Capítulo 3 3
A tempestade havia chegado em algum momento depois da meia-noite.
A chuva açoitava as janelas, o ritmo constante ecoando pelo espaço silencioso do quarto de casal. Eu estava deitada de lado, de olhos abertos.
O sono já havia me abandonado há muito tempo.
A cama parecia imensamente larga, o espaço ao meu lado, intocado e frio. Eu ainda conseguia visualizar Elias parado à porta no início da noite, com o casaco na mão, dizendo que tinha uma reunião. O som da porta se fechando atrás dele perdurou muito tempo depois de sua partida. Agora, enquanto os trovões retumbavam ao longe, eu não conseguia deixar de me perguntar se ele ainda estava mesmo na cidade — ou se tinha ido até ela.
Willow.
Apenas o nome já era suficiente para fazer meu peito apertar.
Virei-me de barriga para cima, pressionando as palmas das mãos contra o ventre. A única luz vinha do brilho suave do abajur, sua tonalidade dourada lançando longas sombras pelas paredes. Meu olhar vagou até a minha bolsa sobre a poltrona, com o ultrassom dobrado escondido lá dentro.
Uma nova vida. Um segredo.
E, no entanto, à medida que a tempestade lá fora ficava mais violenta, eu só conseguia pensar no passado.
Eu tinha dezoito anos na época, recém-saída do ensino médio e ajudando minha mãe na casa de Paul Sinclair durante o verão antes da faculdade. Minha mãe havia trabalhado como assistente de Paul por quase uma década e frequentemente me levava junto quando a saúde do senhor começou a se debilitar.
Paul tinha sido bondoso desde o primeiro dia em que o conheci. Amável, perspicaz, infinitamente paciente. Ele me tratava como a filha que nunca teve, brincando com o meu jeito quieto e minha curiosidade de olhos arregalados.
— Você vai deixar alguém muito nervoso um dia com esses olhos grandes, Maya — ele havia brincado uma vez enquanto eu arrumava os livros em seu escritório. — Só tenha certeza de que ele vale a pena.
Eu ri, com as bochechas coradas, sem nunca lhe contar que a pessoa que me deixava nervosa já existia.
Elias Sinclair.
Eu o conheci pela primeira vez aos dezesseis anos, uma estudante tímida acompanhando minha mãe em uma visita de fim de semana. Elias estava em casa, de volta da faculdade, alto e confiante, com um carisma discreto que o fazia parecer mais velho do que realmente era. Ele estava com dois amigos naquele dia — Kellan, de lábia rápida e charmoso, e Willow Hart, linda e naturalmente radiante.
Passei a maior parte daquela tarde escondida atrás de um livro, lançando olhares furtivos sempre que achava que ninguém estava vendo. Elias tinha sido educado, oferecendo-me um sorriso gentil e algumas palavras antes de se voltar para os amigos. Ele me tratou como uma criança, e talvez eu fosse uma na época. Mas aquela breve gentileza havia despertado algo que eu não compreendia.
Com o passar dos anos, esse sentimento se transformou em amor. Eu acompanhava suas conquistas de longe, lendo sobre seu trabalho em revistas, ouvindo histórias contadas por Paul. A cada vez, minha admiração aumentava. Elias era tudo o que eu achava que queria. Calmo, capaz, determinado. O tipo de homem que parecia inalcançável.
Então tudo mudou.
A doença de Paul surgiu sem aviso. Em um momento ele estava cheio de vida, no outro, estava sentado atrás de sua mesa, pálido e cansado.
— Não me resta muito tempo — disse ele em voz baixa. — O câncer está além de qualquer intervenção médica.
Eu o estava ajudando a organizar seus laudos médicos quando ele me contou. Os papéis haviam escorregado das minhas mãos. A partir daquele dia, eu o visitava quase diariamente. Eu lhe levava chá, ajudava com os remédios e o escutava quando falava de seus três filhos.
— Elias me preocupa — confidenciou ele certa tarde. — Ele é brilhante, mas vive rápido demais. Desapegado demais. Ele acha que a vida pode ser administrada como uma empresa, mas não pode.
