
A Mulher que Viu Demais
Luna Vasconcelos · Concluído · 11.6k Palavras
Introdução
Foi quando vi o rosto dele — o mesmo rosto que o jornal estampava como desaparecido havia três semanas. E ele me viu ver.
Não me mataram. Me trancaram. E ninguém me explica por quê.
Mas eu sei observar. Sei guardar cada nome, cada porta, cada mentira. E cada dia aqui dentro aprendo mais uma coisa que pode me matar — ou me tirar viva.
Eles acham que sou só a garota que viu demais. Vão descobrir o que eu faço com tudo o que vi.
Capítulo 1
Era só uma entrega. A porta estava aberta, e eu entrei.
Foi quando vi o rosto dele — o mesmo rosto que o jornal estampava como desaparecido havia três semanas. E ele me viu ver.
Não me mataram. Me trancaram. E ninguém me explica por quê.
Mas eu sei observar. Sei guardar cada nome, cada porta, cada mentira. E cada dia aqui dentro aprendo mais uma coisa que pode me matar — ou me tirar viva.
Eles acham que sou só a garota que viu demais. Vão descobrir o que eu faço com tudo o que vi.
O endereço estava errado, e foi esse o problema.
Júlia conferiu o aplicativo pela terceira vez, parada no portão de ferro. A entrega marcava número 408 da Rua das Acácias, mas a numeração do condomínio pulava do 400 para o 420, como se a casa do meio tivesse decidido não existir. Onze e quarenta da noite, a última corrida do turno, e o cliente não atendia o telefone. Ela tinha duas opções: cancelar e perder a taxa, ou achar a porta certa e bater.
Júlia precisava da taxa.
O portão lateral estava encostado. Não aberto. Encostado, do jeito que alguém deixa quando vai voltar em um minuto. Ela empurrou com o ombro, a sacola de comida quente pendurada no braço, e atravessou um jardim grande demais para uma casa que fingia não estar ali. Havia carros na garagem. Três, quatro, todos pretos, todos novos. Gente com dinheiro come tarde, ela pensou. Gente com dinheiro deixa o portão aberto porque nunca precisou ter medo.
A porta da frente também estava entreaberta.
— Boa noite? — chamou Júlia, a voz menor do que ela queria. — Entrega.
Ninguém respondeu. Mas havia vozes lá dentro, abafadas, vindo de algum cômodo nos fundos. Ela deu um passo no hall, depois outro. O chão era de mármore claro e os sapatos dela faziam barulho, então ela parou, tirou o tênis, e seguiu de meia. Foi um gesto idiota, ela perceberia depois. Tirar o sapato para não incomodar as pessoas que iam querer matá-la.
O corredor levava a uma sala iluminada. Foi de lá que veio a frase que congelou Júlia no lugar:
— O cara do jornal continua falando. Isso é problema seu, não meu.
Ela não devia ter olhado. Devia ter largado a comida no chão e corrido. Mas o corpo humano é curioso antes de ser inteligente, e Júlia olhou.
Havia cinco homens em volta de uma mesa. Quatro de pé. Um sentado, com as mãos amarradas atrás da cadeira, o rosto inchado de um lado. E Júlia conhecia aquele rosto. Tinha visto a foto dele dividir a tela do celular dela durante uma semana inteira, entre vídeos de receita e propaganda. Desaparecido. Recompensa. Última vez visto saindo do trabalho. O empresário que sumira fazia três semanas e que a cidade inteira já tinha decidido que estava morto.
Não estava morto. Estava ali, naquela cadeira, vivo, olhando para ela com olhos que pediam socorro e ao mesmo tempo diziam fuja.
E então o homem mais alto da sala virou a cabeça e viu Júlia ver.
O silêncio durou talvez dois segundos. Pareceu mais longo.
— Eu trouxe a comida errada — disse Júlia, e a própria frase soou ridícula. — Desculpa. Casa errada. Eu vou…
— Não vai não — disse o homem alto.
