The Weave.
Quando as linhas brilhantes do mapa me levaram ao Auditório A, a sala já estava cheia. Dezenas de estudantes preenchiam as fileiras em níveis, uniformes impecáveis, suas vozes zumbindo como uma colmeia enquanto faíscas de magia cintilavam nas pontas dos dedos ou pairavam preguiçosamente sobre pergaminhos. Meu estômago se apertou enquanto eu examinava a sala. Claro. O único assento vazio estava no fundo. Subi os degraus de dois em dois, minha mochila batendo contra meu quadril, e deslizei para o assento sem hesitação. O garoto ao lado levantou o olhar no momento em que me sentei. Ele era todo ângulos afiados e sorrisos de canto, com cabelo escuro e desgrenhado que parecia uma arma por si só, e as laterais raspadas rente à cabeça. Seus olhos, castanho-escuros com um estranho brilho avermelhado, captavam a luz como brasas fumegantes. Havia um brilho de travessura ali, ousado e desavergonhado. Ótimo. Exatamente o tipo de garoto com quem eu não queria lidar. Joguei minha mochila na mesa, mantendo a cabeça baixa, ignorando-o completamente. Seu sorriso só se alargou, mas ele não falou. Ainda.
A porta na frente do auditório rangeu ao se abrir, e um silêncio varreu a sala. Uma mulher alta entrou, suas vestes prateadas captando a luz como ondas na água. Seu cabelo era branco como osso, trançado até as costas, e sua pele brilhava levemente com escamas ao longo das maçãs do rosto. Seus olhos, afiados e vítreos, eram de um tom estranho de azul-petróleo pálido.
“Bom dia e bem-vindos de volta a mais um ano,” ela disse, voz calma, mas autoritária. “Eu sou a Professora Elara Vey, para aqueles que não me conhecem, e serei sua instrutora de Teoria Arcana.”
O título lhe caía bem. Vey se movia como alguém que tinha séculos enroscados nos ossos. Quando chegou à frente, colocou uma mão no púlpito. Magia cintilou levemente em seus dedos, o ar crepitando enquanto a madeira respondia ao seu toque.
“Vamos começar,” ela continuou, examinando a sala com olhos que não perdiam nada. “Teoria Arcana não é sobre como você lança magia, mas sobre por que a magia se comporta da forma que ela se comporta. Todos vocês a utilizam, sim, mas poder sem compreensão é uma lâmina nas mãos de uma criança.”
O garoto ao meu lado soltou uma risada baixa, e eu senti seus olhos em mim. Mantive os meus fixos na professora.
“Primeiro,” Vey disse, agitando a mão. Uma trama luminosa de luz surgiu no ar, preenchendo a frente da sala. Fios de ouro e azul se entrelaçavam como uma teia de aranha, pulsando levemente. “Esta é a Trama. Ela liga todas as coisas: o ar que você respira, o chão que você pisa, até mesmo os pensamentos na sua cabeça. Magia não é criada, é extraída da Trama.”
Os estudantes escreviam furiosamente. Eu apenas olhava, tentando não ficar boquiaberta.
“Cada raça mágica tem uma conexão diferente com ela,” ela continuou. “Metamorfos puxam instintivamente de suas linhagens, bruxas através de feitiços falados, fadas através de barganhas e juramentos. Bruxos...” seus olhos se voltaram para um grupo deles na primeira fila, “são muito parecidos com as bruxas. E videntes, é claro, vislumbram o fluxo da Trama para o que pode ser.”
Engoli em seco. Nenhuma menção aos sifões. Nenhuma dica de que alguém como eu sequer existia.
A voz de Vey se intensificou. “Mas a Trama não é infinita. Cada fio puxado tem um custo. Use demais, e você se queima. Dobre-a da maneira errada, e ela se rompe com consequências.”
Ela deixou isso no ar por um momento antes de fechar a mão. A trama de luz colapsou em uma única faísca brilhante, pairando acima de sua palma.
