Capítulo 4 4
Capítulo 4
Layla
...
“Salve-o desta vez… por favor…”
“Nesta vida, você tem que conseguir salvá-lo…”
“Não falhe de novo!”
“Esta é a última vez… a última de todas…”
“Lembre-se… foi você quem começou tudo isso, então—”
As vozes ecoavam fracamente pelo meu sonho, como se eu estivesse presa dentro de um quarto escuro e infinito. Só de ouvi-las, as lágrimas escorriam incontroláveis pelo meu rosto.
Minhas sobrancelhas se franziram. Eu não conseguia falar, mas aquelas vozes me cortavam — afiadas, implacáveis — como se estivessem rasgando meu coração.
Parecia que eu tinha perdido algo… ou alguém… precioso demais para suportar.
Meu peito doía, estilhaçado além de qualquer conserto, e, por mais que eu tentasse, eu não conseguia parar de chorar.
De quem é esse sonho?
É meu… ou de Layla Swan?
Eu não sabia.
Tudo o que eu sabia era que doía — tanto que estava além de qualquer coisa que eu pudesse compreender. Pior do que a traição vil daquele desgraçado, Desmon.
“HAH!” O ar me escapou quando eu despertei num sobressalto.
Meus olhos se abriram de supetão para o teto enquanto eu me erguia, ofegante, o peito subindo e descendo de forma irregular. Olhei ao redor, com uma mão pressionando com força o próprio peito, como se eu pudesse conter o caos lá dentro.
O mesmo... Eu não estava na minha casa luxuosa, não estava num hospital... Eu ainda estava aqui, neste quarto grandioso cheio de decorações elaboradas — o quarto de Layla Swan.
Soltei um suspiro lento, obrigando-me a me acalmar. “Que sonho foi aquele…? De quem era aquela voz? E quem… eu devo salvar?”, murmurei para mim mesma.
Então...
“Mm… Princesa, não vá tão longe… eu não posso te deixar quando você vive se machucando… mm…” A voz sonolenta de Rina rompeu o silêncio.
Ela tinha adormecido ao lado da minha cama, sentada no chão com a cabeça encostada no colchão. O aroma suave de jasmim preenchia o quarto, e eu podia ver vestígios de um líquido de ervas ali perto, algo que ela devia ter preparado para me tratar.
Um sorriso discreto tocou meus lábios. Passei os dedos de leve pelos cabelos dela, e meu olhar desceu para as mãos, marcadas por inúmeras cicatrizes pequenas.
Rina era mãe solo... Estava criando dois filhos sozinha; o marido tinha morrido ao se juntar a um grupo de caça que se aventurou até a fronteira entre este mundo e o Submundo.
Neste mundo, lobisomens poderosos lideravam grupos de lobos e meio-lobos para caçar Titãs — criaturas gigantescas comandadas diretamente pelo Rei Demônio que governava o Submundo.
Seus chifres, peles e espinhos eram incrivelmente valiosos.
Por isso tantos meio-lobos fracos se juntavam a essas caçadas — arriscando a vida só para ganhar dinheiro para a família — e o marido de Rina tinha sido um deles.
Meus dedos continuaram a acariciar seus cabelos com suavidade. “Obrigada, Rina… Eu vou proteger você e seus filhos. Não vou deixar que você nem seus filhos morram neste mundo…”, sussurrei baixinho.
Parece que minha voz a despertou.
Ela se sobressaltou, afastando-se na hora antes de baixar a cabeça, visivelmente sem jeito. “D-Desculpe, Princesa! Eu estava preocupada demais com a senhora, então acabei dormindo ao seu lado… Eu não quis ser desrespeitosa, mas…”, ela disparou, nervosa, falante como sempre. E, de algum jeito… eu gostava disso.
A honestidade dela — a sinceridade — tornava mais fácil respirar aqui.
Saí da cama e caminhei até a grande janela, onde a luz dourada do sol inundava o quarto. Então me virei para ela, com um pequeno sorriso nos lábios.
“Está tudo bem, Rina. Você não precisa ter medo. Eu não vou fazer nada para te machucar… Venha, me ajude a preparar meu vestido.”
Esta noite…
Esta noite era para ser a noite em que o Alfa Hendry Gargan celebraria a morte de Layla Swan e anunciaria seu noivado com Nagia Hayys.
