
A Noiva Humana do Rei Lycan
Anak Kost · Concluído · 215.7k Palavras
Introdução
Layla acreditou ter entrado no mundo do último romance que leu depois de ser assassinada pelo próprio marido. Mas um segredo ainda maior a aguarda em um mundo governado por lobisomens, dragões e magia ancestral.
À medida que verdades ocultas começam a vir à tona, Layla percebe que nunca entrou em romance nenhum. Em vez disso, ela vem repetindo a mesma linha do tempo, uma e outra vez, por um único motivo — salvar alguém.
— Escravinha... — Ele inclinou levemente a cabeça, o olhar preso ao meu — o olhar mais perigoso que eu já tinha visto. — Você me odeia? — perguntou em voz baixa.
Meu corpo inteiro tremeu, mas, de algum jeito, minha boca se mexeu mais rápido do que meu cérebro.
— Sim. — A resposta escapou na hora. — Eu te odeio. — No instante em que as palavras saíram da minha boca, eu quis engoli-las de volta, mas já era tarde demais.
— Ah, é? — Um meio sorriso surgiu em seus lábios.
Meus olhos se arregalaram e, por um momento, eu realmente achei que estivesse imaginando coisas.
Mas não. O olhar dele continuou fixo no meu enquanto a mão se erguia e, com delicadeza, segurava meu rosto. Então, com os lábios a poucos centímetros dos meus, ele sussurrou:
— Bom, escravinha. — A voz dele era baixa e perigosamente suave. — Pelo menos o seu ódio me mantém dentro dos seus pensamentos.
Um arrepio desceu pela minha espinha.
— Me entretenha mais, minha escravinha. — Os olhos dele não saíram dos meus. — Me deixe ainda mais curioso. — A voz dele baixou ainda mais.
— Me negue.
— Me enfrente.
— Me odeie o quanto quiser.
Hmph!
Antes que eu pudesse sequer reagir, os lábios dele encontraram os meus de novo, e ele chupou meus lábios, me tratando de verdade como uma mulher barata com quem podia brincar sempre que bem entendesse.
Capítulo 1
Capítulo 1
Layla
As histórias antigas dizem que humanos e lobisomens um dia viveram como vizinhos, negociando através de fronteiras e construindo cidades juntos, aprendendo o suficiente da língua um do outro para se virar. Dois reinos mantidos de pé por algo que quase dava para chamar de confiança.
Então a ganância fez o que a ganância sempre faz, e a traição veio logo atrás. A guerra que se seguiu engoliu mais vidas de lobisomem do que alguém jamais conseguiu contar e, quando por fim se consumiu até virar cinza, o Rei Licano recorreu a uma magia antiga o bastante para desfazer a própria memória, apagando seu povo da história humana de forma tão completa que até os estudiosos se esqueceram de fazer perguntas. O que restou dos lobisomens se retirou para um continente que mapa nenhum jamais voltaria a mostrar, selado atrás de proteções que mão humana alguma conseguiria quebrar.
Essa era a forma da história no livro que eu segurava — um livro de bolso surrado que eu encontrara anos atrás, atrás de uma pilha de caixas no depósito da minha avó, aquele tipo de amor proibido entre uma mulher humana e um rei lobisomem que não deveria dar certo, mas que de algum jeito sempre dá nas páginas. A lombada tinha se partido em três lugares de tantas vezes que eu o abrira, e minhas mãos já não eram firmes o bastante para virar uma única página sem pegar duas de uma vez e perder o ponto. Mesmo assim, eu continuava lendo, apoiada em três travesseiros, porque ficar deitada fazia meus pulmões trabalharem mais do que eu podia me dar ao luxo.
Meu nome é Layla Luris.
O espelho em frente à minha cama de hospital tinha parado de ser gentil comigo semanas atrás. Meus ossos do rosto agora estavam perto demais da superfície, minha pele tinha a cor de algo que ficou tempo demais na água, e o pouco cabelo que me restava cabia dentro de uma mão fechada — com um pouco mais dele no travesseiro na maioria das manhãs do que havia na noite anterior.
O médico tinha me dado um número alguns dias antes — um mês, mais ou menos — com a mesma voz plana que usaria para me dizer que minha pressão estava um pouquinho alta. Eu não chorei quando ele disse. Eu tinha gastado as lágrimas que tinha em algum momento nos últimos meses, e o que ficou depois pareceu mais simples do que luto: eu queria ver meu marido de novo enquanto eu ainda parecesse comigo mesma o suficiente para isso importar.