Eu dei um sorriso suave.
— Ele vai encontrar o equilíbrio dele algum dia.
Paul me olhou com um carinho gentil.
— Ele encontraria, se tivesse alguém como você ao seu lado.
Eu ri, sem graça, sem jamais imaginar que ele estivesse falando sério.
Semanas depois, Paul chamou a mim e a Elias ao seu escritório. Eu ainda conseguia me lembrar do som suave da chuva caindo lá fora, do cheiro de papel e remédio no ar.
Paul estava sentado atrás de sua mesa, frágil, mas sereno. Elias estava ao meu lado, com as mãos nos bolsos e uma expressão tensa.
— Não vou perder tempo — disse Paul. — Quero ver você casado, Elias. E quero que sua esposa seja a Maya.
As palavras me atingiram como um trovão.
Meu coração parou.
— Sr. Sinclair, o senhor não pode estar falando sério.
— Estou, sim — ele disse com suavidade. — Você sempre foi como parte da família para nós, Maya. Você tem um bom coração, e confio em você mais do que em qualquer pessoa. Quero ter a certeza de que meu filho estará nas mãos de alguém que cuidará dele muito depois de eu partir.
A reação de Elias foi imediata.
— Não — disse ele, com o tom ríspido. — Não posso me casar com ela só porque você quer.
O olhar de Paul não vacilou.
— Você não precisa amá-la logo de cara. O amor cresce de maneiras inesperadas.
— Não é assim que as coisas funcionam — Elias respondeu, tenso.
Eu tive vontade de pedir a Paul que parasse, de dizer que eu entendia, que Elias não me amava e nunca me amaria. Mas, quando vi as mãos trêmulas de Paul e sua força se esvaindo, fiquei em silêncio.
Depois daquele dia, tudo mudou.
Elias se tornou distante e seco, sua educação tão afiada que chegava a cortar. Ele me evitava e, quando não conseguia, falava comigo o mínimo possível. O calor que eu um dia vira nele havia desaparecido.
Eu implorei a Paul que reconsiderasse, mas ele apenas deu um sorriso triste.
— Você vai ver — ele disse. — Ele só precisa de tempo.
Então, no fim de uma tarde cinzenta, Elias apareceu à minha porta.
Ele ficou ali, sob a luz da varanda, com a água da chuva pingando de seu casaco e um olhar indecifrável.
— Maya — ele disse em voz baixa —, você aceita se casar comigo?
Eu fiquei olhando para ele, com o coração acelerado. Não havia anel, nem qualquer suavidade em sua voz, apenas determinação.
Eu disse sim. Não porque achasse que isso faria com que ele me amasse, mas porque eu não suportaria decepcionar Paul em seus últimos meses de vida.
O casamento foi pequeno, quase sombrio. Paul assistiu de sua cadeira de rodas, com lágrimas brilhando nos olhos. Eu ainda me lembrava da maneira como ele apertou a minha mão após a cerimônia, sussurrando: "Obrigado."
Elias foi educado, mas distante, mesmo no dia do nosso casamento. Seu sorriso foi forçado; seu toque, formal. Eu dizia a mim mesma que não importava, que o amor poderia vir depois. Que, um dia, ele talvez olhasse para mim da mesma forma que costumava olhar para Willow.
Mas agora, deitada e acordada, ouvindo a chuva martelar contra as janelas, eu sabia o quanto estava enganada.
Elias havia cumprido o seu dever. Havia realizado o último desejo do pai. Mas, ao fazer isso, construiu um muro entre nós.
Uma lágrima escorreu pela minha têmpora, desaparecendo no travesseiro. Virei-me de lado, com os olhos fixos na janela escura, onde a chuva escorria formando caminhos prateados. Minha mão foi instintivamente para a minha barriga.
— Paul — sussurrei na quietude —, queria que você estivesse aqui. Não sei como consertar o que restou de nós.
Lá fora, um trovão ecoou novamente, longo e abafado, dissipando-se no silêncio.
Do lado de dentro, fechei os olhos, ouvindo a chuva e a dor de um coração que ainda amava um homem que nunca havia sido verdadeiramente meu.
