Capítulo 3

Três dias haviam se passado.

Toda a atmosfera do acampamento tinha mudado. Os homens de Lucas estavam fincados como estacas de aço em cada posição-chave — entrada do depósito, suportes de armas, encanamentos de água, sala do gerador. Não falavam; apenas ficavam ali. Mas todo morador do acampamento que passava era obrigado a dar a volta neles, como se estivesse evitando algo imundo.

Eu estava sentado na abertura de ventilação do segundo andar da oficina, observando o espetáculo lá embaixo pelas câmeras de vigilância.

A hora da refeição tinha chegado.

Daisy segurava uma tigela de ferro quebrada, no fim da fila. Na frente dela estava Noah, ainda se recuperando dos ferimentos, com um braço pendurado numa tipóia e o rosto pálido como papel.

O braço direito de Lucas — um careca chamado Marcus — estava atrás da mesa de distribuição de comida. Amontoados à sua frente havia carne enlatada, pão branco e frutas frescas, cujo aroma se espalhava por metade do acampamento.

Quando chegou a vez de Daisy, Marcus nem olhou para ela; com indiferença, jogou para ela um biscoito duro e mofado.

— Só isso? — Daisy segurou o biscoito com força o bastante para matar alguém com aquilo, a voz tremendo um pouco. — Ontem ainda tinha sopa.

Marcus ergueu o olhar, um sorriso de desprezo frio curvando os lábios:

— Sopa? Você quer sopa?

— Eu... eu não quis dizer isso. — Daisy acenou com as mãos depressa. — Eu só achei que todo mundo devia ser tratado igual...

— Devia o quê? — Marcus se levantou, olhando de cima para ela. — Dividir tudo por igual? Mocinha, os zumbis comeram seu cérebro?

Ele apontou para os integrantes da gangue de motoqueiros ali perto, devorando carne:

— Tá vendo eles? Eles patrulham fora do acampamento com armas todos os dias, prontos pra serem mordidos por zumbis a qualquer momento. E você? Que contribuição deu pra segurança do acampamento?

Daisy ficou sem palavras.

Marcus continuou:

— O chefe Lucas anunciou o novo sistema de distribuição: racionamento em que manda quem é mais forte. Quem é capaz de proteger o acampamento come carne; quem não tem capacidade come biscoito. Justo, não é?

Outras pessoas na fila começaram a cochichar:

— Isso... isso não tá certo, né?

— Antes não era assim.

— Como eles podem discriminar desse jeito?

O olhar de Marcus varreu todos eles na hora, e aquelas pessoas se calaram imediatamente, de cabeça baixa, sem ousar dizer mais nada.

Daisy apertou o biscoito mofado, os olhos ficando vermelhos:

— Mas... mas nós salvamos vocês. Se não fosse por nós, vocês teriam sido mortos pelos zumbis há muito tempo...

— Salvou a gente? — Marcus caiu na gargalhada. — Mocinha, você entendeu errado. Quem salvou a gente foi aquele garoto chamado Noah — o que isso tem a ver com você?

Ele se inclinou para perto de Daisy, baixando a voz: "E daí se você nos salvou? Nós nos lembramos da graça de termos sido salvos, mas ninguém come de graça. Isto é o apocalipse, não uma instituição de caridade."

Daisy tremia de raiva: "Como você pode ser assim? Somos todos seres humanos! Deveríamos ajudar uns aos outros e enfrentar as dificuldades juntos!"

"Ajudar uns aos outros?" Marcus agiu como se tivesse ouvido a maior piada do mundo. "Tudo bem, então em que você pode nos ajudar? Sabe atirar? Sabe consertar veículos? Sabe matar zumbis?"

Daisy ficou completamente atordoada.

"Não sabe fazer nada, mas quer comida e abrigo de graça?" Marcus balançou a cabeça. "Garotinha, acorda. Este mundo já não é mais o que você imagina."

Acendi um cigarro perto da saída de ventilação e continuei assistindo ao espetáculo.

Daisy levou o biscoito para um canto, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Noah arrastou a perna ferida até ela e dividiu metade do biscoito com ela.