Mas eu ainda estava viva e, já que eu estava vivendo como Layla Swan… eu lhes daria uma surpresa, uma surpresa que me levaria direto ao Rei Lycan.
Sim.
Eu já tinha me decidido.
Por mais frio ou cruel que o Rei Lycan fosse, ele era o único capaz de me proteger das mortes que continuavam me perseguindo.
Eu faria o que fosse preciso... para ficar ao lado dele.
“Hm?” Rina piscou, confusa, mas logo se levantou e correu até o guarda-roupa.
“Vou escolher o vestido mais bonito para você, Princesa! Não vou deixar a Nagia roubar os holofotes hoje à noite!”, declarou com determinação, procurando com cuidado entre os vestidos.
Sorri de leve e, em seguida, me virei e fui para a sala de banho, tão grandiosa e espaçosa quanto o resto daquele lugar.
Esta noite… Na história que eu tinha lido, Layla Swan já estava morta; seu corpo tinha sido devolvido ao reino humano, e o Alfa Hendry Gargan deveria pedir Nagia em casamento naquela mesma noite — no aniversário dela.
Sim.
Hoje era o aniversário de Nagia Swan.
Encarei à frente e então, devagar, ergui o olhar para o espelho.
Meu reflexo me encarou de volta.
Eu não disse nada.
Eu apenas observei... e comecei a organizar um plano dentro da minha mente, um plano para sobreviver… neste mundo de monstros.
...
Depois de um tempo, terminei o banho, e Rina veio imediatamente me ajudar com o cabelo. Ela o deixou solto, macio, descendo pelas minhas costas em ondas suaves.
Eu era boa em fazer minha própria maquiagem e, graças a Deus, aquele lugar tinha cosméticos tradicionais que combinavam perfeitamente com meu tom de pele.
Vestida com um vestido vinho de ombros à mostra, com uma maquiagem leve que realçava sutilmente meus traços, e meu cabelo longo e ondulado caindo sobre os ombros…
Encarei meu reflexo no espelho... Eu ainda não conseguia acreditar: eu tinha voltado ao meu corpo — de quando eu tinha apenas dezenove anos.
Era eu, bonita e desejada por todos os homens; aquela Layla doentia, que vivia cheirando a remédio… tinha sumido.
“Princesa, você está tão linda… tenho certeza de que o Alfa Hendry Gargan vai ficar encantado com você…”, disse Rina, sorrindo radiante.
Retribuí o sorriso e saí do quarto, com Rina logo atrás de mim. “Alfa Hendry Gargan?” Soltei uma risadinha.
Parecia ridículo. Mas eu não podia explicar a ela que não tinha a menor intenção de atrair Hendry Gargan. Tudo o que eu estava fazendo… era por um objetivo meu.
Rina pareceu confusa, mas continuou me seguindo em silêncio.
Quanto a Shana… eu tinha certeza de que ela já estava contando tudo ao pai de Layla.
Entrei numa carruagem luxuosa, a caminho da reunião dos anciãos, onde meu casamento com o Alfa Hendry Gargan seria discutido.
Durante o trajeto, meu olhar se desviou para fora... Assentamentos decadentes. Lobos em forma humana, com corpos magros, rostos fundos de fome, roupas gastas e imundas…
A visão apertou meu peito.
“Princesa… parece que você realmente esqueceu muita coisa”, disse Rina baixinho, as mãos se fechando um pouco. Era claro que ela tinha notado minha reação. “Eles são refugiados… de vilarejos atacados por Titãs que saem do Submundo…” A voz dela tremeu de leve.
“O abastecimento de comida só piora. Por isso tantos lobos se voltaram contra o Rei Lycan… eles começaram a se rebelar. Sinceramente… eu estou com medo, Princesa. Se estourar uma guerra civil… o que vai acontecer com os meus filhos…?” Ela não percebeu, mas suas preocupações transbordaram de uma vez.
Soltei o ar devagar, com o olhar fixo à frente.
Eu já sabia o que precisava fazer, e o silêncio que se seguiu fez Rina perceber de repente que tinha falado demais.
—E-eu sinto muito, princesa… Acho que falei demais de novo, eu…
Virei-me para ela e sorri. —Rina, vai ficar tudo bem. Confie em mim. —Assim que terminei de falar, a carruagem parou.
