Capítulo 10 Desejo no copo

Da sala de estar vinha o som do riso baixo e suave de uma mulher, seguido pela resposta quente e descontraída de Alexander.

Ele parecia estranhamente relaxado e satisfeito.

Caroline tirou os sapatos em silêncio; o frio do piso de mármore mordeu a sola dos pés descalços enquanto ela avançava, sem fazer barulho, em direção à sala.

Então ela os viu. No sofá, Celeste estava sentada com um robe de seda, encostada ao lado de Alexander.

Ficava claro que ela tinha passado a noite ali.

Celeste segurava um álbum de fotos aberto, o dedo apontando para uma imagem enquanto o rosto dela se iluminava de alegria.

— Alex, olha essa aqui. A Edith era tão fofinha quando era pequena! Essa fita... eu encontrei no armário da última vez. Não é a mesma da foto?

Alexander se inclinou para examinar a imagem, e a expressão dele se suavizou de um jeito que Caroline não via havia anos.

Ele soltou um murmúrio baixo, aprovando, e estendeu a mão como se fosse tocar com cuidado o rosto sorridente da criança na página.

Celeste apoiou a cabeça no ombro dele como se pertencesse àquele lugar, como se fosse a verdadeira dona daquela casa.

Caroline ficou parada na entrada, meio escondida na sombra, sentindo um frio se espalhar pelo peito.

Então até as últimas ilusões que ela ainda guardava tinham sido arrancadas.

Ela pensou, amargurada: você está vendo isso? O apartamento que você mais prezava, o homem que você amou acima de tudo, o futuro que você imaginou um dia... outra mulher está tomando posse de cada pedaço, e ainda por cima invocando o seu nome... E eu só consigo ficar aqui, em silêncio, sem força nem para falar.

Celeste pareceu perceber o olhar dela. Levantou a cabeça e encontrou os olhos de Caroline.

Não havia nenhum traço de surpresa ou culpa. Em vez disso, o sorriso dela ficou ainda mais doce — doce demais — com aquele gosto inconfundível de vitória.

— Ah, Caroline, você voltou. — Celeste se sentou direito, com um tom casual e acolhedor, como se estivesse recebendo uma visita qualquer. — Pegou chuva? Eu pedi pra empregada preparar um chá de gengibre. Quer uma xícara?

Alexander virou o rosto, os olhos pousando no semblante pálido e exausto de Caroline.

Qualquer lembrança da fragilidade que ela mostrara na noite anterior parecia ter sido apagada. O olhar dele voltou a ser frio, carregado de desprezo.

— Você ainda sabe como voltar pra casa? — A voz dele saiu seca.

Em seguida, ele voltou a atenção para o álbum de Celeste. — Continua.

Celeste ofereceu a Caroline um sorrisinho pequeno, quase de desculpas, antes de se aninhar em Alexander de novo, tratando-a como se ela não existisse mais.

Caroline permaneceu imóvel, enquanto o riso dos dois a atravessava como estilhaços de vidro. O estômago dela se revirou com violência, e a tontura embaçou sua visão.

Ela mordeu o lábio com tanta força que sentiu gosto de sangue, antes de se obrigar a se virar, desesperada para escapar daquele ar sufocante.

— Para. — A voz de Alexander cortou o ar, afiada.

Caroline congelou.

— Vai preparar o café da manhã pra mim e pra Celeste.

Ela era a esposa dele, e ainda assim ele mandava que ela os servisse como se fosse funcionária da casa.

A humilhação foi deliberada e cruel.

Ela entreabriu os lábios para recusar, mas as palavras ficaram presas na garganta.

Ela não tinha o direito de recusar. E, se recusasse, o que viria depois? Confinamento? Uma surra? Alguma nova forma de crueldade?

No fim, tudo o que ela disse foi:

— Tá bom.

Ela amarrou um avental, entrou na cozinha e abriu a geladeira. Seus movimentos eram lentos, os dedos tremendo.

Acendeu o fogão, esquentou a frigideira, despejou óleo.

O chiado dos ovos fritando soou alto na cozinha silenciosa, enquanto, na sala, os dois sussurravam um para o outro.

Logo o café da manhã ficou pronto.

Ela levou a bandeja até a sala de jantar.

A mesa comprida já estava posta para duas pessoas.

O coração dela afundou.

Claro. Não havia lugar para ela.

Caroline pousou a comida em silêncio e se virou na direção da cozinha para pegar uma simples fatia de pão. O estômago doía tanto que ela precisava de alguma coisa para não sentir tudo se retorcer por dentro.