Dois anos de casada, e apaixonada por ele desde os dezessete, jovem demais para entender o que aquela palavra acabaria me custando. Aos vinte e oito, tudo o que eu queria do tempo que me restava se resumia a uma boa tarde.
— Sra. Luris, a senhora tem certeza disso?
A voz de Dorothy saiu cuidadosa, do jeito que sempre saía comigo agora. Ela era minha enfermeira particular havia um tempo, tempo o bastante para eu parar de pensar nela como um arranjo temporário.
Ergui os olhos para ela e fiz minha boca trabalhar num sorriso.
— Estou bem, de verdade. Só estou com saudade dele. Quero ver o rosto dele quando abrir aquela porta e eu estiver simplesmente… ali. De pé, não presa numa cama de hospital.
Eu já conseguia imaginar: o meio segundo antes de ele me reconhecer, o jeito como os olhos dele sempre amoleciam logo depois.
— Como a senhora quiser, então — disse ela, e foi para trás da cadeira. As rodas começaram o zumbido familiar contra o piso de ladrilho.
Eu odiava aquela cadeira de um jeito específico, o tipo de ódio que você aprende a sentir por algo que antes era opcional. Dez passos não significavam nada para mim. Agora, no sexto, minha visão já começava a nadar nas bordas. Deixei que ela me empurrasse pelo corredor e observei uma estranha acompanhar meu ritmo na fileira de painéis espelhados ao longo da parede — sem olhar de verdade, apenas seguindo o contorno dela.
Minha mão encontrou minha própria bochecha sem que eu decidisse levá-la até lá.
E se este não for mais o rosto pelo qual ele se apaixonou?
Não a doença em si — nós já tínhamos conversado sobre coisas piores do que isso, lá atrás, quando nós dois ainda conseguíamos fingir que havia mais tempo do que realmente havia. O que me assustava era a aparência. Se o desejo sobrevive a um corpo mudando de forma sob as mãos de alguém. Se o “para sempre” algum dia tinha realmente levado em conta esta versão de mim.
A ideia se alojou sob minhas costelas até eu sacudi-la para fora com uma pequena e deliberada virada de cabeça. Não. Desmon Jones não abandona uma mulher por ficar doente. Ele me disse “para sempre” uma vez, em algum lugar que eu ainda conseguia visualizar com clareza, e ele quis dizer aquilo o suficiente para que eu ainda me lembrasse exatamente de como foi ouvir.
Quando voltei a perceber qualquer coisa, já estávamos no carro, Dorothy ao volante, a cidade passando em longas faixas cinza-douradas além da minha janela. Em algum momento, meus dedos tinham encontrado a barra da minha manga e não paravam de amassar o tecido entre eles.
A casa surgiu à vista, e eu vi o carro dele primeiro, atravessado na entrada do jeito que só ficava quando ele chegava depressa.
Ele estava em casa. Não no escritório.
Meus dedos se cravaram na costura do apoio de braço.
Duas semanas separados, e olha o estado em que eu estou.
Dorothy me conduziu pelas portas da frente de uma casa que nunca tinha parecido nada além de comum para mim, porque era nossa — porque o nome Luris tinha construído metade da ala por onde estávamos passando gerações antes de eu nascer. Tudo o que Desmon tinha, a placa na porta do escritório, o jeito como as pessoas se inclinavam um pouco quando ele falava em jantares, tinha chegado até ele através de mim. Eu nunca me importei em dar isso. Eu gostava de vê-lo vestir aquilo.
Mas o corredor estava quieto demais. Nenhum funcionário em sua ronda habitual, ninguém chamando uma saudação. Notei e deixei passar, porque minha atenção já tinha se estreitado até uma única porta no fim do corredor.
Nosso quarto, onde costumávamos adormecer ainda no meio de uma conversa.
— Dorothy, daqui eu me viro. Vai comer alguma coisa.
Esperei até os passos dela sumirem na curva do corredor, então me forcei a me erguer da cadeira. As mãos firmes nos apoios de braço. As pernas tremendo sob um peso que elas não sustentavam sozinhas havia semanas.
Eu não queria que ele me visse encolhida naquela cadeira, não por isso. Eu queria, só por uma tarde, parecer a mulher que esteve com ele no altar dois anos atrás.
