Capítulo 5 5

Capítulo 5

Layla

...

A sala ficou em silêncio de uma vez — daquele tipo de silêncio que tem peso, que desaba sobre os seus ombros como uma mão.

Prendi a respiração sem nem perceber. Os olhos do Rei Lycan continuaram cravados nos meus, e alguma coisa nas minhas costelas se retesou, como uma corda esticada uma volta além do limite.

A expressão dele não mudou. Fria. Distante. Um vestígio de algo muito próximo do desprezo, logo abaixo da superfície.

Não posso parecer fraca diante dele.

Nem um tremor sequer. Se eu quisesse ter alguma chance de ficar sob a proteção deste homem, eu precisava que ele enxergasse em mim algo além de uma presa.

Desfiz o nó das mãos devagar e me obriguei a respirar num ritmo normal.

Alexander Hagard Raizel estava bem na minha frente agora. Ao lado dele, Hendry Gargan continuava curvado, a confusão estampada com clareza na parte do rosto que eu conseguia ver.

Deixei minha expressão suavizar e ergui o queixo para encarar os olhos do Rei.

— Vossa Majestade. Nos encontramos de novo. Perdoe-me pelo que aconteceu esta manhã — eu não o reconheci e estava abalada demais para cumprimentá-lo como devia.

Mantive a voz firme, medida. Eu precisava que ele entendesse que nosso primeiro encontro não tinha sido algum movimento calculado da minha parte.

A cabeça de Hendry se ergueu ao nosso lado, claramente esperando uma explicação também. Eu não lhe dei nenhuma.

Agora, só uma pessoa naquele salão importava. Num mundo feito de monstros e de uma magia mais antiga do que eu compreendia, este homem era a única coisa entre mim e o que quer que viesse depois.

— Hm.

Os olhos dele percorreram meu rosto, sem pressa, e então desceram pelo resto, me avaliando como se eu fosse algo que ele estivesse pensando em comprar.

Depois, ele encurtou a distância.

Tudo desapareceu com um único passo.

Ele estava perto o bastante para eu sentir o calor da pele dele, perto o bastante para que o resto da sala parecesse se apagar por completo. Travei os joelhos e me recusei a lhe dar a satisfação de recuar.

Sussurros começaram a se espalhar pelo salão. Cada lobo ali observava o quão perto estávamos, olhos brilhando de especulação.

Ele não quebrou o contato visual nem uma vez.

— Alpha Hendry Gargan.

Hendry se endireitou imediatamente, baixando a cabeça.

— Sim, Vossa Majestade.

— A garota à minha frente — disse Alexander, imperturbável, quase entediado —, pelo que entendi, era sua noiva. E acabou de encerrar o noivado por conta própria.

Os olhos dele não saíram dos meus enquanto dizia isso.

— É correto?

O ar ao meu redor tinha ficado denso, difícil de puxar para dentro dos pulmões. Só a presença dele parecia arrancar algo de mim a cada segundo, e aqueles olhos não me deixavam olhar para outro lugar.

— S-sim, Vossa Majestade — Hendry conseguiu dizer, lançando um olhar para mim e não recebendo nada em troca.

Eu mantive toda a minha atenção em Alexander.

Claro que ele já sabia de tudo. Os sentidos de um Rei Lycan o colocavam acima de qualquer outro lobo naquela sala — ele tinha ouvido toda a troca de palavras no instante em que atravessou a porta.

— Hm. — O olhar dele se deslocou de novo, descendo desta vez até a minha boca, como se tivesse notado ali alguma coisa que merecesse uma segunda olhada.

Um sorriso pequeno cruzou o rosto dele.

— Então eu fico com ela.

Disse com leveza. Como se fosse um detalhe.

— Ela vai ser minha escrava.

O silêncio que se seguiu tinha uma textura completamente diferente — do tipo que quebra osso.

Meus pensamentos se esvaziaram por completo.

