Capítulo 4
V. Andrade tinha nome inteiro: Vitória. E tinha rosto, que Luana encontrou em três cliques — uma moça bonita, mais nova, que postava fotos em restaurantes que Eduardo dizia não poder pagar.
Mas Luana nem teve tempo de doer direito por causa da Vitória. Porque numa terça-feira de manhã, enquanto Eduardo estava num almoço de negócios que ela já não acreditava que existisse, a campainha tocou.
Era um homem de pasta na mão e um papel impresso.
— Bom dia. Procuro a senhora Luana Ferreira de Souza.
— Sou eu.
— A senhora é avalista de um contrato de empréstimo em nome do senhor Eduardo Martins. Estou aqui pra tratar da inadimplência.
Luana riu. Foi uma risada de verdade, de quem não entendeu.
— O senhor deve estar enganado. Eu não sou avalista de nada. Eu nem trabalho.
O homem virou a pasta, tirou o papel, e apontou para uma linha. Para uma assinatura.
A assinatura era dela.
Luana conhecia a própria letra como conhecia as próprias mãos. Era ela. Era a assinatura que ela tinha posto, lembrava agora com um frio subindo pela espinha, num maço de papéis que Eduardo tinha trazido fazia uns dois anos, dizendo que era refinanciamento do apartamento, "assina aqui, amor, aqui e aqui, depois eu te explico". E ela tinha assinado. Sem ler. Porque sete anos pesam, e a gente assina o que a pessoa pede quando confia.
— Quanto — ela conseguiu dizer.
— Com os juros acumulados, atualizado pra hoje — o homem consultou o papel —, duzentos e quarenta mil reais.
O número entrou nela como água gelada. Duzentos e quarenta mil. Ela não conseguia nem imaginar aquela quantia. Era uma vida. Eram dez vidas dela. Era mais dinheiro do que ela tinha visto junto em toda a existência — mais do que o apartamento, mais do que o carro, uma montanha de zeros que não tinha como, não tinha de onde, não tinha jeito.
E o pior não era o tamanho. O pior era o nome. Era a assinatura dela, posta com a própria mão, num dia qualquer de dois anos atrás, entre uma xícara de café e o jantar no fogo, porque o homem que ela amava tinha pedido. "Assina aqui, amor, é só refinanciamento, depois eu te explico." Ela tinha assinado sem ler. Tinha assinado por amor, ou pelo que ela achava que era amor — por aquela confiança preguiçosa de quem acha que dois remam o mesmo barco. E enquanto ela assinava, sem ler, o homem já sabia que estava amarrando o pescoço dela na corda da própria queda. Já estava transferindo dinheiro para a Vitória. Já tinha decidido, em algum canto frio dele, que se a coisa toda afundasse, ela afundaria junto, segurando uma assinatura que nem sabia que tinha dado.
— Tem um prazo — o homem continuou, não sem alguma gentileza, como quem já tinha entregado notícias dessas muitas vezes. — A senhora e o senhor Eduardo respondem solidariamente. Qualquer um dos dois. Mas como avalista, a senhora responde com o que tiver no nome. Recomendo procurar um advogado.
Ele deixou um cartão. Luana fechou a porta e ficou parada no corredor do prédio, no silêncio, com o cartão na mão.
Sessenta transferências para outra mulher. E uma dívida de duzentos e quarenta mil reais com o nome dela embaixo.
Eduardo não tinha só traído. Eduardo tinha torrado o dinheiro com a Vitória, afundado os negócios, e usado a assinatura dela — a assinatura da mulher que cuidava da casa dele — como rede de segurança para a queda.
Ela entrou de novo. Sentou na mesa onde tinha jantado mil vezes. E ficou olhando o cartão do cobrador ao lado das amostras de tecido do que um dia tinha sido a casa dela.
Eduardo chegou às oito. Beijou a testa dela.
— Que cara é essa? — perguntou. — Tá doente?
Luana olhou para ele por um tempo longo.
— Tô — ela disse. — Mas vai passar.
E aquela foi a última noite que ela dormiu naquela casa.