Belisquei um pouco de cor nas bochechas, alisei o cabelo para trás e estendi a mão para a porta.
Eu a abri.
— Amor… mais forte… você vai me quebrar…
— Meu Deus, olha pra você. Na cama que você divide com a sua esposa. Você não tem vergonha na cara.
O chão inclinou meio centímetro sob meus pés antes que eu entendesse o motivo.
Eu conhecia aquela voz. Conhecia desde que tínhamos doze anos, dividindo um armário, contando uma à outra tudo o que importava.
Cassie.
Minha mão encontrou o batente. Era a única coisa que ainda me mantinha em pé.
— Não desperdiça saliva com uma mulher morrendo. Ela vai embora logo, e tudo o que ela tem passa pra mim no dia seguinte.
— Eu nem consigo mais olhar pra cara dela. Só de ouvir o nome dela me dá vontade de vomitar.
A voz de Desmon, tranquila, quase entediada, do jeito que você fala de uma tarefa que vem adiando.
Isso não é real. Acorda. Isso é um pesadelo e você vai acordar.
Meu aperto na maçaneta se fechou até os nós dos dedos ficarem brancos e continuarem assim.
Empurrei a porta para abri-la de vez.
— Ah!
Cassie se atrapalhou para puxar o lençol. A cabeça de Desmon virou num estalo para a porta; todo e qualquer vestígio de cor sumiu do rosto dele de uma vez.
Minha mão se fechou em torno do vaso sobre a mesinha lateral.
— Layla, que porra você está fazendo aqui? Você devia estar no hospital—
Ele já puxava o roupão para fechar, a voz presa em algum lugar entre pânico e acusação, como se eu fosse a errada ali.
Nem uma palavra de explicação. Só fúria por eu ter aparecido onde “não devia estar”, como se a cama do hospital fosse o meu lugar, morrendo em silêncio, convenientemente fora do caminho dele.
Cassie nem se dava ao trabalho de parecer arrependida. Um leve arco satisfeito se desenhava no canto da boca dela, como se estivesse esperando anos exatamente por aquele momento.
— Layla!
Eu não queria explicação. Não queria pedido de desculpas. Eu queria os dois fora dali.
Eu balancei o braço.
Ele pegou meu pulso sem nem se preparar e arrancou o vaso da minha mão como se não pesasse nada.
— Que porra é essa com você?! Não olha pra mim como se eu fosse o vilão aqui!
— Você se olhou ultimamente? Você fede a hospital. É nojento.
— Por que você não vai morrer lá de uma vez?
Alguma coisa no meu peito se partiu, limpa, ao meio. Eu fui no rosto dele com as unhas, gritando até não conseguir mais ouvir minha própria voz por causa do zumbido nos ouvidos.
— Como você ousa — como você ousa—
— Aaa—!
— Eu vou te matar. Vou matar vocês dois—
— Aaa—!
Eu gritei até a garganta parecer esfolada, e Desmon, com quatro linhas finas de vermelho já subindo numa das bochechas, perdeu o pouco de contenção que ainda tinha.
O vaso desceu.
Uma luz branca explodiu na minha visão. O chão veio me encontrar antes que eu entendesse que estava caindo. Um calor se espalhando sob a minha cabeça antes que eu entendesse o que era.
Fiquei ali, encarando o teto do quarto em que eu costumava adormecer toda noite por dois anos e, pela primeira vez em mais tempo do que eu conseguia lembrar, eu chorei — silenciosa, inútil, o sangue se acumulando quente contra o meu couro cabeludo enquanto o quarto borrava e voltava nas bordas. Mordi o lábio com força suficiente para sentir gosto de cobre, me agarrando ao fio de consciência que me restava por pura teimosia.
Eu não quero morrer. Não assim.
Abri a boca para gritar de novo. Nada saiu. Minha voz já tinha ido embora, engolida em algum lugar na escuridão que se fechava de todos os lados.
A última coisa que eu vi, antes de o teto desaparecer por completo, foi o rosto de Desmon.
Ele estava sorrindo.
NÃO. Me deixa ir até eles—
NÃO—
Minha boca continuou se mexendo. Nada saiu. Meus olhos permaneceram abertos, secos e ardendo, forçando contra uma escuridão que já tinha decidido como aquilo terminava.
