Capítulo 1 1

Capítulo 1

Layla

...

Dizem que, há muito tempo, humanos e lobisomens viviam lado a lado, dependendo uns dos outros enquanto construíam laços fortes por meio do comércio e da cooperação entre seus reinos.

Mas a ganância humana — e as traições que vieram em seguida — foi, aos poucos, corroendo a confiança dos lobisomens. Com o tempo, essa ganância levou a uma tragédia devastadora, que desencadeou uma guerra brutal e tirou incontáveis vidas de lobisomens.

Depois disso, o sábio Rei Lycan usou uma magia antiga para apagar da humanidade toda lembrança da existência deles, permitindo que os lobisomens recuassem e vivessem isolados em um continente oculto, protegido por encantamentos poderosos.

Essa era a essência da história do livro que eu segurava nas mãos — o que encontrei no velho depósito atrás da casa da minha avó. Uma trágica história de amor entre uma humana e um lobisomem, unidos por um destino proibido.

Era o meu livro favorito.

Eu o tinha lido de novo e de novo, mesmo quando minhas mãos tremiam e meus olhos mal conseguiam focar.

Meu nome é Layla Luris.

Neste momento, estou deitada, fraca, numa cama de hospital. Meu rosto ficou dolorosamente fino, minha pele ganhou um tom azulado e pálido, e meu cabelo caiu tanto que quase não sobrou nada.

O médico me disse que não me resta muito tempo.

Cerca de um mês.

As lágrimas já não caem mais. Eu já aceitei meu destino. A única coisa que eu quero agora… é sair deste hospital e ver meu marido.

O homem com quem sou casada há dois anos.

O homem que eu amo desde muito jovem.

Aos vinte e oito, tudo o que eu quero é deixar com ele a melhor lembrança que eu puder.

— Sra. Luris, a senhora tem certeza disso?

A voz de Dorothy era suave. Ela era a empregada que eu tinha contratado recentemente para ajudar a cuidar de mim durante minha estadia no hospital.

Virei-me para ela e ofereci um sorriso fraco.

— Está tudo bem… eu sinto muita falta do meu marido. Quero surpreendê-lo. Ele deve estar ocupado, então… eu só quero fazê-lo feliz por um tempinho.

Sorri ao imaginar a expressão no rosto dele.

O único homem que eu amo.

Meu mundo inteiro.

— Muito bem, Sra. Luris — respondeu Dorothy, baixinho, abaixando a cabeça. Ela se posicionou atrás de mim e começou a empurrar minha cadeira de rodas.

Estou fraca demais agora. Nem sequer tenho forças para andar por muito tempo.

Enquanto as rodas seguiam adiante, eu via relances de mim mesma nos espelhos ao longo do corredor.

Eu mal reconhecia meu próprio reflexo.

Devagar, ergui a mão e toquei o rosto, ficando em silêncio.

E se… ele não me amar mais?

E se meu marido não me amar mais porque eu fiquei tão feia — tão magra, tão pálida?

Eu não sou tão bonita quanto antes.

Com certeza… os sentimentos dele mudariam por causa da minha aparência agora.

Esse pensamento me consumiu por um instante, apertando dolorosamente meu peito — mas eu logo balancei a cabeça.

Não.

Desmon Jones nunca deixaria de me amar.

Ele prometeu que me amaria para sempre… e eu me agarrei a essa promessa com tudo o que tenho.

Quando me dei conta, eu já estava sentada dentro do meu carro de luxo. Dorothy dirigia enquanto eu encarava, em silêncio, as ruas passando lá fora.

TUM. TUM. TUM.

Meu coração batia descontroladamente.

Fazia duas semanas desde a última vez que eu o vi. Eu tinha passado por várias cirurgias dolorosas e, agora, enquanto cerrava as mãos, me sentia uma menina de novo — inquieta, esperançosa e incapaz de esperar para ver o homem que eu amo.

Quando chegamos à casa, notei imediatamente o carro dele — o que eu tinha comprado para ele no aniversário do ano passado.

Isso significava que ele estava em casa, não no escritório.

Meus dedos se fecharam com mais força.

Duas semanas sem vê-lo, e meu coração já está disparando assim…

Deixei Dorothy conduzir minha cadeira de rodas enquanto entrávamos na minha mansão grandiosa.

Sim, eu venho de uma família rica.

A família Luris — dona da Luris Corp, uma empresa poderosa e renomada. Nunca me faltou nada na vida.

Tudo o que meu marido tem — o trabalho dele, o status dele — tudo veio de mim.

Mesmo assim, meu coração não se acalmava; havia algo diferente naquela casa.

Os empregados não estavam em lugar nenhum, embora devesse haver muitos por ali, mas isso não me incomodou. Toda a minha atenção estava voltada para um único lugar... o meu quarto.

