Capítulo 3

A chance veio num sábado.

Eduardo foi ao banheiro e deixou o celular destravado em cima da mesa da sala, ao lado de uma xícara de café. Luana estava passando com um cesto de roupa. Parou.

Foi a coisa mais difícil que ela já tinha feito — mais difícil que largar o emprego, mais difícil que cuidar do pai dele doente por dois meses sem que ninguém agradecesse. Pegar aquele celular era admitir, com as próprias mãos, que ela já não confiava no homem com quem dormia.

Ela pegou.

Abriu o aplicativo do banco, que estava logado. E foi direto para o extrato da conta conjunta — a conta que ela abastecia com a vida e nunca tinha visto.

O que ela leu não fazia sentido na primeira passada. Fazia na segunda.

Transferências por Pix. Sempre para o mesmo destinatário. V. Andrade. Quatrocentos reais aqui, oitocentos ali, mil e duzentos numa sexta-feira. Ela rolou para cima e as transferências continuavam, mês após mês, recuando no tempo como degraus descendo para um porão. Contou com o dedo, rápido, o coração batendo naquele jeito errado de novo. Mais de cinquenta. Quase sessenta vezes. Em seis meses.

Sessenta vezes ela tinha pedido dinheiro para a feira e ele tinha resmungado que o mês estava apertado.

Ela rolou mais para cima, com o coração martelando, e o padrão era sempre o mesmo, mês após mês: as transferências para V. Andrade caíam às sextas e aos sábados, sempre à noite, sempre em valores redondos. Quatrocentos. Oitocentos. Mil. Restaurante. Hotel. Presente. Não era preciso ser detetive — bastava ser mulher, bastava ter sustentado uma casa e ouvido "o mês tá apertado" enquanto fazia milagre com a feira. Cada uma daquelas transferências era uma sexta-feira em que Luana tinha ficado em casa, sozinha, esquentando jantar para um homem que dizia estar em reunião. Cada uma era uma noite da vida dela paga para outra mulher.

A água do banheiro continuava correndo. Luana fotografou a tela com o próprio celular, com as mãos firmes que a assustavam — porque ela esperava tremer, esperava chorar ali, esperava o desmoronamento, e em vez disso veio uma frieza limpa, de profissional, a mesma frieza com que ela um dia organizava papéis no cartório. Rolou o extrato de volta para onde estava, conferiu que a tela ficou idêntica ao que ele tinha deixado, e pôs o celular dele exatamente na marca de umidade que a xícara tinha deixado na mesa, no mesmo ângulo, milimétrico. Se ele fosse desconfiar de alguma coisa, não seria daquele celular.

Pegou o cesto de roupa e foi para a área de serviço.

Estendeu cada peça no varal com cuidado, alisando as rugas com a palma da mão, e foi só quando pendurou a última camisa dele — branca, com cheiro daquele perfume que ela não tinha comprado — que ela percebeu que estava chorando. Sem som. Só água escorrendo, como uma torneira que alguém esqueceu meio aberta.

Quem era V. Andrade ela ia descobrir depois. Naquele instante o nome menos importava do que a conta: sessenta transferências, milhares de reais, durante meses, tirados de uma conta que ela ajudava a encher e da qual ele dizia, toda vez, que o mês estava apertado.

Ela não era traída só no amor. Era traída na matemática. E disso, ela ainda não sabia, a matemática ia ficar muito, muito pior.

Luana lavou o rosto na pia da área de serviço. Voltou para a sala com o sorriso de sempre. Eduardo já estava no sofá, celular na mão.

— Vou começar a procurar um trabalho — ela disse, casual, dobrando um pano. — Meio período. Tô com tempo sobrando.

Ele nem levantou os olhos.

— Pra quê? A gente não precisa. Cuida da casa, que tá ótimo.

— É — Luana disse. — Tá ótimo.

E sorriu, porque agora ela tinha um motivo de verdade para sorrir: pela primeira vez em sete anos, ela estava mentindo para ele, e ele não fazia a menor ideia.


Capítulo Anterior
Próximo Capítulo