
A Noiva Substituta Punida
Sophie Langston · Concluído · 372.1k Palavras
Introdução
Ele se casou comigo só para me torturar — para me fazer pagar por uma vida que eu nunca vou conseguir trazer de volta. O ódio dele é o meu pão de cada dia; o toque dele, o meu veneno lento.
Eu queria morrer. Ele nem isso deixou.
Mas, esta noite, alguém enfiou um passaporte nas minhas mãos. Uma passagem de avião. Uma chance de sumir.
E um aviso sussurrado: ele já tem um pajé esperando. Ele quer prender a sua alma para que você nunca encontre paz. Para que nunca mais veja a sua irmã.
Eu preciso fugir.
Mas, se eu fugir... estou me salvando — ou entrando direto em outra armadilha?
Capítulo 1
Caroline Neville sonhou com aquilo de novo — o dia em que a irmã morreu ao se jogar na frente de uma bala para protegê-la.
O vestido branco de Edith Neville estava encharcado de sangue, e o corpo dela desabava nos braços de Caroline, leve como se não pesasse nada.
— Caroline… me promete… que vai viver — a voz de Edith era tão fraca que mal passava de um sussurro. O sangue escorria pelos lábios pálidos, e cada palavra lhe arrancava o ar. — Continua amando o Alexander por mim… e pelos nossos pais…
— Não fala isso — Caroline apertou a irmã com mais força, chorando tanto que mal conseguia respirar. — Você vai ficar bem… tem que ficar bem…
Ela se odiava — odiava ter fugido quando soube que Alexander tinha pedido Edith em casamento.
Se ela não tivesse saído correndo, num pânico egoísta, Edith não teria ido até o cais para procurá-la. Não teria sido pega no fogo cruzado de um tiroteio da máfia.
A culpa era toda dela.
Edith forçou um sorriso quebrado, a respiração ficando cada vez mais fraca.
— Caroline… eu sei… você sempre… amou ele…
— Não! Eu não amo ele! — a negação de Caroline saiu num grito desesperado, como se berrar pudesse apagar a culpa.
Mas o sangue não parava, e as mãos de Caroline tremiam sem controle.
— A ambulância já está vindo… aguenta só mais um pouco… eu ainda quero te ver casar com o Alexander…
— Caroline… me promete… — Edith tentou levantar a mão para tocar o rosto de Caroline, mas, no meio do caminho, ela despencou pesada de volta.
Os olhos que antes guardavam galáxias inteiras se apagaram.
— Edith! Eu prometo! Eu prometo qualquer coisa!
Caroline acordou gritando, o peito se fechando com tanta violência que ela achou que ia vomitar.
O suor encharcava a camisola. Ela se encolheu na cama, os punhos travados nos lençóis até os nós dos dedos ficarem brancos.
O mesmo sonho. De novo. Havia cinco anos que ele a caçava, noite após noite.
Ela se levantou e foi até o armário de remédios. Dentro, os frascos estavam alinhados em ordem perfeita.
Desde a morte de Edith, Caroline vivia com uma depressão severa e não conhecia uma única noite de sono de verdade.
Ela engoliu dois antidepressivos, depois três comprimidos para dormir. As pílulas ficaram presas na garganta, e o amargor se espalhou.
— Dra. Neville?
A assistente dela, Lina, estava na porta do quarto, a preocupação estampada no rosto.
Ontem, Caroline tinha desmaiado no consultório, e Lina tinha insistido em ir até ali para ver como ela estava.
— Você teve o pesadelo de novo? — a voz de Lina era suave.
Caroline assentiu, rouca.
— Quanto tempo eu dormi?
— Uns cinco minutos — Lina baixou os olhos. — Ainda menos do que ontem.
Caroline conseguiu esboçar um sorriso vazio. Talvez piorar fosse uma bênção — significava que ela podia ver Edith sorrindo nos sonhos, enganar a si mesma e acreditar que a irmã ainda estava viva.
— Você precisa diminuir os remédios pra dormir. Misturar assim é perigoso… — Lina tentou argumentar.
— Não importa. — O olhar de Caroline se perdeu na noite da cidade além da janela, os olhos sem brilho. — Eu devia ter morrido faz tempo.
— Não fala isso! — os olhos de Lina marejaram.
Houve um tempo em que Caroline tinha sido a psicóloga mais brilhante de Grandhaven — confiante, gentil, cheia de vida.
Ela tinha tirado incontáveis pacientes do desespero, mas não conseguiu se salvar.
Agora não passava de ossos, as bochechas fundas, sobrevivendo a cada dia à base de remédio só para se manter consciente. Uma casca, com a alma raspada por dentro.
Aquela tragédia tinha roubado a vida de Edith e estrangulado o espírito de Caroline.
Lina hesitou.