"Daisy, não fica triste." Noah a consolou com gentileza. "Eles provavelmente só estão sob pressão demais. Quando a situação lá fora se estabilizar, as coisas vão melhorar."

"Mas, Noah, eles mudaram." Daisy chorou. "Antes, eram tão gratos a nós, mas agora..."

"Eles ainda são gratos, só estão demonstrando isso de outro jeito." Noah continuou com sua própria lavagem cerebral. "Afinal, este é o apocalipse — todo mundo está tenso. Precisamos entendê-los."

Entendê-los?

Quase me engasguei com a fumaça.

Nesse momento, outros moradores do acampamento se reuniram ao redor. Tom se apoiou na muleta, o rosto sombrio:

"Daisy, acho que nossa decisão inicial... pode ter sido um pouco precipitada."

Martha também assentiu: "Sim, olha só o que aconteceu agora — não conseguimos nem pegar as nossas próprias coisas."

"Eles trancaram o depósito direitinho — nem deixam a gente tocar nos nossos próprios itens guardados."

"Que tipo de hóspedes são esses? São bandidos, isso sim!"

Ao ouvir aquelas reclamações, o rosto de Daisy foi ficando cada vez mais feio. Ela olhou ao redor e percebeu que havia reprovação nos olhos de todos.

"Co... como vocês podem dizer uma coisa dessas?" A voz de Daisy falhou. "Eles só querem nos proteger! E nós os salvamos — eles vão se lembrar dessa bondade!"

"Lembrar?" Tom sorriu amargamente. "Se lembram, então por que estão nos deixando passar fome?"

"Isso mesmo, que tipo de bondade é essa?" Martha também não conseguiu se conter. "Eu nem consigo pegar meu remédio no depósito, e minha doença antiga voltou a atacar!"

Cada vez mais pessoas começaram a reclamar, suas vozes ficando mais altas. Daisy estava no centro da multidão como um cordeiro cercado por lobos.

"Chega!" Ela explodiu de repente. "Como vocês podem pensar assim? Fizemos a coisa certa! Salvar pessoas é salvar pessoas — não deveríamos esperar recompensa!"

Com isso, ela se virou e caminhou em direção ao escritório temporário de Lucas.

Eu rapidamente mudei a vigilância para aquele lado — o clímax desse drama estava chegando.

Lucas estava sentado numa luxuosa cadeira de couro “emprestada” dos moradores do acampamento, com cigarros e bebidas de primeira linha, tirados do depósito, espalhados diante dele. Ao ver Daisy entrar, ele imediatamente assumiu aquele sorriso gentil.

— Senhorita Daisy, o que a traz aqui?

Daisy respirou fundo, juntando coragem:

— Senhor Lucas, eu queria conversar com o senhor sobre a questão da distribuição de comida.

— Ah? Qual é o problema? — Lucas fingiu confusão.

— Eu acho que o sistema de distribuição atual não é muito justo. — Daisy tentou fazer a voz soar objetiva e racional. — Todos nós somos seres humanos com direito de sobreviver. A gente deveria tratar todo mundo de forma igual, não decidir quem come com base na força.

Lucas assentiu, com uma expressão séria:

— Você tem um bom argumento. Igualdade é, de fato, importante.

Os olhos de Daisy se iluminaram:

— Isso! Eu sabia que o senhor ia entender! Nós somos pessoas civilizadas, instruídas, deveríamos usar amor e ajuda mútua para—

— Mas — Lucas mudou de tom de repente —, senhorita, o que você acha que igualdade significa?

Daisy ficou sem reação:

— Significa… que todo mundo é igual.

— Igual? — Lucas caiu na gargalhada. — Senhorita, você acha que é igual aos meus homens? Eles arriscam a vida patrulhando todos os dias… e você? O que fez pela segurança do acampamento?

— Eu… eu salvei o senhor!

— Isso foi antes. — O sorriso de Lucas foi desaparecendo aos poucos. — O que você consegue fazer agora? Sabe atirar? Matar zumbis? Você não consegue nem descascar uma batata… por que deveria comer a mesma comida que os guerreiros?

Daisy ficou sem palavras.