O lugar onde Desmon e eu dormíamos juntos, onde compartilhamos inúmeras conversas.

— Dorothy, eu vou entrar sozinha. Você devia ir almoçar primeiro — eu disse, baixinho.

Esperei até os passos dela sumirem ao longe.

Então, reunindo toda a força que ainda me restava, me levantei devagar.

Eu não queria encarar meu marido numa cadeira de rodas.

Eu queria parecer… pelo menos um pouco bonita. Um pouco como a mulher que eu costumava ser.

Forcei um sorriso no rosto e toquei de leve as bochechas, na esperança de que, aos olhos dele, eu ainda parecesse bonita, mas no instante em que abri a porta do quarto... meu mundo inteiro pareceu congelar.

— Amor… mais forte… você vai me quebrar —

— Ah… que sem-vergonhice… fazer uma coisa tão selvagem na cama que você divide com a sua esposa…

A voz de uma mulher ecoou lá de dentro, ofegante e sem freios, como se estivesse completamente perdida em algo pecaminoso.

Meu coração parou.

Eu conhecia aquela voz.

Cassie.

Minha melhor amiga desde o ensino fundamental, em quem eu confiava mais do que em qualquer pessoa.

Toda a força escoou do meu corpo. Eu fiquei ali, paralisada, como se tivessem arrancado a minha alma.

Meu coração parecia que ia explodir.

— Não fala daquela mulher doente. Ela vai morrer logo mesmo. Quando ela se for, tudo o que ela tem vai ser meu.

— Só de olhar pra cara dela eu sinto nojo. Até ouvir o nome dela me dá vontade de vomitar. Tomara que ela morra rápido.

A voz do meu marido.

Cada palavra me cortou como uma lâmina.

Como isso podia ser?

Como isso é sequer possível?

Isso tem que ser um sonho.

Não é real.

Meu corpo tremia violentamente enquanto eu segurava a maçaneta com tanta força que meus dedos ficaram pálidos.

Eu não conseguia aceitar.

Eu me recusava a aceitar.

A onda de raiva e dor crescendo dentro do meu peito — tão intensa que parecia que eu ia me despedaçar — me fez empurrar a porta com toda a força que eu tinha, mesmo sem saber mais como chorar num momento como aquele.

— Ah!

O grito de Cassie ecoou enquanto ela estava completamente nua na minha cama, assustando Desmon, que virou a cabeça na direção da porta, em choque.

A fúria queimando dentro de mim amortecia a dor no meu corpo, transformando-a em nada além de uma sensação distante. Apesar do meu corpo frágil, do meu rosto pálido e da fraqueza ameaçando me derrubar a qualquer segundo, eu me forcei a avançar e alcancei o vaso de flores na mesa ao meu lado.

— Layla, por que você está aqui? Você não devia ficar no hospital o dia inteiro? — Desmon rosnou, vestindo às pressas o roupão.

Em nenhum momento ele tentou explicar o caso nojento que eu acabara de presenciar. Em vez disso, questionou por que eu não tinha ficado onde eu “pertencia” — como se eu devesse simplesmente apodrecer naquele hospital.

E quanto à Cassie...

Eu via a curva sutil de um sorriso nos lábios dela, como se estivesse esperando exatamente por aquele momento — para eu descobrir, para que ela finalmente pudesse tirar de mim esse homem inútil.

— Layla!

A voz de Desmon cortou o quarto enquanto eu cambaleava para a frente, algo selvagem e fora de controle tomando conta de mim, com o vaso preso na minha mão trêmula.

Eu não queria ouvir nada.

Sem desculpas.

Sem explicações.

Eu queria os dois mortos.

Os dois.

Meu olhar se fixou em Desmon, afiado e cheio de loucura, enquanto ele franziu a testa e se aproximou. E no instante em que ele ficou bem na minha frente...

Eu balancei o vaso, mas eu estava fraca demais. Ele segurou meu pulso com facilidade e arrancou o vaso da minha mão.

— Que porra você acha que está fazendo?! Como você ousa olhar pra mim desse jeito com esses olhos nojentos!

— Você já se viu? Você está horrível! Você fede a remédio!

— Por que você não morre logo naquele hospital, sua mulher patética?!

A voz dele era alta, descarada e absolutamente cruel.

Algo dentro de mim se quebrou de vez.

Eu já nem conseguia formar palavras direito. Tudo o que eu conseguia era gritar — e arranhar o rosto dele.

— Como você ousa! Como você ousa!

— Aaaa!

— Eu vou matar vocês dois!

— Aaaa!

Eu gritei até sentir que minha garganta ia se rasgar, até queimar como se estivesse sangrando por dentro. Mas Desmon, com o rosto arranhado e ardendo, perdeu a cabeça e então...

