controle completamente quando vissem isso.
Ponto de vista de Elise
Já estava tarde, muito mais tarde do que eu pretendia ficar, e mesmo assim eu ainda estava presa na biblioteca. Meus nervos estavam tão à flor da pele que eu mal conseguia me concentrar em uma única palavra. O motivo estava sentado bem ao meu lado. Damien.
Ele se esparramava na cadeira como se fosse dono do lugar, se esticando como se limites pessoais não significassem nada para ele. Tinha até se apropriado da última fatia de pizza, comendo como se fosse dele. Quanto mais ele se inclinava para perto, mais desconfortável eu ficava, e minha respiração ia ficando mais curta. Por que ele sempre tinha que sentar tão perto?
Olhei para o relógio e quase gemi. As horas tinham passado voando. Eu já devia estar em casa, aproveitando a paz e o silêncio do meu quarto. Em vez disso, eu estava presa aqui, trêmula e exausta, com quase nenhum avanço no nosso projeto. Eu devia me sentir aliviada só de pensar em finalmente ir embora, mas a frustração venceu. Nada nesta noite parecia produtivo.
Por que o professor tinha que me colocar em dupla com Damien Lancaster? Ele não contribuía com quase nada, enquanto eu estava acostumada a me manter adiantada com as minhas coisas. Agora, até meus pensamentos estavam ficando tão bagunçados e improdutivos quanto ele.
— Falando sozinha de novo? — a voz de Damien interrompeu meus pensamentos, áspera e provocadora, enquanto ele descascava uma banana como se tivesse todo o tempo do mundo.
Cerrei os dentes. Ele era impossível. Bonito demais para o próprio bem, mas impossível do mesmo jeito.
Recusei-me a olhar para ele. Ele já sabia o quanto me deixava inquieta, e aproveitava cada segundo disso. Damien era o tipo de homem que se alimentava de deixar os outros desconfortáveis, principalmente eu.
— Eu não falo sozinha — murmurei.
— Fala, sim.
— Estou falando sério.
Ele deu uma mordida lenta, mastigando alto. Eu sabia que ele fazia aquilo só para me irritar. Então a voz grave dele quebrou o silêncio de novo.
— Tenho outra pergunta pra você, Elise.
Meus ombros caíram. — O que foi agora?
— Todos os homens te assustam ou é só eu?
Meus olhos correram para os ombros largos e o corpo sólido dele, que de algum jeito me faziam sentir encurralada mesmo com ele sentado. Minha garganta apertou.
— O-o que te faz pensar que eu tenho medo de homens?
Ele deu de ombros, casual. — Você estava de boa conversando com a bibliotecária. Mas no segundo em que aqueles garotos passaram, você se encolheu toda, como se quisesse desaparecer. Estava estampado na sua cara.
Ele riu, parecendo divertido demais com o que tinha notado, enquanto uma dor pesada se instalava no meu peito.
Por que ele sempre tinha que transformar meu medo em entretenimento?
— Não é justo zombar de alguém por isso — eu disse baixo. — Você não sabe pelo que a pessoa pode ter passado.
O sorriso dele se alargou. — Então me conta. Pelo que você passou? Deixa eu adivinhar. Bullying?
As palavras descuidadas dele cortaram fundo. Como ele podia jogá-las assim, com tanta facilidade, sem fazer ideia do que eu tinha vivido?
Apertei os dentes no lábio inferior, segurando as lágrimas. Ele não precisava saber. Ele não ia se importar de qualquer jeito. Ainda assim, uma palavra escapou antes que eu conseguisse impedir.
— Não.
Não era bullying. Era pior. Muito pior.
Mas eu nunca diria isso em voz alta.
Damien apoiou a bochecha na palma da mão, me observando como se eu fosse um quebra-cabeça que ele pretendia resolver.
— Então o que foi? Me conta.
Desviei o olhar. Nada. Absolutamente nada.
— Qual é. Fala — ele insistiu.
Meu peito queimava. Quem deu a ele o direito de cutucar feridas que não tinham nada a ver com ele? Damien não era meu amigo, nem alguém perto de quem eu me sentisse segura. Ele era meu parceiro de projeto, nada mais.
— Não é da sua conta — murmurei.
— Desculpa? — o sorriso dele ficou mais afiado. — Mais alto. Não ouvi.
— Eu disse que não é da sua conta!
As palavras explodiram de mim, minha voz falhando enquanto as lágrimas ardiam nos meus olhos. Minhas mãos tremiam onde repousavam sobre a mesa.
— Puta merda. — Damien riu, alto e despreocupado. — Você tá com cara de que vai surtar de novo.
Meu coração batia dolorosamente, e meus lábios tremiam apesar do meu esforço para manter minhas emoções sob controle.
— Você é muito esquisita. — Ele balançou a cabeça devagar, quase como se sentisse pena de mim. — Não tem um pingo de coragem nesse corpo, né?
As palavras dele cortaram fundo. Eu fiquei imóvel, me agarrando ao silêncio e torcendo para que ele finalmente parasse. Mas Damien nunca parecia saber a hora de desistir. Ele sempre tinha que ir um pouco além.
— Ei, eu te fiz uma pergunta — ele insistiu.