Uma princesa. Propriedade.

Eu não fui a única pega de surpresa. O rosto de Hendry ficou rígido, a incredulidade estampada enquanto ele encarava o Rei.

— Vossa Majestade, mesmo sem o noivado ter sido formalmente encerrado, ela continua sendo a princesa de Erland Noir e—

— Eu a quero. — Alexander o cortou sem sequer elevar a voz.

Não havia como discutir com aquele tom. Ele simplesmente não permitia.

— Pretende ficar no meu caminho?

Aquela calma era pior do que qualquer grito poderia ser.

— E aquela desculpa nojenta de rei — continuou ele, a voz ficando mais fria a cada palavra — já se aliou ao Submundo. Um dos meus morreu por causa dele. Ainda assim, a mensagem encontrou um jeito de chegar até mim.

O ambiente pareceu se deslocar ao nosso redor, a tensão aumentando a cada segundo.

— Ele vai pagar por isso. — Os olhos dele se afiaram quando voltaram para mim. — E a filha dele—

Algo sombrio passou por trás do olhar dele.

— vai se ajoelhar aos meus pés.

— Uma lição, para qualquer um que ache que me provocar não tem custo.

Os murmúrios viraram um rugido.

A hostilidade encheu o salão na mesma hora, todos os olhares se virando para mim como se eu fosse a responsável pela decisão de traí-los. Como se eu fosse algo contaminado.

Como se o crime não fosse inteiramente do pai de Layla Swan.

— Eu sabia. Humanos são todos iguais.

— Não conseguem cumprir uma única promessa entre eles.

— Criaturas imundas.

As palavras vinham de todos os lados, e nada daquilo importava — não de verdade, não comparado ao que eu sentia que vinha a seguir.

O pânico finalmente rachou qualquer compostura à qual eu ainda me agarrava.

O pai de Layla Swan tinha matado o emissário lobo enviado a Erland Noir.

Isso não estava no livro. Ainda não, não tão cedo.

Na história, a guerra entre humanos e lobos só saía do controle depois que Layla Swan morria. Mas eu estava viva. Eu carregava o nome dela, a coroa dela, o destino dela.

Então por que tudo já tinha dado errado?

Antes que eu conseguisse desembaraçar qualquer coisa, mãos se fecharam em volta dos meus braços.

Metal se fechou com um estalo sobre meus pulsos.

Correntes.

O som começou a se afastar de mim — vozes se sobrepondo até virarem uma única parede borrada de ruído, enquanto vários lobos de alta patente começavam a gritar, arremessando o que estivesse ao alcance.

— Matem a humana!

— Imundície!

— Não dá pra confiar em nenhum deles!

As palavras chegavam aos meus ouvidos de um jeito estranho, distorcidas, como se eu as ouvisse debaixo d’água. Eu não conseguia respirar direito.

O salão inclinou.

As correntes. Os gritos. Os objetos batendo no chão perto dos meus pés.

Tudo aquilo parecia — familiar. Não novo. Como se eu já tivesse vivido exatamente aquele momento, em algum lugar, em algum tempo.

O que é isso?

Alguma coisa dentro do meu peito se partiu, e doeu pior do que qualquer coisa que eu tinha sentido desde que o vaso desabou na minha cabeça.

As lágrimas começaram sem permissão. Eu encarei minhas mãos presas enquanto o salão continuava tremeluzindo, entrando e saindo de foco.

— Aa—

Balancei a cabeça, tentando clarear, com os olhos ardendo.

Por que isso parece uma lembrança em vez do presente?

Por que dói tanto?

Isso sequer é meu para sentir?

Um zumbido agudo cresceu atrás dos meus ouvidos, abafando o resto, tudo em mim subindo até eu não conseguir mais separar aquilo do barulho.

Então tudo ficou quieto de uma vez.

Escuro, total e completo.

Minhas pernas cederam e eu desabei, as correntes se arrastando contra a pedra.