Tínhamos chegado.
Vi Rina se calar, segurando as lágrimas. Havia um traço de alívio em seus olhos — talvez por causa das minhas palavras.
Mas eu falava sério. Eu consertaria o que havia de errado neste lugar.
Para sobreviver… e para encontrar a resposta do porquê eu acordei neste mundo.
Eu faria tudo o que estivesse ao meu alcance.
Toc. Toc. Toc.
As grandes portas do salão de reuniões se abriram.
Entrei com graça, erguendo levemente o queixo. Todos que me viram baixaram a cabeça, mas sussurros me seguiram por trás.
Eu não me importei.
No fundo da sala… o Alfa Hendry Gargan me encarava.
Eu reconhecia aquele olhar.
O olhar de um homem cativado pela beleza.
O sorriso discreto em seus lábios dizia exatamente o que Rina tinha dito antes.
Ele achava que eu tinha vindo aqui para atrair a atenção dele.
—Tsc… que ridículo —murmurei baixo, continuando a caminhar para a frente.
—Ah! —Meus passos pararam de repente; uma mulher tinha caído bem na minha frente… Nagia.
Ela segurou a mão, olhando para mim com os olhos cheios de lágrimas. —Princesa… me desculpe… Se você me odeia tanto, não precisava me empurrar assim…
—Hic… hic… —Os soluços dela ficaram mais altos, atraindo imediatamente a atenção de todos — os anciãos… e, claro, o Alfa Hendry Gargan.
Que mulher ardilosa.
Tão boa em se fazer de fraca.
Tão boa em atuar.
Armando uma armadilha… só para me incriminar.
—Nagia… —Hendry avançou na hora, ajoelhando-se um pouco ao pegar a mão dela.
Como eu esperava, os soluços dela ficaram ainda mais frágeis, mais lastimosos.
—Layla Swan, você foi longe demais! —Hendry rosnou, me encarando com fúria. —Como você pôde empurrá-la e tentar humilhá-la na frente de todos?! —A voz dele ecoou pelo salão, carregada de raiva, enquanto ele me repreendia diante de todos os lobos e anciãos presentes.
Eu permaneci calma. Olhar para Hendry Gargan e Nagia era como olhar para Desmon e Cassie outra vez… Isso fazia meu sangue ferver.
Mas eu sabia que raiva e gritaria não me ajudariam em nada. Então, em vez disso, com uma expressão serena, baixei um pouco o olhar… e segurei o queixo de Nagia.
Eu a forcei a olhar para cima, para mim.
Ela congelou; o corpo tremeu, mas não ousou encarar meus olhos.
—Uma serva miserável minha ousa se agarrar ao meu noivo na frente de todos… —eu disse com calma, a voz uniforme, porém cortante. —Que ousadia… sua puta sem vergonha.
A cabeça de Nagia se ergueu num solavanco, a fúria atravessando seu rosto. As bochechas ficaram vermelhas enquanto ela lutava para conter o grito.
Eu sorri.
Sim.
Isso era divertido.
Voltei o olhar para o Alfa Hendry Gargan e então soltei o queixo de Nagia, deixando-a se afastar num tranco antes de baixar a cabeça, chorando de novo. —E um Alfa tão poderoso e respeitado… escolhe defender uma serva miserável em vez da própria noiva…
Endireitei a postura, ficando ereta.
O olhar de Hendry vacilou, em choque; sua expressão deixava claro que ele nunca esperaria que Layla Swan fizesse algo assim.
Antes que ele pudesse retrucar, dei um passo à frente com calma, erguendo os olhos para encarar os anciãos — aqueles que tinham se reunido ali para decidir a data do meu casamento com Hendry Gargan.
—Eu não posso aceitar o caso entre o Alfa Hendry Gargan e aquela serva miserável —disse, a voz firme, inabalável. —Eu, Layla Swan, solicito formalmente a anulação deste noivado. —No instante em que essas palavras deixaram meus lábios… o salão inteiro explodiu.
“O quê?”
“Como Layla Swan, que tinha sido tão obsessivamente apaixonada pelo Alfa Hendry Gargan, poderia cancelar o próprio noivado?”
