Damião! É embaraçoso! Não leia isso!”
Ponto de vista de Damien
A biblioteca está quieta, quase tranquila demais. Estou sentado aqui com Elise, mastigando uma maçã enquanto ela se concentra no nosso projeto. Tudo estaria perfeito se aquele cara de óculos parasse de ficar encarando ela.
Ele está sentado na própria mesa, gravata impecável, cabelo penteado para trás, com um sorrisinho nervoso. Está claramente caidinho pela Elise, e isso me irrita mais do que eu gosto de admitir. Quem ele pensa que é, olhando para ela daquele jeito?
Elise está comigo. Ela não é dele. Nunca vai ser. Eu não estou com ciúme, bom, não exatamente, mas fala sério. É melhor esse cara parar com isso.
Resmungo baixinho e chego um pouco mais para perto de Elise, mantendo o olhar fixo no outro cara. Se eu tivesse nascido um rottweiler, estaria mostrando os dentes agora.
"Ahm…" Elise ergue os olhos, claramente desconfortável. "Por que você está sentado tão perto?"
Estreito os olhos para ela e murmuro: "Sem motivo."
"Tá bom…" ela diz, voltando a digitar.
Meu maxilar se contrai quando aquele cara continua olhando para ela com uma expressão sonhadora. Sério? Ele é muito abusado.
Tenho que agir. Quero deixar bem claro para ele: eu estou no comando, e Elise é minha. Devagar, passo o braço por cima dos ombros dela. Ela estremece e fica tensa, mas isso não importa. Meu objetivo é simples: manter aquele outro cara longe.
"O-o que você está fazendo?!" Elise retruca, me lançando um olhar fulminante. É difícil levá-la a sério. Ela é como um coelhinho minúsculo e furioso dando bronca em um leão.
Tanto faz. Não vou tirar o braço. Tem cobras nesta biblioteca, e eu não confio nele nem por um segundo. No momento em que eu soltar, ele vai tentar chegar perto demais dela.
"Como assim?" Dou um sorriso de lado. "Não estou fazendo nada."
"Não se faça de idiota! Por que seu braço está em volta de mim? Ele é muito pesado!"
"É leve como uma pena", respondo.
"Não, ele é enorme, e o seu peso está me esmagando!"
Ela está exagerando. Eu sou um cara grande, sim, mas ela está fazendo parecer pior do que é.
"O meu peso não está te esmagando", murmuro, um pouco ofendido por ela sequer sugerir uma coisa dessas.
As narinas dela se abrem. "D-Damien! Você está me apertando!"
Ah, não. Eu não tinha percebido. Quando foi que cheguei tão perto dela?
"Elise?"
Ergo a cabeça de repente e congelo quando o cara de óculos para diante da nossa mesa. O sorriso dele é determinado, e na mão ele segura uma carta com um coração desenhado. Ele a estende para Elise.
"Eu escrevi isto para você, Elise", ele diz.
Uma carta de amor. Claro que é.
Quero arrancá-la da mão dele, protegê-la disso, mas ela a pega sem hesitar.
"Ah, obrigada, Lucas", Elise diz docemente. "O-o que é?"
É exatamente isso que eu quero saber. Estou sendo completamente ignorado, e meu peito se aperta. Por que esse cara me faz sentir assim?
Ela está a fim dele?
Não. Nunca. Sem chance.
Mas… e se estiver?
Lucas é mais baixo, magricela e não tem definição muscular nenhuma. Não chega nem aos meus pés. Mesmo assim, não consigo afastar esse pensamento. E se Elise gostar dele?
Ela nem sequer esbarrou acidentalmente no meu abdômen uma única vez, e isso acontece o tempo todo com outras garotas. O que significa que… meu Deus… Lucas pode mesmo ter uma chance.
"Por que você não lê depois?" Lucas pergunta, com a voz suave. "Eu preciso ir agora, mas talvez você possa dar uma olhada em casa. Eu sei que você não gosta que as pessoas cheguem muito perto, então achei que uma carta seria melhor."