Mas os dois entraram juntos, interrompendo-a.

— Uau, a Caroline fez café da manhã? Tá com uma cara ótima! — Celeste soltou o braço de Alexander e se acomodou no lugar que normalmente era de Caroline.

Caroline ficou paralisada, a bandeja ainda nas mãos.

Alexander tomou a cabeceira da mesa, lançou um olhar para os pratos e depois ergueu os olhos para ela, com um leve franzir de desaprovação.

— Café.

Ela piscou e, então, apoiou a bandeja e serviu da cafeteira de prata.

As mãos dela tremiam tanto que gotas de café quente respingaram na toalha branca.

A expressão de Alexander se fechou ainda mais.

— Cuidado. — Celeste repreendeu Caroline num tom brincalhão, antes de voltar para Alexander com um sorriso. — Alex, a Caroline talvez ainda não esteja bem. Não pega tão pesado com ela.

Caroline não disse nada. Terminou de servir e deu um passo para trás.

A dor no estômago piorava; o suor se acumulava na testa.

Ela precisava comer ou tomar um remédio.

— Caroline, você tá pálida. Senta e come com a gente. — A voz de Celeste era doce, apontando para o lugar mais distante de Alexander.

Caroline estreitou os olhos. Balançou a cabeça.

— Não tô com fome. Vocês podem comer.

Ela se virou de novo para a cozinha.

— Para. — A voz de Alexander cortou o ar.

Ela parou.

— Hoje à tarde, você vai comigo a Bronxen.

Caroline se virou, a confusão piscando no olhar. Bronxen era um distrito caótico, um dos territórios mais fracos da família Hamilton — e um dos mais perigosos.

— A família Powell nos deve uma dívida. Já está três meses atrasada — disse Alexander, cortando uma tira de bacon. — O Caleb está doente, e o filho inútil dele é quem está tocando as coisas. Ele fica se esquivando, sempre enrolando pra pagar. Hoje eu vou resolver isso pessoalmente.

O peito de Caroline apertou.

Se Alexander estava indo pessoalmente, era sinal de problema sério. Significava perigo. Significava que os tiros da noite passada talvez fossem só o começo.

— Por que você precisa ir pessoalmente? — perguntou Celeste, com a voz carregada de preocupação. — Parece arriscado demais.

— É justamente por isso que a minha presença é necessária. Isso demonstra… o quanto levamos o assunto a sério. — Alexander limpou a boca com um guardanapo, e seus olhos deslizaram até Caroline com um desprezo debochado. — E a Caroline precisa entender como a família conduz os próprios negócios. Afinal, ela carrega o título de esposa da família Hamilton. Ela não pode ficar protegida para sempre, brincando de médica no mundinho dela.

Caroline entendeu perfeitamente.

Era mais uma forma de punição.

Ele queria que ela visse a violência, o sangue, a escuridão — para sentir a culpa ainda mais fundo.

— Eu… — Ela quis recusar, dizer que estava doente demais.

Mas recusar só traria consequências piores.

— Três horas. Esteja pronta. — O tom dele não deixava espaço para discussão.

Caroline abaixou o olhar. — Sim.

Às três em ponto, ela esperava no andar de baixo. Alexander estava no banco de trás do carro, com os olhos fechados.

Ele os abriu quando ela entrou, lançou-lhe um olhar rápido e não disse nada.

O carro seguiu em direção ao Bronxen.

As ruas foram ficando cada vez mais decadentes, marcadas por pichações, lixo espalhado e olhares hostis.

A casa da família Powell ficava numa parte mais antiga do distrito, num prédio que parecia mais uma fortaleza sombria do que um lar.

Os quatro seguranças de Alexander os flanquearam quando eles bateram à porta.

Quem atendeu foi uma mulher idosa e frágil. A mãe de Caleb.

O sorriso de Alexander era educado, a voz calorosa enquanto ele explicava a visita: preocupação com a saúde de Caleb e o desejo de conversar sobre uma dívida antiga.

A mulher tremeu, mas deixou que entrassem.

Dos fundos da casa surgiu um jovem usando uma camisa florida chamativa — Benjamin Powell, filho de Caleb.

A expressão dele mudou ao ver Alexander, mas ele rapidamente forçou um sorriso e veio até eles.

Depois de algumas gentilezas vazias, foram direto ao assunto.

Benjamin começou a dar desculpas, lamentando as dificuldades financeiras.

A paciência de Alexander se esgotou. Ele fez um sinal sutil. Um segurança deu um passo à frente e largou um contrato sobre a mesa.