— Ela está fazendo outra encenação?
— Sim, ela sempre gostou de criar drama para chamar a atenção do Hendry. Isso deve ser mais um dos esquemas dela. Daqui a pouco ela volta atrás. — Os cochichos se espalharam como fogo em palha seca, preenchendo o salão de todos os cantos.
Eu ouvi cada um deles, mas não me mexi... não vacilei. Apenas fiquei ali, esperando a resposta dos anciãos — embora até eles parecessem atônitos com a minha decisão.
— LAYLA SWAN, O QUE VOCÊ ACHA QUE ESTÁ FAZENDO?! — Hendry rugiu, agarrando meu pulso. As sobrancelhas dele se contraíram, a raiva incendiando o rosto.
Claro.
Hendry Gargan nunca imaginou que Layla Swan chegaria a esse ponto.
Ergui o queixo, mantendo a expressão calma, e então me livrei do aperto dele com força. — Eu não fui clara o bastante? — perguntei, a voz fria, marcada por uma quieta definitividade. — Eu quero que esse noivado seja anulado.
Um sorriso tênue curvou meus lábios quando voltei o olhar para Nagia, que ainda chorava — embora agora houvesse raiva escondida por trás das lágrimas.
— Não é isso que você queria, Hendry Gargan? — continuei, com suavidade. — Você pode ficar com a Nagia, então qual é o problema em acabar com esse noivado? — Inclinei levemente a cabeça, os olhos se aguçando.
— Afinal... eu não tenho interesse nenhum em ficar com alguém que tem padrões tão baixos. — Minhas palavras fizeram a expressão de Hendry se contorcer — raiva e confusão se chocando ao mesmo tempo.
— Layla, sua...! — ele rosnou, a voz subindo de fúria. Mas antes que ele terminasse...
As portas se abriram.
Toc. Toc. Toc.
O som de passos ecoou pelo salão.
Eu vi Hendry Gargan — bem na minha frente — abaixar a cabeça.
TUM. TUM. TUM.
Meu coração despencou direto no estômago. Meus olhos se arregalaram, mas eu não ousei me virar.
Alexander Hagard Raizel.
O Rei Lycan — frio, distante e temido — havia entrado no salão de reunião dos anciãos.
No instante em que os passos dele ecoaram pelo salão, tudo parou. Os cochichos morreram na hora. Até o ar pareceu ficar mais pesado.
Como se algo muito mais poderoso do que todos naquela sala tivesse acabado de entrar.
Como isso é possível...? sussurrei por dentro, o corpo tremendo.
Meus dedos se curvaram de leve ao lado do corpo; eu reagi antes mesmo de pensar... Medo — o tipo de medo que faz a presa congelar diante do predador.
Na história que eu tinha lido, o Rei Lycan comparecia a essa reunião, mas apenas para investigar a morte de Layla Swan, o incidente que acenderia o ápice do conflito entre o Reino dos Lobisomens e o Reino Humano. Mas agora, Layla Swan... ainda estava viva.
Eu ainda estava viva.
Então por que ele estava aqui?
Engoli em seco.
Engoli com dificuldade, a garganta seca, o corpo rígido. Eu nem conseguia me forçar a me virar.
Toc. Toc. Toc.
Os passos dele se aproximaram, até que ele parou bem ao meu lado.
— Hm?
Eu senti — a mudança do olhar dele ao perceber que eu não tinha abaixado a cabeça como os outros.
Pelo canto do olho, captei o leve desenho de um sorriso torto nos lábios dele.
Ele não falou de imediato; o olhar permaneceu em mim por um momento — lento... deliberado... como se estivesse me estudando.
— Ah... minha pequena isca. — A voz dele era baixa, quase divertida, como se ele já tivesse decidido algo a meu respeito... algo de que eu ainda não tinha consciência.
Dessa vez, eu o vi com clareza... Aquele rosto devastadoramente bonito, aqueles olhos azuis e frios.
Aquela expressão serena... como se me devorar fosse a coisa mais fácil do mundo.
Alexander Hagard Raizel.
Olhando para mim como se eu não fosse nada além de um brinquedo — algo que ele podia quebrar... quando bem entendesse.
...
Nota do autor: Por favor, me apoie adicionando este romance à sua lista de leitura. Muito obrigada.