Lucas se levantou e começou a andar devagar na direção dela:

— Senhorita, isso é o apocalipse, não o seu mundinho de conto de fadas. Quer comer bem? Troque suas habilidades por isso. Não tem habilidades? Então seja honesta e roa seus biscoitos.

— Mas… mas isso não está certo… — a voz de Daisy foi ficando menor.

Nesse momento, Marcus entrou. O olhar dele percorreu o corpo de Daisy de cima a baixo, com um brilho obsceno nos olhos.

— Chefe, e se a gente der uma chance pra essa mocinha? — Marcus lambeu os lábios, estendendo os dedos sujos para beliscar de leve o queixo de Daisy. — Já que ela quer tanto contribuir com o time, acho que ela ainda tem alguma utilidade.

Os dedos dele deslizaram lentamente para baixo, e a voz ficou pegajosa:

— Tipo… fazer companhia pros irmãos à noite, pra um papinho. Isso também conta como contribuição pra harmonia do acampamento.

O rosto de Daisy ficou imediatamente pálido como um cadáver. Ela tentou recuar desesperadamente, mas a mão de Marcus só apertou mais.

— E aí, boneca? — o sorriso de Marcus ficou ainda mais nojento. — Isso é melhor do que roer biscoito mofado, não é? E a gente vai ser bem delicado…

"Não! Me solta!" Daisy explodiu de repente, empurrando Marcus com força e cambaleando para fora do escritório.

A risada de Marcus ecoou atrás dela: "Não se apresse tanto em recusar, belezinha! Pense bem! Depois de passar uns dias com fome, você vai entender o que a realidade significa!"

Eu observava Daisy fugir desesperada pela câmera de vigilância, soltando a fumaça devagar.

A surra da realidade mal tinha começado.

Daisy correu de volta para a tenda, abraçou os joelhos e se encolheu num canto, tremendo. Noah mancou atrás dela e, ao ver o estado em que ela estava, explodiu de raiva.

"O que eles fizeram com você?"

"Nada... nada." Daisy enxugou as lágrimas. "Noah, a gente fez alguma coisa errada?"

Noah ficou em silêncio por um tempo, então se sentou ao lado dela. "Daisy, eles só estão sob pressão demais. Assim que a onda de zumbis passar, assim que estiver mais seguro lá fora, eles vão voltar ao normal."

"Sério?"

"Sério." Noah apertou a mão dela. "O que a gente fez foi certo. Salvar pessoas nunca é errado. Só... só leva tempo."

Desliguei a vigilância, recostando na cadeira.

Ainda se consolando. Ainda se enganando.

Seus idiotas, vocês acham que isso é pressão?

Isso ainda não é nada.

O verdadeiro espetáculo ainda está por vir.

Nesse instante, uma comoção se ergueu no acampamento. Reabri a vigilância depressa.

Vários membros da gangue de motociclistas revistavam os pertences pessoais dos moradores do acampamento, revirando camas, quebrando guarda-roupas, remexendo em tudo como bandidos.

"Isso é meu!" Um velho agarrava uma caixinha de ferro. "Isso é uma lembrança que minha esposa deixou pra mim!"

"Lembrança?" Um dos membros da gangue chutou o velho para longe e arrancou a caixa de suas mãos, abrindo-a para revelar fotos amareladas e um pequeno anel de ouro. "Tem ouro também? Velho, você escondeu bem!"

"Por favor, isso é uma relíquia da minha esposa..."

"Relíquia?" O homem colocou o anel no próprio dedo. "Agora é meu. No apocalipse, só os vivos merecem ter as coisas."

Cenas parecidas se repetiam em todos os cantos do acampamento. Os moradores assistiam, impotentes, seus pertences sendo saqueados, sem ousar resistir.

Porque do outro lado havia armas.

Eu assisti a tudo, e o canto da minha boca foi se erguendo devagar.

A crise de comida era só o começo. Quando os apetites gananciosos não pudessem ser satisfeitos, a primeira gota de sangue logo seria derramada.

E Daisy e os outros ainda estavam lá, acreditando em "pressão demais", em "vai melhorar depois que a onda de zumbis passar".

Tolos.

Joguei fora a ponta do cigarro e acendi outro.

Que a tempestade rugisse ainda mais forte.

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