A morte venceu. É mais forte do que a raiva. Mais forte, até, do que o amor — o que teria sido a parte mais surpreendente para mim, se eu ainda tivesse tempo de me surpreender.
Naquele dia, meu marido me matou. O mesmo homem que, uma hora antes, estava na cama com a minha melhor amiga.
— Ah—!
Acordei arfando, as duas mãos voando para o peito como se eu pudesse segurar meu próprio coração inteiro à força. Ele disparava de um jeito que não parecia possível sobreviver.
Minha mão foi instintivamente até o couro cabeludo.
Não havia nada ali. Nenhum ferimento. Nenhum sangue.
“Foi um sonho”, soltei, num sopro longo e trêmulo, embora a lembrança do golpe permanecesse perfeitamente intacta atrás do meu esterno — o peso exato dele, o silêncio exato onde meu grito deveria ter estado.
Então eu realmente olhei ao redor, e a confusão se aguçou até virar algo mais próximo de alarme.
Aquilo não era o hospital. Também não era o meu quarto.
O cômodo à minha volta se erguia em madeira escura entalhada e luz morna de lamparina, com padrões correndo pelas paredes que eu não reconhecia e, de algum modo, ainda assim pareciam algo que eu já tinha visto antes, em alguma outra vida que eu não conseguia localizar.
Um espelho estava de pé ao lado da cama, numa moldura redonda e ornamentada. Virei-me para ele devagar, do jeito que a gente se aproxima de algo que pode morder.
O rosto que me encarava roubou o pouco ar que eu ainda tinha.
Mais jovem. Cor viva nas bochechas. Cabelo escuro caindo em ondas que eu não tinha desde antes de fazer vinte anos.
“Esse é — esse é o meu rosto. De antes.” Meus dedos foram até a própria mandíbula, conferindo-a contra o reflexo como se o vidro pudesse estar mentindo. “Meu cabelo, ele tá—”
“O que está acontecendo comigo agora?”
Eu me joguei para fora da cama antes que o pânico conseguisse se organizar num pensamento completo, e caí bem — nenhuma dor subindo pelos joelhos, nenhuma mancha preta lotando minha visão. Minhas pernas sustentaram meu peso do jeito que não sustentavam havia meses. Foi como, de uma vez, voltar a ter dezenove anos.
Toc. Toc. Toc.
Congelei no meio da respiração.
“Princesa Swan, o Alfa Hendry Gargan solicita uma audiência.”
As palavras levaram uns bons três segundos para significarem qualquer coisa.
Dei tapinhas leves nas próprias bochechas, testando se eu estava acordada do jeito que se testa o gelo antes de confiar o peso nele.
“Eu estou sonhando agora? Isso é real?”
Então a outra possibilidade chegou, mais fria e muito menos bem-vinda do que a primeira.
E se eu realmente morri lá atrás? E se isso for só o que vem depois?
Meus joelhos amoleceram, e eu agarrei a borda da cama bem a tempo de me manter em pé.
Então—
BAM.
A porta foi escancarada com força suficiente para fazer o batente tremer nas dobradiças.
“LAYLA SWAN! Você deixou a Nagia amarrada e congelando a noite inteira, e acha que eu simplesmente vou deixar isso passar?! Eu juro pela própria Deusa da Lua, eu vou acabar com você por causa disso.”
“Você, desculpa ingrata e miserável de ser humano.”
Eu não reconheci o homem parado na entrada. Bonito de um jeito que piorava tudo, porque os olhos acima daquele rosto ardiam com um ódio específico demais, pessoal demais, para pertencer a um estranho.
Eu encarei de volta, tentando acompanhar o que quer que aquilo fosse.
“Nagia. Layla Swan. Alfa Hendry Gargan.” Os nomes saíram da minha própria boca antes que eu entendesse por que já pareciam algo que me pertencia. “Por que eu conheço esses—”
A ficha caiu de uma vez só, fria, descendo reto pelo meu peito.
“Ah.”
“Não. Não, não, não.”
“Eu caí dentro do livro? Aquele que eu estava lendo quando morri?”
“O que está acontecendo aqui?!”
As palavras escaparam de mim antes que eu pudesse impedir, e tanto o Alfa quanto a mulher chorando ao lado dele se viraram para me encarar como se eu tivesse dito algo numa língua que não tinha o menor direito de existir.
A fúria dele não vacilou nem por um instante.
Se alguma coisa, queimou ainda mais.
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