Engoli em seco, com a voz quase inaudível.
— Por que você sempre tem que ser tão cruel?
— Cruel? — as sobrancelhas dele se ergueram, como se eu o tivesse insultado. — Como é?
A raiva borbulhou por baixo do meu medo, escapando antes que eu conseguisse segurar.
— Sim. Você podia tentar ser gentil uma vez na vida. Em vez disso, escolhe ser maldoso.
— Mais gentil? — ele soltou uma risadinha de desdém. — Não. Eu só falo a verdade. Isso não é crueldade, Elise. Isso é honestidade.
Mordi o lábio, tentando desesperadamente impedir que as lágrimas transbordassem. Damien não era apenas difícil de lidar. Ele era um valentão.
Ele se endireitou, ficando imponente sobre mim com uma expressão que fez meu estômago revirar.
— Tanto faz. Pega suas coisas. A gente está indo. Eu vou te levar pra casa.
Levantei a cabeça num sobressalto.
— Você vai me levar pra casa?
— Você é surda? Foi o que eu disse. Eu te vi andando mais cedo, então só me fala onde você mora.
Ele tinha me notado? Antes de hoje?
A ideia fez uma dúzia de perguntas dispararem na minha cabeça, nenhuma das quais eu tive coragem de fazer.
— Hum…
Damien gemeu, passando a mão pelo cabelo.
— Inacreditável. Tá. Só digita seu endereço no celular e me entrega.
Com os dedos tremendo, peguei o celular, digitei meu endereço e, a contragosto, passei para ele.
Ele olhou a tela e murmurou, quase para si.
— É meio longe.
Antes que eu pudesse responder, ele se virou e saiu andando, ainda com o meu celular na mão.
Fiquei de boca aberta. Ele estava falando sério? Ia simplesmente sair andando com o meu celular? Os ombros largos dele se moviam com tanta confiança que ele parecia uma parede impossível de derrubar, contra a qual eu não tinha a menor chance.
Antes que eu entrasse em pânico, ele olhou por cima do ombro.
— E aí? Você vem ou não?
Ah.
O calor subiu ao meu rosto enquanto eu me apressava para juntar minhas coisas, enfiando tudo na bolsa. Damien assobiava enquanto esperava, alto o bastante para atrair alguns olhares, embora ninguém ousasse dizer nada.
Corri atrás dele, mas o chão brilhante me traiu. Meus sapatos chiaram e eu soltei um suspiro ao perder o equilíbrio. Eu estava prestes a cair de cara no chão bem na frente dele quando um par de braços fortes me segurou.
Prendi a respiração ao olhar para cima. Os olhos de Damien encontraram os meus e, pela primeira vez, o sorriso debochado dele tinha sumido. No lugar, havia uma expressão que eu não conseguia entender direito. O aperto dele era firme e seguro, e os braços dele pareciam quentes ao meu redor.
Ele tinha me segurado. Tinha me salvado de passar vergonha. Meu estômago deu um friozinho involuntário.
— Você se machucou? — a voz dele saiu baixa, quase gentil.
Balancei a cabeça depressa, com o coração disparado.
— Não.
— Ótimo.
Ele me firmou antes de me soltar e então olhou para o chão.
— Deviam colocar uma placa quando o piso está molhado. Idiotas.
Um sorrisinho puxou meus lábios antes que eu conseguisse impedir.
— Normalmente tem uma.
— Hoje não. Parece que alguém relaxou.
Ele se endireitou e estendeu a mão.
— Me dá sua bolsa.
Meus olhos se arregalaram.
— P-por quê?
— Porque está pesada demais pra você. Seus braços parecem gravetos.
Ah.
Damien Lancaster estava se oferecendo para me ajudar. Era algo que eu nunca teria esperado.
Sem dizer nada, tirei a alça do ombro. Ele jogou a bolsa no próprio ombro como se não pesasse nada e então estendeu a mão para a minha.
O calor da palma dele contra a minha fez uma onda quente subir pelo meu braço. Eu tive que me lembrar de respirar enquanto ele me conduzia, como se segurar minha mão fosse a coisa mais natural do mundo.
Se acalma, Elise. Só respira.
— Você mora sozinha? — ele perguntou, casualmente.
— Ah… não. Moro com duas colegas de quarto.
Elas iam surtar quando me vissem entrar com Damien Lancaster, logo ele. Ele podia ser arrogante, mas não dava para negar o quanto ele era absurdamente bonito.
— Bom — ele disse, simplesmente. — Você precisa de gente por perto. Você é indefesa.
As palavras diretas dele arderam, mas eu não discuti.
— De agora em diante, eu vou te levar pra casa sempre que você ficar até tarde na biblioteca. Andar sozinha à noite não é seguro.
Por um instante, eu só consegui encarar.
Aquilo quase soou… gentil.
— Obrigada — sussurrei.
Ele não sorriu, mas o tom suavizou.
— De nada.
Quando chegamos ao carro dele, uma BMW preta e elegante, eu quase ri do absurdo da situação. Eu realmente estava prestes a ser levada para casa por Damien Lancaster.
Minhas colegas de quarto iam perder completamente a cabeça quando vissem aquilo.
