Chapter 4
Diana nao perguntou como Seu Valter sabia. Perguntar cedo demais podia assustar a unica pessoa da empresa que parecia mais preocupada com a verdade do que com o sobrenome Varela.
Ela apenas guardou a pasta dentro do envelope pardo.
- Voce tem acesso ao armazem tres?
Valter soltou uma risada curta.
- Dona Diana, eu tenho chave de porta que o Marcelo nem sabe que existe.
Eles atravessaram o corredor dos fundos sem passar pela recepcao. O armazem tres ficava no limite do patio, perto da area de conteineres refrigerados. Durante o dia, empilhadeiras cruzavam ali em manobras apertadas; naquela hora, o movimento estava concentrado no armazem dois, e o tres parecia adormecido.
Valter abriu uma sala pequena usada para radio e despacho. Na parede havia um quadro de horarios, um monitor antigo ligado ao controle de acesso e uma prateleira com carregadores de comunicador. Ele fechou a porta e puxou uma cadeira para Diana.
- Eu nao sou homem de me meter em casamento dos outros - disse ele. - Mas sou homem de estrada. Quando alguem prepara acidente, a gente nao finge que e curva.
Diana sentou.
- O que voce viu?
Ele conectou um HD externo ao computador.
- Nao foi ver. Foi ouvir.
Na tela, abriu uma pasta com arquivos de audio nomeados por data. Valter explicou que os radios do patio gravavam conversas por seguranca desde um roubo de carga em 2018. Oficialmente, os arquivos eram apagados a cada trinta dias. Na pratica, ele guardava copia de tudo que envolvia armazem tres porque ali ficavam cargas de alto valor e porque, segundo ele, "quando a carga some, o motorista pobre e sempre o primeiro culpado".
Ele clicou em 17 de marco.
O audio chiou. Depois veio a voz de Priscila, baixa, mas clara.
"A firma dela esta no cartorio, Marcelo. Eu ja conferi com a ficha antiga."
Outra voz, masculina, nervosa:
"E se ela pedir copia?"
Marcelo.
O coracao de Diana deu uma batida forte, quase fisica.
Priscila respondeu:
"Ela esta em Sao Paulo hoje. Sua mae disse que ela volta dopada e chorando. Ate perceber, a primeira parcela ja passou."
O som seguinte foi de passos, metal batendo, alguem rindo sem vontade. Entao Helena entrou na gravação como uma faca embrulhada em seda.
"Diana e boa com numero, mas e fraca onde importa. Uma mulher que nao consegue dar um filho ao meu filho nao vai ter coragem de destruir a unica familia que aceitou ela."
Diana ficou muito quieta.
Havia insultos que machucavam no momento. Outros mudavam a temperatura do passado inteiro. Todas as vezes em que Helena levara cha de fraldas alheio para a sala e perguntara, sorrindo, "quando vem o nosso?", todas as vezes em que Marcelo dissera "nao liga para a minha mae", todas as vezes em que Diana se culpara por nao conseguir engravidar, agora se reorganizavam em arquivo criminal.
Valter pausou.
-
Quer que eu desligue?
-
Nao.
Ele deixou rodar.
Marcelo falou:
"A festa resolve. A gente anuncia a reestruturação, tira ela do financeiro com aplauso e coloca a Pri. Se o banco apertar, a responsabilidade tecnica era dela."
Priscila:
"Eu nao quero parecer amante subindo de cargo."
Helena:
"Entao voce vai parecer salvadora. E Diana vai parecer doente, amarga, incapaz. Publico acredita em mulher chorando menos do que em homem calmo."
A gravacao terminou com um apito do radio.
Por alguns segundos, Diana so ouviu o barulho distante de um caminhao dando re. O corpo queria tremer. A mente, nao. A mente abriu gavetas.
- Voce tem o log de acesso desse dia?
Valter assentiu.
- Tenho ate demais.
No monitor, ele acessou o controle de portas. No dia 17 de marco, as 9h58, Priscila entrou no armazem tres. As 10h06, Marcelo entrou. As 10h21, Helena entrou usando cartao de visitante, liberado por Priscila. As 10h37, um homem identificado como prestador externo entrou sem cracha nominal. As 11h12, todos sairam. O cartorio reconhecera a suposta firma de Diana as 10h42.
Era uma linha do tempo quase bonita de tao cruel.
- Por que voce guardou isso? - perguntou Diana.
Valter coçou o queixo.
- Porque seu Alberto, pai do Marcelo, era duro, mas nunca deixava culpar funcionario sem prova. Depois que ele morreu, comecou sumico pequeno. Diesel, diaria, peca. Eu falei uma vez com o Marcelo. Ele disse que velho tinha mania de enxergar fantasma. Entao parei de falar e comecei a guardar.
Diana copiou os audios, os logs e uma captura do sistema em tres pendrives. Um ficou com ela. Um colocou em envelope para Dra. Renata, advogada que conhecera num caso de fraude de seguros e que nunca aceitava documento sem cadeia de custodia. O terceiro, Valter se recusou a entregar.
- Esse fica comigo - disse ele. - Se acontecer alguma coisa com a senhora, eu mando para o jornal.
Diana olhou para ele.
-
Voce sabe que pode perder o emprego.
-
Eu ja perdi coisa pior que emprego por ficar quieto.
Ela nao perguntou. Algumas historias tinham portas que so se abriam por dentro.
Quando voltou ao financeiro, havia um convite dourado sobre sua mesa. "Varela Logistica - 30 anos. Uma noite para honrar o passado e anunciar o futuro." Embaixo, escrito a mao por Helena: "Use algo discreto. A noite sera importante para Marcelo."
Diana virou o convite. No verso, alguem imprimira a disposicao das mesas. Mesa central: Helena, Marcelo, patrocinadores, diretoria, Priscila. Diana aparecia na mesa nove, ao lado de fornecedores secundarios e esposas de convidados.
Nao era descuido. Era coreografia.
O telefone tocou. Marcelo.
-
Voce viu o convite? - perguntou ele.
-
Vi.
-
Minha mae acha melhor voce nao se cansar com preparativos. No jantar, a gente conversa com calma sobre seu afastamento temporario.
-
Meu afastamento?
-
Saude, Diana. Todo mundo sabe que voce passou meses fragil. Nao precisa ser humilhante.
Ela olhou para o envelope com os audios.
- E a Priscila assume?
Silencio. Depois:
- Ela tem sido leal.
Diana quase sorriu.
-
Entendi.
-
So tenta nao transformar a festa numa cena.
No vidro da janela, ela viu seu reflexo: uma mulher que tinham colocado na ultima mesa antes mesmo de enterra-la.
- Claro, Marcelo - disse ela. - A festa e de voces.
Desligou, abriu uma nova pasta criptografada no notebook e nomeou: "Noite dos trinta anos".
O aniversario nao seria o lugar onde eles a enterrariam.
Seria o lugar onde todos ouviriam quem segurou a pa.