PÁ.

O vaso na mão dele desceu com força contra a minha cabeça.

A dor explodiu em mim.

Meu corpo desabou no chão e o sangue começou a jorrar na hora, se espalhando por baixo de mim.

Deitada ali, eu encarei o teto do meu quarto e, pela primeira vez... lágrimas caíram.

Sangue quente se acumulava ao redor da minha cabeça enquanto minha visão embaçava, indo e voltando, e eu mordi com força o lábio, tentando desesperadamente me agarrar ao pouco de consciência que ainda me restava.

Eu não quero morrer.

Eu me recuso a morrer.

Eu gritei com tudo o que tinha, o peito apertando como se fosse explodir — mas nenhum som saiu. Minha voz tinha sumido, engolida pela escuridão que se aproximava.

Minha visão escureceu ainda mais.

E a última coisa que eu vi...

foi o sorriso tênue no rosto de Desmon.

NÃO! EU NÃO QUERO MORRER!

DEIXA EU MATAR ELES!

NÃO!!

AAAAA!!!

Eu gritei, mas minha voz ainda não saía. Meus olhos ardiam, injetados e arregalados, como se fossem explodir — mas, no fim, a morte se mostrou mais forte do que a minha fúria… mais forte do que o meu ódio.

Naquele dia, eu fui morta pelo meu próprio marido.

O homem que tinha acabado de me trair com a minha melhor amiga.

“Ah!”

Arfei com força ao despertar num sobressalto; o peito se apertou dolorosamente quando me sentei e o segurei, lutando para respirar.

Meu coração disparava enlouquecido, como se tivesse esquecido como bater.

Por instinto, levei a mão à cabeça...

Não havia ferimento, nem sangue... Tudo estava… bem.

“Graças a Deus… foi só um sonho”, sussurrei, aliviada, soltando um longo suspiro, embora a dor ainda permanecesse viva na minha memória — o golpe esmagador, o sangue, o grito silencioso que nunca conseguiu escapar da minha garganta.

“Hã?”

Franzi a testa.

Aquilo não era o hospital, nem era o meu quarto... O cômodo ao meu redor era grandioso, mas carregava uma elegância antiga, cheio de entalhes intrincados e tons quentes e luminosos.

Devagar, virei para o lado e, ali, vi um espelho redondo emoldurado por desenhos delicados e ornamentados.

Meus olhos se arregalaram.

“Eu…”

O rosto que me encarava de volta... Era o meu, mas mais jovem, mais saudável e... bonito.

“Este é… o meu rosto de quando eu ainda era jovem… Meu cabelo… está grosso, comprido e ondulado de novo…”

“O que está acontecendo?”

O pânico me invadiu; meu coração martelava violentamente no peito quando saltei da cama... e pousei sem dor.

Sem fraqueza, sem tremor.

Parecia que eu tinha voltado a quando tinha dezenove anos.

Toc. Toc. Toc.

O som repentino me assustou. Eu ainda estava atordoada com o meu reflexo, com a empolgação e a confusão emboladas dentro de mim, quando uma voz veio do lado de fora da porta —

“Princesa Swan, o Alfa Hendry Gargan deseja vê-la.”

Por um instante, pareceu que o tempo parou.

Franzi a testa, ainda incapaz de processar o que estava acontecendo, e dei leves tapas nas bochechas.

“Eu ainda estou sonhando…?”, murmurei.

Mas então o medo se insinuou.

E se aquilo fosse mesmo um sonho?

E se eu já tivesse morrido… morta por Desmon?

Meu rosto empalideceu; meu corpo vacilou quando o pavor tomou conta de mim, meus joelhos quase cederam e, então...

BAM!

A porta explodiu para dentro com violência.

“LAYLA SWAN! Como você ousa punir a Nagia a noite inteira?! Eu juro que vou te matar por causa disso, Layla!”

“Sua humana ingrata!”

O homem que invadiu o quarto era desconhecido para mim.

Ele era bonito, mas os olhos estavam cheios de um ódio esmagador e de fúria.

Franzi levemente a testa, tentando entender tudo aquilo.

“Nagia… Layla Swan… Alfa Hendry Gargan… por que esses nomes parecem tão familiares…?”, sussurrei para mim mesma.

E então... caiu a ficha.

“Ah~!”

“Não me diga…”

“Eu… entrei no livro que eu estava lendo antes de morrer?”

“Hã?!”

As palavras escaparam antes que eu pudesse impedi-las, meus olhos se arregalando em choque.

Alfa Hendry Gargan — e a mulher ao lado dele, que parecia ter chorado, me encararam, surpresos.

Mas a fúria nos olhos dele não diminuiu.

...

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