Espera. Ele está olhando feio para o meu braço em volta da Elise? Azar o dele, moleque. Eu me aproximo ainda mais dela. Ela me encara como se eu tivesse criado duas cabeças, mas não estou nem aí.
"Ah..." Elise limpa a garganta, sorrindo nervosamente. "Isso foi muito atencioso, Lucas. Vou ler quando chegar em casa."
"Ótimo!" Lucas abre um sorriso. "Então até mais!"
"Até mais, Lucas!"
Assim que ele vai embora, Elise põe a carta de volta na mesa. Eu encaro aquilo como um gavião, desejando ter superpoderes para poder queimá-la só de pensar nela.
"Me pergunto por que ele me deu isso", Elise diz em voz alta, ficando vermelha na mesma hora quando percebe meus olhos nela.
Estou a poucos centímetros do rosto dela, olhando diretamente nos seus olhos. Ela se encolhe para trás, mas eu não desvio o olhar.
"Não está óbvio?" rosno.
Os lábios dela tremem. "Ah... não, não está."
Ela está falando sério? Provavelmente.
Eu suspiro. "O Lucas escreveu uma carta de amor para você, Elise. Provavelmente está cheia de coisa cafona, idiota e melosa. O que os nerds escrevem hoje em dia? 'Você faz meu coração disparar como no Mario Kart' ou algo assim?"
"Isso foi maldade, Damien", Elise diz, tirando meu braço do ombro dela e me lançando um olhar fulminante. "E o Lucas nem gosta de mim!"
Solto um muxoxo e estendo a mão para a carta. "Quer apostar?"
"Não! Não leia!"
Dou um sorriso torto, segurando a carta fora do alcance dela. "Tarde demais. Já estou abrindo. Preciso ver o quanto o Lucas te ama."
"Não, por favor, Damien! É constrangedor! Não lê!"
Limpo a garganta e começo, deixando meu lado travesso assumir o controle. "'Querida Elise...'"
Finjo enxugar uma lágrima com o dedo. "Awn, o Lucas até que é meio fofo. Ele te chama de 'querida Elise'. É isso que um cavalheiro faria."
Elise está vermelha feito um pimentão. "Damien, para!"
"Ainda não", digo, continuando a ler. "Eu sei que seu ano começou mal, mas o clube do livro sente sua falta. E eu sinto sua falta. Nós costumávamos ser melhores amigos."
"Por favor, para com isso", ela murmura.
Eu continuo. "Você se mudou da casa dos seus pais. Talvez tenha sido melhor assim. Sua mãe sente sua falta... nas vezes em que está sóbria, pelo menos, acho que sente. Eu ouço ela brigar muito com seu pai. Da última vez que a vi, ela estava com hematomas."
Eu paro por um momento, percebendo que isso é sério. Olho para Elise. Ela está me encarando com raiva, lágrimas escorrendo pelo rosto.
"Satisfeito agora?", ela pergunta, por fim.
"Elise...", começo.
"Não, quer saber? Dane-se você!", ela rebate, pegando as coisas dela. "Eu vou para casa. Mas não se preocupa, Damien. Eu vou terminar a apresentação idiota por nós dois, porque algumas pessoas levam as coisas a sério."
Com isso, ela sai furiosa. Eu encaro o restante da carta, com o coração martelando no peito. Pulo as partes sobre os pais dela e leio as frases finais:
Amo você, Elise. Eu sei que sua situação não é fácil, mas talvez eu possa ajudar. Você poderia morar comigo. Nós nos conhecemos desde crianças e, mesmo que você não sinta nada por mim, eu gostaria de ajudar a colocar um sorriso de volta no seu rosto. Adoraria ter uma resposta sua. Lucas.
Engulo em seco. Aquele baixinho é genuinamente uma boa pessoa, provavelmente melhor do que eu. O Lucas se importa com a Elise, mas... por que ela nunca me contou sobre os pais? Eu não sou tão inacessível assim, certo?