— Senhor Powell — disse o homem, friamente. — Este contrato de empréstimo não é novidade para o senhor. Por respeito aos laços antigos, a família Hamilton ofereceu ajuda em tempos difíceis. Essa dívida não é apenas dinheiro, é história. O senhor certamente não vai desconsiderar isso.

O clima pesou.

A testa de Benjamin brilhou de suor.

Aquele era o aviso final de Alexander.

Tentar enganar os Hamiltons tinha o preço do sangue.

Os olhos de Benjamin correram, nervosos. — Vocês vieram de tão longe… Deixem eu oferecer algo para beber.

Ele sumiu na cozinha.

Momentos depois, voltou com uma bandeja.

Ele entregou primeiro um copo d’água para Caroline. — Senhora, por favor, tome um pouco de água.

Os olhos de Alexander se voltaram para ela, indecifráveis.

Caroline, sem pensar, colocou o copo diante de Alexander.

Ela mesma pegou outro copo e deu um gole. A garganta estava seca; o estômago, ainda embrulhado.

Alexander pegou o próprio copo.

Benjamin, percebendo que o clima tinha amolecido, voltou com a história triste dele.

Alexander virou a cabeça, pronto para fazer sinal a um segurança.

Mas travou.

O olhar dele ficou afiado como uma lâmina, cravado em Benjamin.

Ele cheirou a água, e o rosto escureceu na mesma hora.

Ao mesmo tempo, Caroline sentiu um calor estranho subir do estômago e correr pelos braços e pelas pernas.

O coração disparou, o rosto queimou, o quarto pareceu inclinar e rodar.

A água… tinha alguma coisa errada.

“Você tem coragem…” Alexander se ergueu de um salto, cambaleando de leve.

Ele também tinha sido atingido.

O sorriso de Benjamin sumiu. Ele recuou e assobiou, curto e agudo.

Passos trovejavam do lado de fora. Uma emboscada.

“Vai!” Alexander agarrou o pulso de Caroline e a arrastou em direção à porta.

Os seguranças se chocaram com os invasores, tiros estalando pela casa.

Alexander puxou Caroline no meio do caos, empurrando para o lado quem aparecesse no caminho.

Caroline tropeçava, mal conseguindo acompanhar. O estômago revirava com violência; o calor dentro dela era quase insuportável.

Eles se jogaram dentro do carro que os esperava.

Sob fogo de cobertura, o veículo arrancou e saiu cantando pneu da casa dos Powell.

Alexander se recostou, respirando pesado, o rosto vermelho. Afrouxou a gravata, mas não adiantou nada.

O calor ardia, martelando o autocontrole dele.

Caroline se encolheu no canto, os braços apertados em volta do próprio corpo. Ela mordeu o lábio com força, tentando não desmaiar, mas mal ajudava.

“Aquela água…” A voz de Alexander saiu baixa. “Foi você que me entregou.”

Ela encarou ele, atônita. “O quê?”

“Eu disse”, os olhos dele presos nos dela, “Benjamin te deu, e você me deu.”

Ele achou que ela tinha dopado ele.

“Não, não fui eu… foi ele… eu não sabia…” Caroline balançou a cabeça, desesperada.

“Não sabia?” Ele se moveu de repente, prendendo Caroline contra a porta do carro. “Caroline, você tem noção do que fez? Num lugar daqueles, você tem coragem de se juntar a eles pra me drogar?”

O aperto dele machucava. “Qual era o seu plano? Me ver perder o controle? Se enfiar na minha cama? Ou isso é algum tipo novo de penitência, achando que se entregar pra mim ia lavar a sua sujeira?”

“Eu não fiz nada! Foi o Benjamin, foi ele que preparou, eu juro que não sabia!” Caroline gritou, se debatendo.

“Acreditar em você?” Ele riu sem humor, o olhar ficando mais sombrio. “Caroline, o que você tem que me faça acreditar? Essa cara parecida com a da Edith? Esse corpo que me dá nojo?”

Os dedos dele passaram pela bochecha dela e deslizaram pelo pescoço, parando no primeiro botão da blusa.

Os olhos de Caroline se arregalaram, horrorizados.

“Não… não… Alexander… por favor…” A voz dela falhou.

Mas o pouco de contenção que ainda restava nele tinha sido queimado pela droga e pela raiva.

“Você que trouxe isso pra si.”

O tecido rasgou sob as mãos dele, deixando Caroline exposta sob o olhar febril dele.

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