Capítulo 2 2
Capítulo 2
...
— Que tipo de espetáculo é esse agora, Layla?
Hendry encurtou a distância entre nós em três passadas, a fúria emanando dele como calor saindo do asfalto.
— Humanos como você me dão nojo. Eu sei exatamente o que é isso — você é obcecada por mim. É por isso que toda mulher que já chegou perto de mim fugiu em menos de um mês.
Ele parou perto o bastante para que eu tivesse de erguer o queixo para sustentar o olhar dele.
Bonito, isso eu admito. Alto, com um corpo que parecia esculpido, não nascido. Não é de se admirar que a garota cujo corpo eu estava usando tivesse perdido a cabeça por ele.
Nem eu conseguia discutir com aquele rosto.
— Mas escute bem, Layla. — O maxilar dele trabalhava, o ar saindo forte pelo nariz, como se ele estivesse segurando alguma coisa na marra. — Eu não tenho a menor intenção de ficar com você. Então, em vez de mandar você de volta para o seu pai em desgraça, você vai pedir desculpas à Nagia.
— Agora — disse ele, e a palavra saiu baixa o bastante para cortar.
Eu me virei para Nagia Hayys, que estava ali, se desfazendo em lágrimas, as mãos pequenas retorcidas juntas contra o peito.
Eu conhecia essa cena. Eu tinha lido aquilo uma dúzia de vezes, encolhida em algum canto com um livro de bolso cuja lombada já estava se desfazendo. No livro, Layla Swan tinha amarrado essa garota pelos pulsos e tornozelos e a deixado tremendo numa banheira de gelo até o amanhecer — punição por ter colocado veneno no chá da noite de Layla.
— Layla Swan, eu juro por tudo que eu mesmo vou cancelar este noivado se você não— — a voz de Hendry subiu, os olhos escurecendo, um rosnado atravessando cada palavra.
Eu o interrompi cruzando os braços e erguendo ainda mais o queixo.
Eu não era Layla Swan. Eu me recusava a ser ela — uma garota apaixonada, jogando a própria dignidade fora por um homem que olhava para ela como se fosse algo que ele tivesse raspado da bota.
Eu era Layla Luris.
E Layla Luris ia sobreviver a isso, encontrar um caminho de volta para casa e fazer Desmon e Cassie se arrependerem de ter nascido.
A lembrança daquele vaso descendo na minha cabeça ainda pulsava em algum lugar atrás dos meus olhos. Eu não ia engolir isso também.
— Você não precisa jurar nada — eu disse, com a voz plana e firme. — Eu mesma vou cancelar.
Eu vi a surpresa bater no rosto dele — o vinco entre as sobrancelhas, o lampejo de confusão que ele claramente não estava acostumado a sentir.
— Sou eu que estou acabando com isso, Hendry Gargan. E eu não tenho nada a pedir desculpas à sua bichinha de estimação.
Voltei meus olhos para Nagia e deixei que eles esfriassem.
— Ela envenenou o meu chá. — Mantive a voz controlada, mesmo quando o ar do cômodo virou gelo. — Você vai pagar por isso, Nagia. Você não precisava de veneno. Só precisava pedir.
Inclinei a cabeça, analisando-a.
— Se você quer tanto ele assim... fique com ele. Ele é seu.
Os soluços de Nagia subiram de tom quando ela se enfiou atrás de Hendry, como se eu tivesse levantado a mão contra ela.
Claro que ele a protegeria. Na história, Layla Swan deveria ter morrido ontem — o veneno já devia ter terminado o serviço.
Ela foi escrita para morrer nos primeiros capítulos. Esse era o sentido dela.
— Alfa Gargan, eu jamais... eu juro que jamais faria uma coisa dessas — Nagia soluçou, agarrada à manga dele. — A princesa Swan só está chateada porque o senhor reparou em mim. Por favor, não fique bravo com ela por minha causa. Eu mereço qualquer coisa que ela queira fazer comigo.
Deixei meus lábios se curvarem, só um pouco.
Perfeitamente feito. Ela sabia exatamente quais cordas puxar — e com que delicadeza.
Eu o vi envolvê-la nos braços, todo ternura e preocupação, e alguma coisa dentro de mim ficou muito quieta e muito cansada.
— Layla Swan. — A voz dele desceu por entre os dentes, os olhos me cortando como se eu fosse algo em que ele tivesse pisado. — Você é exatamente tão cruel quanto eu sempre suspeitei.
— Eu vou ver você fora desta casa. Vou fazer você responder por cada lágrima que esta mulher derramou por sua causa.
— Como você ousa encostar um dedo numa pessoa tão gentil? — A fúria na voz dele era total, como se não houvesse espaço nele para mais nada.
O choro de Nagia amansou, virou algo menor, mais lastimoso, mais eficiente — e Hendry a conduziu para fora do cômodo com uma mão nas costas dela, murmurando alguma coisa que eu não ouvi.
Então ficou só eu.
O silêncio engoliu o quarto inteiro.
Eu não me lembro de minhas pernas falharem. Num instante eu estava de pé; no seguinte, eu estava no chão, com o peito desabando sobre si mesmo.
— Ugh—
Doía. Doía de um jeito que pintava meu rosto inteiro de vermelho, que me fazia arranhar a própria clavícula como se eu pudesse arrancar a dor com as mãos.
As lágrimas vieram sem a minha permissão.