A última imagem antes de a escuridão me engolir foi Rina correndo na minha direção, tentando colocar o corpo dela entre o meu e a multidão — e, atrás dela, aqueles olhos azuis.

Observando. Frios. Impassíveis.

---

Salve ela...

Se você falhar de novo, então...

Um toque, agudo e repentino, cortou a escuridão e me puxou de volta para fora dela.

Abri os olhos.

O ar entrou irregular, como se eu tivesse acordado depois de perder algo que eu nunca deveria ter tido que perder.

— Ah...

Meus dentes encontraram meu lábio. Eu não conseguia explicar a dor alojada no meu peito, nem por que as lágrimas não tinham parado, mesmo agora que eu estava acordada.

Alguma coisa em tudo isso parecia errada de um jeito para o qual eu não tinha palavras.

Eu não era alguém que quebrava fácil. Nunca tinha sido esse tipo de pessoa.

E, ainda assim, ali estava eu — vazia por dentro, desfeita.

— Então. Acordada, minha escravinha?

A voz já era familiar.

Minha visão foi clareando devagar, e o quarto entrou em foco.

Correntes, ainda nos meus pulsos. Meu vestido, o mesmo do salão, agora rasgado e imundo.

Olhei para mim e senti algo perto de nojo.

Mas não era isso o pior.

Eu não reconhecia o quarto. E o homem que eu tinha esperado que pudesse me abrigar — o Rei Lycan — estava sentado à minha frente numa grande cadeira entalhada, me observando do jeito que se observa algo que já se possui.

Algo em mim se retesou, enrolado, tenso, pronto para estourar.

Atrás dele, através de janelas do chão ao teto, a noite já tinha caído. No escuro, os olhos dele pareciam ainda mais afiados, captando o pouco de luz que havia como algo feito para caçar.

— Venha aqui. — Ele apoiou o queixo nos nós dos dedos, sem pressa. — Rasteje até mim.

Eu parei de respirar por um segundo.

— Pretendo arrancar o pouco de orgulho que ainda lhe resta antes de mandar seu corpo de volta para o seu pai.

Disse sem emoção. Como uma decisão já tomada e arquivada.

Eu fiquei imóvel.

Ele não estava blefando. Eu conseguia ouvir isso no tom da voz.

Eu conhecia história o bastante do meu próprio mundo para entender exatamente o que acontecia com mulheres capturadas em guerras como essa. Usadas. Quebradas. Descartadas e, depois, eliminadas.

Eu tinha quase certeza de que era esse o destino que me esperava ali.

Isso explicava as correntes. Explicava por que ele tinha me trazido para aquele quarto.

Minha garganta se fechou em torno de uma deglutição.

Não. Eu preciso pensar. Preciso ganhar tempo, negociar, qualquer coisa.

Abri a boca para tentar.

— Shh. — Ele se levantou, e o único som me silenciou por completo.

— Você não fala comigo — ele disse, parando na minha frente. — Você é uma escrava. Esse direito não pertence mais a você.

Firme. Quase gentil na forma de dizer. Absoluto por baixo.

Então a mão dele se fechou em torno da corrente, e ele puxou.

Meu corpo foi lançado para a frente, tropeçando atrás dele antes que eu conseguisse me preparar.

— Ugh...! A dor subiu em lança pelos meus braços onde o metal cortava mais fundo uma pele já em carne viva. Minhas pernas mal se mantinham sob mim enquanto ele me arrastava para a frente sem diminuir o ritmo.

Eu não gritei. Algum instinto me disse que gritar podia ser a coisa que acabaria com isso.

Ele me puxou direto até a sacada.

A pedra bateu nos meus joelhos, e o vento cortou minha pele na mesma hora, afiado e mordente. O parapeito ali era espaçado, com vãos largos o bastante para que um empurrão fosse mais do que suficiente.