Ele não levantou a voz. Foi isso que assustou Júlia mais do que qualquer grito: o homem falou com ela do jeito que se fala com uma encomenda que chegou na hora errada. Sem ódio. Sem pressa. Apenas um cálculo acontecendo atrás daqueles olhos escuros, e ela do lado errado da conta.
Dois dos homens se moveram em direção a ela. Júlia largou a sacola. O molho se espalhou pelo mármore, vermelho, e por um instante doente ela achou que fosse outra coisa. Ela tentou correr. Não chegou à porta. Uma mão fechou no braço dela, dura como ferramenta, e a girou de volta para a sala.
— Solta — ela disse. — Eu não vi nada. Eu juro que não vi nada.
— Todo mundo que não viu nada diz exatamente isso — respondeu o homem alto.
Ele se aproximou. De perto era mais novo do que ela imaginara, quarenta no máximo, com um rosto que teria sido bonito se não estivesse tão vazio. Ele olhou para Júlia como quem lê um documento, de cima a baixo, e ela sentiu o impulso animal de cobrir o pescoço com as mãos.
— Como você se chama?
Ela quase mentiu. Depois pensou na sacola, no aplicativo, no nome dela registrado em três sistemas diferentes naquele exato endereço, e entendeu que mentir era pior.
— Júlia.
— Júlia o quê?
— Menezes.
— E você entrega comida, Júlia Menezes.
— Por favor — ela disse. — Eu tenho uma colega de quarto. Ela sabe que eu vim trabalhar. Se eu não voltar…
Foi o erro. Ela percebeu na hora. Um dos homens menores, careca, pescoço grosso, olhos de quem já tinha feito aquilo antes, deu um passo à frente e falou para o homem alto, não para ela:
— Leonardo. A gente não tem tempo pra isso. Resolve e a gente continua.
Leonardo. Ela guardou o nome sem querer. Foi a primeira coisa que guardou.
O homem alto, Leonardo, não respondeu na hora. Ele continuou olhando para Júlia, e ela teve a sensação nítida e horrível de estar sendo somada e subtraída, transformada em um número que ainda não tinha sinal. Vivo ou morto. Útil ou descartável.
— Viktor — disse Leonardo, finalmente, sem tirar os olhos dela. — Leva ela pro quarto dos fundos. Tranca.
O careca parou.
— Você tá brincando.
— Tranca — repetiu Leonardo. — E não encosta nela.
Houve uma troca de olhares entre os dois homens que Júlia não entendeu, mas arquivou. Tudo, a partir daquele segundo, ela começou a arquivar. Não por coragem. Por instinto, o mesmo instinto que faz a gente decorar a saída de incêndio de um lugar onde já está com medo.
Viktor a empurrou por um corredor lateral, longe da sala, até um quarto pequeno sem janela para a rua. Janela tinha, mas dava para um pátio interno murado, três andares de queda, sem nada para segurar. A porta era de madeira maciça com uma fechadura nova, dessas que se instala depois, quando a casa começa a guardar coisas que não devia.
Antes de fechar a porta, Viktor a encarou.
— Aproveita a noite — ele disse. — Você não passa da semana.
A porta bateu. A chave girou.
E Júlia Menezes, sentada no chão de um quarto que não era dela, numa casa que oficialmente não existia, fez a única coisa que sabia fazer quando o mundo desabava: começou a contar. As portas que tinha atravessado. Os carros na garagem. Os rostos. Os nomes. Leonardo. Viktor. O homem amarrado na cadeira. A quantia de passos do hall até ali.
Não tinha como fugir. Ela já sabia disso. Tinha checado a janela, a porta, a queda, em menos de um minuto, e a resposta era não, não, não.
Mas se ela não podia sair pela porta, ia ter que sair por outro lugar. E todo lugar, ela pensou, tem uma fresta. Só precisava encontrar a desta casa antes que a semana de Viktor acabasse.
Ela ainda não sabia por que Leonardo a mantivera viva.
Aquela, ela decidiu, seria a primeira coisa que ia descobrir.
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