Eu conhecia essa dor. Já tinha sentido exatamente essa dor, parada na soleira de uma porta de quarto, ouvindo a voz do meu marido do outro lado.
“Layla Swan...”, sussurrei para ninguém, para o quarto vazio, para uma garota que já não existia. “Você o amou? Amou de verdade?”
“Doía tanto assim em você também?”
Uma personagem de fundo. Uma nota de rodapé na história de amor de outra pessoa. E, de algum jeito, ela tinha sentido exatamente o que eu sentia.
Minhas mãos se fecharam em punhos contra o chão, enquanto a fisgada no meu peito se recusava a afrouxar.
Eu chorei por ela.
Eu chorei por mim.
As duas dores, enroscadas uma na outra, até eu não conseguir dizer onde um luto terminava e o outro começava.
Mas eu não tinha tempo para desmoronar. Não de verdade. Eu precisava voltar para casa. Eu precisava que Desmon e Cassie respondessem pelo que tinham feito.
Eu me empurrei para cima, peguei o vaso mais próximo da mesinha lateral e o apertei contra o peito como uma arma enquanto caminhava em direção aos jardins dos fundos.
Foi assim que eu vim parar aqui. Ele me acertou com um vaso, e eu acordei no corpo dela.
Talvez funcione nos dois sentidos.
Continuei andando, deixando o pavilhão para trás e atravessando o amplo jardim de flores. Minhas criadas nunca parariam de rondar se eu ficasse em qualquer lugar perto da casa — eu precisava de algum lugar quieto, algum lugar onde ninguém pensasse em procurar.
Se eu quisesse voltar para casa, tinha que fazer isso sozinha.
Vaguei pela manhã usando apenas minha camisola, deixando meus pés escolherem a direção. A luz foi ficando mais fraca quanto mais eu avançava, o sol perdendo espaço para uma copa que se adensava sobre a minha cabeça, até que uma brisa fria na minha pele me avisou que eu tinha atravessado para um lugar onde não devia estar.
Sem querer exatamente, eu tinha entrado na floresta proibida.
Parei diante de uma árvore larga, antiga.
Olhei para o vaso nas minhas mãos.
É agora.
Ergui-o acima da cabeça com as duas mãos.
“...Ah.” Um som pequeno, quebrado, escapou de mim quando fechei os olhos.
De fato abaixá-lo era mais difícil do que eu tinha me permitido imaginar.
Eu o baixei, andei em círculos apertados, a respiração vindo rápida.
Não. Eu tenho que fazer isso.
Eu tenho que voltar para casa. Eu tenho que acabar com eles com as minhas próprias mãos.
Minha respiração voltou a ficar irregular. Apertei mais o vaso, ergui-o uma segunda vez—
BAM.
Uma flecha do tamanho do meu antebraço atravessou o vaso em linha reta. A porcelana explodiu em todas as direções, e a flecha se enterrou tão fundo na árvore atrás de mim que o tronco inteiro gemeu, inclinou e começou a cair.
“Hã—?”
Tudo aconteceu mais rápido do que eu conseguia processar. O vaso estilhaçado. A flecha cravada na madeira. O tronco enorme balançando na minha direção como algo em câmera lenta que, na verdade, não era lento coisa nenhuma.
De novo, não.
Meu corpo não se mexia.
Eu só fiquei ali, encarando várias toneladas de árvore despencando, completamente inútil.
Então alguma coisa se fechou em torno do meu pulso e puxou, forte o bastante para quase arrancar meu braço.
Tump.
Eu bati no chão, e o corpo de um homem desceu sobre o meu, perto o suficiente para que, por um segundo inteiro, eu esquecesse como se respirava.
Olhos azul-escuros. Cabelo preto caindo sobre uma mandíbula afiada demais para ser real. A expressão dele permaneceu perfeitamente imóvel — o que, de algum jeito, o tornava mais assustador, não menos.
Meu pulso martelou contra as costelas.
“Corajosa você.” A voz dele saiu baixa, carregando um tipo de autoridade que não deixava espaço para discussão. “Sangrar nas minhas terras, humana.”
Eu engoli em seco e não disse nada.
A mão dele ainda estava presa ao meu ombro, apertada o bastante para eu sentir meus próprios ossos protestarem.
BOOM.
A árvore atingiu o chão atrás de nós com um estrondo que sacudiu a terra sob as minhas costas, se partindo em uma dúzia de pedaços.
Minha respiração veio aos solavancos. Lágrimas escorreram pelas minhas têmporas antes mesmo de eu perceber que estava chorando. Aonde quer que eu fosse, a morte continuava me encontrando. Nada disso seguia a história que eu sabia de cor — conhecer esse homem nunca deveria acontecer, nunca.
“Uma coisinha tão frágil.” Havia algo cruel logo abaixo da calma na voz dele. Ele prendeu meu queixo entre dois dedos, erguendo meu rosto como se aquilo não lhe custasse nada.
Aquele rosto bonito e terrível. Aqueles olhos azuis, afiados o bastante para quase esconder o que havia por trás deles. “Está tentando me seduzir, é?”
“—O quê?” Meus olhos se arregalaram.
Olhei para baixo por instinto.
E entendi, de uma vez só, exatamente o que ele queria dizer.
O tecido fino e branco da minha camisola tinha ficado completamente transparente, encharcado, grudando em cada centímetro de mim como uma segunda pele.