"Isso," ela disse suavemente, "é Teoria Arcana. Entender não apenas o dom que você possui, mas o custo que ele exige."
A sala estava em silêncio. Dezenas de olhos arregalados, penas escrevendo freneticamente, e faíscas de magia inquieta.
Ao meu lado, o garoto com cabelo preto desgrenhado se inclinou apenas o suficiente para que sua voz roçasse meu ouvido. "Parece que você já está tomando notas, perdido. Não achei que você se importasse."
Eu me retessei, apertando mais forte minha caneta. Notas? Não. Mas eu estava ouvindo cada palavra, porque se o Conselho pensava que me possuía, eu precisava saber exatamente para que eles planejavam me usar.
A professora Vey deixou a faísca pairar acima de sua palma por um longo momento, a luz azul-pálida projetando sombras nítidas em suas feições feéricas. Então, ela estalou os dedos, e a faísca disparou para cima, tecendo-se em um fino fio de ouro brilhante.
"A maioria de vocês," ela disse, "acredita que a magia é sua. Que ela reside dentro de vocês, esperando para ser dobrada à sua vontade."
O fio engrossou em uma corda, esticando-se tensa entre suas mãos. "Mas, na verdade, vocês a emprestam. Vocês tiram da Trama, e devem um preço por isso."
Com outro movimento brusco de sua mão, a corda chicoteou para fora na forma de uma lança. A energia vibrou pelo salão, aguda e elétrica, e os pelos dos meus braços se arrepiaram. Os alunos se inclinaram para frente, de olhos arregalados, encantados.
"Agora," Vey murmurou, sua voz quase suave demais para ser ouvida, "o que acontece quando você toma mais do que pode pagar?"
Ela lançou a lança através da sala. Ela atingiu a parede de pedra com um estrondo que fez os bancos tremerem. Suspiros e risadas nervosas se espalharam pelos alunos até que a lança voltou como um elástico, batendo no peito de Vey com força brutal. O impacto fez faíscas estalarem pelo seu corpo, iluminando suas vestes em um brilho de fogo azul. Ela cambaleou um único passo, mas seu sorriso afiado nunca vacilou. Com um movimento, as chamas se apagaram, deixando apenas fumaça se enrolando no ar.
Um silêncio caiu. Daqueles que arrepiam a espinha e dizem que isso não era um truque de salão.
"Isso," ela disse friamente, espanando poeira imaginária da manga, "é a resposta da Trama à arrogância. Quanto maior o roubo, maior a retaliação. A história está cheia de cadáveres de tolos que se achavam maiores do que a lei que nos rege a todos."
Meu aperto na caneta se intensificou, os nós dos dedos brancos. Porque se o que ela disse era verdade, então como diabos eu sobrevivi sifonando todos esses anos?
Uma mão se levantou perto da primeira fila.
"Como isso se aplica a nós?" ele perguntou, sua voz ecoando facilmente pelo salão. "O poder dos metamorfos vem do sangue, não de alguma... rede mágica no céu."
Um murmúrio se seguiu, metade da classe acenando em concordância.
A expressão da professora Vey não mudou. Se alguma coisa, a curva sutil de seus lábios se acentuou. "Uma pergunta justa. E você está correto, os metamorfos não conjuram no sentido tradicional. Sua magia está ligada à medula, escrita na própria linhagem. Vocês são a Trama feita carne."
O garoto estufou o peito como se ela o tivesse elogiado.
"Mas, vocês não estão isentos. A Trama ainda os governa. Cada transformação, cada surto de força ou velocidade aprimorada, é um fio que vocês puxam. Forcem demais, com muita frequência, e até mesmo seu sangue os trai. A besta consome."
Então, até mesmo os metamorfos poderiam se esgotar. A Trama realmente não dava a mínima para qual espécie você era, ela sempre exigia sua parte.
