Chapter 2

Diana levou a pasta para casa dentro da bolsa, prensada contra o corpo como se fosse um orgao transplantado que pudesse ser rejeitado a qualquer segundo. Marcelo dirigiu em silencio. A chuva batia no parabrisa do SUV, e as luzes da BR-101 riscavam o rosto dele em faixas amarelas.

Eles moravam num sobrado em Balneario Camboriu, escolhido por Helena, decorado por Helena, fotografado por Helena para uma revista local que chamara a casa de "refugio do jovem casal empreendedor". Diana nunca se sentira refugiada ali. As paredes claras devolviam eco. Os vasos eram bonitos demais para serem tocados. Ate as fotos de casamento pareciam ter sido penduradas para provar a alguem que a familia Varela sabia produzir felicidade.

Marcelo deixou as chaves na bancada.

  • Voce me constrangeu na frente da minha mae.

Diana largou a bolsa no sofa.

  • Sua mae entrou numa reuniao financeira.

  • Ela e presidente do conselho.

  • Sem registro formal.

  • Pelo amor de Deus, Diana.

Ela respirou. Ainda podia escolher o tom. Ainda podia fingir que era apenas mais uma briga sobre limites. Mas o contrato na bolsa pesava de um jeito especifico.

  • Marcelo, quem aprovou o primeiro financiamento?

  • Eu ja disse. Foi uma operacao normal.

  • Normal com minha assinatura?

Ele tirou o relogio e colocou na mesa de centro, evitando olha-la.

  • Voce esta cansada.

  • Nao responde com diagnostico. Responde com documento.

O maxilar dele se mexeu.

  • Eu nao vou discutir enquanto voce estiver nesse estado.

Ele subiu para o quarto. Diana esperou ouvir o chuveiro. Entao abriu o notebook na mesa da sala, conectou a VPN da empresa e acessou a pasta de contratos digitalizados. A senha dela ainda funcionava. Isso era bom. Ou significava que ninguem esperava que ela procurasse ali.

Digitou o CNPJ da fintech no campo de busca. Apareceram quatro documentos. Dois contratos, um aditivo, uma ficha de cadastro. O primeiro financiamento, aquele que ja tinha gerado parcela, estava digitalizado com selo do cartorio, reconhecimento de firma por semelhanca e assinatura dela em tres paginas.

Diana ficou imovel.

A assinatura parecia sua.

Nao era perfeita. O D tinha a curva errada. O segundo traço do Martins descia mais do que ela fazia desde os vinte e cinco anos. Mas para um gerente apressado, para um cartorio acostumado a carimbar pilhas, para um juiz olhando centenas de folhas, seria suficiente.

Ela ampliou a imagem em duzentos por cento.

O nome dela tremia na linha como uma mentira com roupa emprestada.

Por um instante, o ar da sala ficou curto. Nao por medo do dinheiro. Por intimidade violada. Alguem tinha estudado a mao dela. Alguem tinha achado um documento antigo, copiado inclinacao, velocidade, o ponto no i. Nao tinham roubado apenas uma autorizacao. Tinham encenado o corpo dela no papel.

O chuveiro desligou no andar de cima.

Diana baixou os arquivos para um pendrive pequeno que guardava no chaveiro. Depois abriu o cadastro da operacao. Garantia pessoal: Marcelo Varela e Diana Martins Varela. Destino declarado: aquisicao de rastreadores e duas empilhadeiras eletricas. Fornecedor: SulTec Equipamentos Portuarios Ltda.

Ela conhecia todos os fornecedores de equipamento. Nao conhecia a SulTec.

Procurou no cadastro de empresas. A SulTec tinha endereco em Curitiba, capital social baixo e abertura recente. A procuracao bancaria anexada estava assinada por Priscila Nogueira como representante administrativa da Varela Logistica.

Priscila.

Diana fechou os olhos por um segundo. Nao abriu espaco para ciume. Ciume era a isca bonita. Fraude era a faca.

Marcelo desceu de camiseta, cabelo molhado.

  • O que voce esta fazendo?

Ela nao fechou o notebook. Aprendera, em investigacao, que o culpado olha primeiro para a tela quando quer saber quanto voce sabe.

  • Estou vendo minha assinatura num contrato que eu nunca assinei.

Ele parou no terceiro degrau.

  • Diana.

  • Nao fala meu nome como se fosse remédio.

  • Voce deve ter assinado na correria. A gente assina tanta coisa...

  • Eu nao assino garantia pessoal na correria.

Ele desceu devagar.

  • Voce esta acusando quem?

  • Ainda nao acusei. Perguntei.

  • Parece acusacao.

  • Parece defesa.

O rosto dele fechou. Aquele Marcelo, o que surgia quando funcionarios contrariavam metas, finalmente apareceu dentro de casa.

  • Voce precisa entender uma coisa. Essa empresa sustenta muita gente. Motoristas, familias, contratos. Se um documento vira problema porque voce resolveu fazer teatro de auditora, todo mundo perde.

  • Documento falso ja e problema.

  • Nao e falso se a operacao e real.

Diana sentiu a frase entrar no lugar certo. Ele nao negou a assinatura. Defendeu a operacao.

  • Quem assinou por mim?

Marcelo riu baixo.

  • Olha o absurdo que voce esta dizendo.

  • Quem levou ao cartorio?

  • Boa noite, Diana.

Ele foi para a cozinha, abriu uma cerveja e virou as costas. Fim de conversa, segundo ele. Para Diana, inicio de processo.

Ela recolheu o notebook e subiu. No banheiro do quarto de hospedes, trancou a porta e sentou no chao frio. Abriu uma pasta no celular com fotos de exames, recibos e passagens. Havia meses ela arquivava tudo sobre tratamentos de fertilidade porque Helena cobrava resultados como quem cobra entrega atrasada.

A data da assinatura apareceu no contrato: 17 de marco.

Diana rolou a galeria.

No dia 17 de marco, as dez horas da manha, ela estava em Curitiba? Nao. O cartorio era em Itajai. O contrato dizia que ela reconhecera firma ali as 10h42.

As 10h42 daquele dia, Diana estava em Sao Paulo, numa clinica de reproducao humana na Vila Mariana, com uma pulseira hospitalar no pulso, esperando um procedimento depois de uma viagem de onibus noturna. Marcelo nao tinha ido. Helena dissera que "essas coisas de mulher" eram discretas demais para atrapalhar agenda de diretoria.

Ela abriu o PDF do recibo medico. Horario de entrada: 8h15. Horario de alta: 12h30. Nome completo: Diana Martins Varela. Documento: o mesmo CPF.

Seu estomago virou, mas a mente clareou.

A assinatura falsa tinha um defeito que dinheiro nenhum consertava.

Ela estava em outro estado quando supostamente assinou.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo