Chapter 3

Na manha seguinte, Diana foi para a empresa com o rosto lavado, cabelo preso e uma pasta vazia dentro da bolsa. Nao usou perfume. Nao colocou alianca. No caminho, parou numa papelaria e comprou um segundo pendrive, um bloco pequeno e envelopes pardos sem identificacao. A atendente ofereceu nota fiscal. Diana pediu com CPF.

Era habito antigo: quando o mundo começava a mentir, ela fazia o papel contar a verdade.

Na recepcao da Varela Logistica, Priscila falava ao telefone com voz doce.

  • Claro, dona Helena, eu deixo reservado na primeira fila. A senhora nao se preocupe.

Ao ver Diana, baixou o tom.

  • Bom dia.

  • Bom dia.

  • Marcelo pediu para voce passar na sala dele.

  • Depois.

  • Ele disse agora.

Diana parou diante do balcao.

  • Priscila, desde quando voce controla minha agenda?

A gerente piscou, surpresa pelo golpe publico, pequeno mas visivel. Duas assistentes olharam por cima dos monitores.

  • Eu so repasso orientacao da diretoria.

  • Entao repassa de volta: estou fechando documentos.

Diana seguiu para o financeiro. A primeira medida foi simples. Desligou as notificacoes do sistema para nao entregar cada acesso. Depois abriu a pasta de contratos, baixou copias, salvou metadados e fotografou a tela com o celular. Um PDF podia ser apagado. Uma sequencia de evidencias cruzadas dava mais trabalho.

Ela buscou a ata de aprovacao do financiamento. Nao havia. Buscou cotacoes das empilhadeiras. Nada. Buscou nota fiscal de entrega. Nada. A SulTec recebera trezentos e vinte mil reais como "entrada operacional", mas nao entregara equipamento algum.

As nove e vinte, Marcelo entrou sem bater.

  • Voce me ignorou.

  • Estou trabalhando.

Ele fechou a porta.

  • Eu preciso do contrato assinado ate meio-dia.

  • Nao vou assinar.

Por um segundo, ele pareceu nao entender a lingua.

  • Como assim, nao vai?

  • Nao vou assinar novo financiamento enquanto houver contrato anterior com assinatura falsa, fornecedor sem entrega e ausencia de ata.

Marcelo apoiou as duas maos na mesa dela.

  • Voce esta colocando a empresa em risco por orgulho.

  • Nao. Estou me recusando a virar garantia de uma divida que voces esconderam.

  • Voces?

Diana encarou o marido.

  • Voce, quem levou ao cartorio, quem recebeu pela SulTec e quem achou que eu nao ia ler.

A boca dele ficou branca.

  • Cuidado.

  • Eu estou sendo cuidadosa desde ontem.

Ele riu, mas havia suor na testa.

  • Voce nao tem ideia do estrago que pode causar.

  • Tenho. Por isso estou documentando.

Marcelo se inclinou.

  • Se voce fizer escandalo, a historia vai ser simples: diretora financeira perdeu controle, autorizou operacoes, se arrependeu quando os numeros apertaram e agora quer jogar culpa no marido. A cidade conhece minha familia ha trinta anos.

Diana ouviu aquilo com atencao. Nao era ameaca solta. Era roteiro.

  • Obrigada - disse ela.

  • Pelo que?

  • Por me dizer qual historia voces escolheram.

Ele saiu batendo a porta. Cinco minutos depois, o acesso dela ao sistema bancario caiu. O ERP continuou aberto, mas as pastas de contratos passaram a pedir autorizacao de administrador.

Rapido demais. Culpa demais.

Diana pegou a pasta vazia e caminhou ate o arquivo morto, uma sala estreita atras do almoxarifado onde documentos antigos eram guardados em caixas plasticas com etiquetas desbotadas. A Varela digitalizara quase tudo depois da pandemia, mas Diana sempre desconfiara de empresas que jogavam fora papel com pressa. Durante anos, mantivera duplicatas de conciliacao, recibos de entrega, mapas de rota e comprovantes de adiantamento, nao porque esperasse uma guerra, mas porque controle bom sobrevive a diretor ruim.

O arquivo cheirava a poeira e papel umido. Ela acendeu a luz, fechou a porta e procurou pela prateleira de "fornecedores diversos". A SulTec nao existia nos anos anteriores, mas pagamentos falsos costumavam deixar sombra perto de pagamentos reais. Depois de vinte minutos, encontrou uma pasta sem etiqueta, enfiada atras de caixas de pneus.

Dentro havia copias de notas de servico emitidas por empresas pequenas, todas com descricoes genericas: consultoria de rota, apoio operacional, intermediacao portuaria. Valores fracionados. Datas proximas aos pagamentos maiores. Um nome se repetia como contato secundario: P. Nogueira.

Priscila Nogueira.

Diana fotografou tudo. No final da pasta, havia uma folha de cadastro bancario da SulTec, impressa torta, com dados de abertura de conta. Ela esperava ver Marcelo como beneficiario oculto, talvez um primo, um laranja de confiança.

Mas o campo de socios mostrava outro nome.

Helena Regina Varela.

Nao como administradora. Nao como testemunha.

Como sócia cotista de uma empresa que recebia dinheiro de um financiamento assinado em nome da nora.

Diana sentiu um frio organizado correr pelas costas. A sogra nao estava apenas protegendo o filho. Estava dentro da estrutura.

A porta do arquivo rangeu.

Seu Valter, o velho despachante de patio, colocou a cabeca para dentro. Tinha sessenta e poucos anos, pele marcada de sol, camisa azul com o logo antigo da empresa e um molho de chaves preso no cinto. Trabalhava ali desde o tempo do pai de Marcelo e conhecia o som de cada caminhao pelo motor.

  • Dona Diana?

Ela fechou a pasta devagar.

  • Oi, Valter.

Ele olhou para o corredor antes de entrar.

  • A senhora esta procurando a SulTec?

Diana nao respondeu. Em investigacao, testemunha assustada precisava escolher falar.

Valter tirou o bone da cabeca.

  • Entao procura tambem as entradas do armazem tres. Dia dezessete de marco. E melhor a senhora ver antes que sumam.
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