— No noticiário disseram… que o sr. Hamilton volta amanhã.
A mão de Caroline apertou o frasco de comprimidos, embora a voz permanecesse calma.
— Ele não me contou.
O mundo inteiro sabia dos movimentos de Alexander, o chefe da máfia — menos a esposa dele.
—“Talvez… talvez tenha sido uma decisão de última hora”, sugeriu Lina.
—“Não importa.” Caroline balançou a cabeça. “Ele não vai me ver.”
Depois que Lina foi embora, Caroline caminhou até a janela.
A cobertura era a casa dos sonhos da Edith — ela vivia dizendo que queria ver dali o horizonte de Grandhaven com o Alexander.
Então Caroline gastou até o último centavo que tinha para comprar aquele lugar. Como casa de casamento.
As lágrimas escorreram pelas bochechas dela, em silêncio.
“Edith… você consegue ver? Eu finalmente me mudei para o lugar que você queria. Eu só não consegui ganhar o coração do Alexander pra dividir isso comigo. Sinto tanta falta de você.”
Na manhã seguinte, Caroline foi ao mercado. Comprou trufas brancas frescas, laranjas-sangue, alecrim — tudo o que o Alexander mais gostava.
Ela sabia que ele não viria comer, mas mesmo assim cozinhou.
Cozinhar era a alegria da Edith.
Ela adorava testar receitas e dar a Caroline a primeira prova.
Se Caroline dissesse que estava bom, Edith fazia uma porção extra para o Alexander.
Com o tempo, Caroline decorou cada sabor de que o Alexander gostava.
Ela assou uma focaccia de alecrim, preparou uma salada de laranja-sangue com azeite, arrumou a mesa com cuidado e, então, se sentou para esperar.
Acabou cochilando à mesa.
O barulho da porta se abrindo a acordou.
Alexander estava parado na entrada, tão alto que quase encostava no batente.
O casaco cinza-escuro estava aberto, a gola da camisa desabotoada revelando a tatuagem de um falcão na clavícula.
Ele cheirava a álcool; o cabelo castanho estava despenteado; os olhos, cansados e vazios.
Caroline foi em silêncio até a cozinha e voltou com uma tigela de sopa quente para cortar o efeito da bebida.
Ela colocou a tigela na mesinha de centro, diante dele.
Alexander virou o rosto. O olhar dele encontrou o dela — e ódio inundou seus olhos.
Ele varreu a mesinha com o braço, derrubando a tigela no chão. O caldo quente espirrou no braço de Caroline, levantando bolhas na mesma hora.
—“Guarda isso, Caroline. Esse teatrinho me dá nojo.” A voz dele era gelo e veneno. “Por que foi você que sobreviveu? Por que não foi ela?”
Caroline mordeu o lábio. Não chorou; não gritou. Pegou um pano, se ajoelhou e começou a recolher os cacos.
Um pedaço de cerâmica cortou seu dedo. O sangue brotou.
Ela puxou o ar.
Alexander agarrou o pulso dela, apertando forte o bastante para esmagar os ossos. Puxou Caroline para cima e a empurrou no chão.
—“Esse cortezinho dói? A Edith sangrou por sua causa! Você lembra quanto sangue ela perdeu?”
Caroline baixou os olhos, o peito doendo tanto que ela mal conseguia respirar.
Ninguém entendia o desespero dela melhor do que ela mesma. Todos os dias, ela desejava que tivesse sido ela.
Alexander rasgou as roupas dela, a voz tremendo de fúria. —“Como você pôde tirar tudo dela? A casa, os sonhos, o homem dela?”
—“Eu não…” A negativa de Caroline foi pouco mais que um sussurro.
—“Tirou, sim!” O rugido de Alexander veio áspero. “Você fugiu naquele dia sabendo que ela ia atrás de você! Você armou pra ela morrer no seu lugar, não foi?”
—“Não… não…” As lágrimas escorreram pelo rosto dela.
Ele não ouviu. Ou não se importou.
Ele a tomou com brutalidade, sem um pingo de ternura.
A dor se espalhou pelo corpo de Caroline, mas não era nada comparada ao tormento por dentro.
Caroline fechou os olhos e deixou que ele a usasse, pensando: Edith… me perdoa. Eu não consegui cuidar do Alexander, e agora deixei ele com raiva de novo. A culpa é minha. Eu não tenho perdão.
Quando acabou, Alexander se vestiu sem olhar para ela.
—“Se o seu rosto não parecesse com o dela, eu me sentiria imundo por encostar em você.”
Ele foi embora, batendo a porta com força.
Caroline ficou encolhida no chão frio, tremendo. A doença era uma mão negra apertando o coração dela cada vez mais.
A respiração ficou rasa, a visão começando a escurecer. A ideia de pôr fim em tudo voltou.
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