Abaixo se estendia uma floresta densa e negra, e o abismo sob ela parecia não ter fim. Estávamos à beira de alguma coisa construída na face de um penhasco — alto o bastante para que o frio, por si só, fizesse meu estômago despencar.

— Eu consigo senti-los — ele disse, num tom casual, como se estivéssemos falando do tempo. — Titãs, vários deles, escondidos ali naquela linha de árvores. O sangue deles se espalha longe.

— Quer saber o que é interessante?

Ele estava se divertindo com aquilo. Virando meu medo nas mãos como uma moeda.

Eu não disse nada. Qualquer plano que eu estivesse montando na cabeça já tinha se desfeito em nada.

Porque algo maior do que o medo tinha se instalado no meu peito. Os sonhos. Essa sensação esmagadora de que eu já tinha vivido exatamente aquela cena uma vez antes. Aquilo me mantinha imóvel com mais eficiência do que o aperto dele.

A corrente esticou de novo, forçando meu queixo para cima.

A dor explodiu onde o metal rasgou ainda mais a ferida. Eu só conseguia imaginar como eu devia estar — imunda, destruída, de joelhos diante dele.

Aqueles olhos de novo. Afiados o bastante para cortar.

— Nada a dizer, nem agora? — a voz dele ficou ainda mais fria. — Corajosa, para algo que vale tão pouco.

O aperto dele na corrente aumentou.

— Então eu vou te dizer uma coisa. — Um leve arco tocou sua boca. — Eu não sei por quê. Mas aqueles Titãs lá embaixo não conseguem deixar seu sangue em paz.

Meu estômago despencou.

— Eles estão lutando entre si pelo direito de te caçar.

O frio se espalhou por dentro de mim.

— Mesmo comigo ao seu lado, eles mal conseguiram se conter para não te dilacerar bem aqui, nos meus próprios salões.

Minha garganta se fechou, as palavras se acumulando atrás dela.

— Devo te jogar pela borda? — o tom dele não mudou em nada. — Deixar que te estraçalhem lá embaixo e mandar ao seu pai uma mecha do seu cabelo como prova de que aconteceu?

O sorriso continuou discreto. Os olhos, não combinavam com ele.

Raiva, paciente, sentada por baixo.

E eu não tinha mais nada com que enfrentá-la. Meu corpo tinha ficado fraco e oco, recusando-se a responder ao que quer que eu exigisse dele.

Aquela sensação de novo — a certeza sufocante de que eu já tinha estado ali.

Por que eu não consigo mudar nada disso?

Por que tudo parece algo já escrito?

A tristeza pressionou minhas costelas, e não tinha nada a ver com as correntes.

— Diga-me, Vossa Majestade. — Minha voz saiu tremendo apesar de tudo que eu fiz para firmá-la. — O que está acontecendo comigo? Por que isso dói mais do que morrer doeu? Eu estou ficando louca?

Eu já não conseguia segurar nada. A dor tinha ficado grande demais para o pouco espaço que ainda restava dentro de mim.

Por um instante, alguma coisa atravessou o rosto dele.

Confusão. Estranha nele, desapareceu quase tão rápido quanto veio, substituída por algo mais afiado.

— Uma escrava com talento para o teatro — ele disse, gelado. — Fingindo loucura para comprar uma saída.

A corrente deu outro tranco, me puxando para cima mesmo que minhas pernas não tivessem mais nada a oferecer.

Ele me arrastou para longe da sacada sem se importar com as feridas que já sangravam pelos meus pulsos e me atirou na cama.

O impacto arrancou de mim o pouco ar que eu tinha.

Então—

Rasgo.

O som do tecido se rompendo, alto no silêncio do quarto.

Meus olhos se arregalaram.

— Vamos ver o quanto você consegue continuar fingindo — ele murmurou, baixo, bem junto ao meu ouvido — quando eu usar você do jeito que eu uso qualquer outra coisa que me pertence.

As palavras atravessaram meu corpo como água gelada.

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