Capítulo 2

No dia seguinte, Eduardo saiu cedo. Disse que ia ter um almoço com investidor e que talvez voltasse tarde.

Luana ficou sozinha no apartamento que ela limpava, organizava e enchia de comida sem nunca ter visto o boleto do condomínio. Sentou na beira da cama com o próprio celular na mão e tentou, pela primeira vez, baixar o aplicativo do banco e entrar na conta conjunta com o CPF dela.

Pediu senha. Ela não tinha senha. Tentou criar uma — caiu numa tela que dizia que era preciso a confirmação do titular principal por mensagem. O titular principal era Eduardo. A confirmação ia chegar no celular dele.

Ela desistiu antes de mandar.

Ficou irritada consigo mesma pela irritação. Que mulher casada havia sete anos não conseguia abrir a própria conta? A vergonha veio antes da raiva, e era a vergonha que doía mais — a percepção exata de que, em algum momento daqueles sete anos, ela tinha entregado uma chave e nunca tinha pedido de volta.

Ficou um tempo sentada ali, com o celular morno na mão, encarando a parede do quarto onde, anos antes, ela e Eduardo tinham discutido a cor da tinta por uma semana inteira como se fosse a decisão mais importante do mundo. Que ingenuidade. Tinham brigado por cor de parede e ela nunca tinha brigado por uma senha de banco. Tinha defendido com unhas e dentes o direito de escolher o tom do bege e tinha entregue, de mão beijada, o direito de saber quanto a família ganhava e gastava. As mulheres da geração da mãe dela diziam que o problema da nova geração era largar o lar; Luana começava a desconfiar que o problema dela tinha sido o oposto — ter se entregado tanto ao lar que esqueceu de continuar sendo uma pessoa de carne, conta e nome próprios dentro dele.

Ligou para a melhor amiga, Patrícia, que trabalhava num escritório de contabilidade.

— Pati, deixa eu te perguntar uma coisa de gente leiga. Numa conta conjunta, os dois não têm o mesmo acesso?

— Depende de como foi aberta — Patrícia disse. — Tem conta conjunta solidária, que qualquer um movimenta sozinho, e tem a que é "e", que precisa dos dois pra tudo. Por que, amiga? Tá tudo bem?

— Tá. — Luana ouviu a própria voz sair firme e ficou surpresa com ela. — Tô só organizando umas coisas pro casamento da minha prima. Burocracia.

Desligou e ficou olhando a parede.

A questão não era nem o dinheiro. A questão era que ela tinha vivido sete anos achando que estava num barco com outra pessoa, remando juntos, e de repente percebia que só tinha o remo. O barco era dele. O barco sempre tinha sido dele, e ela tinha sido a pessoa que enchia o barco de mantimentos sem nunca poder olhar para onde ele estava indo.

Naquela noite Eduardo voltou cheiroso de mais. Perfume bom, dos que ela não tinha comprado. Ela reparou e não disse nada. Reparar e não dizer estava virando a profissão nova dela.

Antes de dormir, deitada de costas para ele no escuro, Luana fez uma conta diferente da que tinha feito a vida inteira. Não era de quanto faltava de sal. Era de quanto ela tinha de seu, de verdade, no mundo, fora daquela casa.

Tinha o carro, que estava no nome dele.

Tinha as joias do casamento, que eram poucas.

Tinha duzentos e poucos reais numa conta velha do tempo do cartório, que ela mantinha aberta por preguiça de fechar.

E tinha as mãos.

Ela olhou para o teto escuro e prometeu a si mesma uma coisa só: que ia descobrir o que tinha naquele barco. Doesse o que doesse.

Ela não sabia ainda que o barco estava furado havia muito tempo. E que o nome dela estava escrito no casco.


Capítulo Anterior
Próximo Capítulo