Capítulo 3 A ARMADILHA
Raika
Duas semanas depois.
Eu não me reconhecia mais. Na sala de aula o professor falava de equações e eu só conseguia sentir a língua imaginária de Kevin percorrendo minha pele, descendo pelo pescoço, apertando os seios, entrando entre as pernas. Eu, que sempre fora a aluna excelente, a filha única que tirava dez sem esforço, agora rabiscava o caderno com o nome dele e apertava as coxas uma contra a outra até doer. O desejo era sujo, constante, e crescia cada vez que ele desviava o olhar.
Desde a noite do luau, Kevin corria de mim como o diabo foge da cruz. Eu sabia que ele tinha me visto escondida entre as árvores. Sabia que o choque no rosto dele não fora só vergonha de ser pego — fora o reconhecimento de que a sobrinha olhava para ele com a mesma fome que aquela mulher. Por isso ele não conseguia mais me encarar direito. Chegava tarde, saía cedo, jantava em pé na cozinha e sumia para o quarto antes que eu pudesse abrir a boca.
Eu não desisti. Todas as noites eu tomava banho perto do horário em que ele costumava chegar. Deixava a porta do banheiro entreaberta, saía só de toalha, o cabelo loiro escorrendo água pelas costas, o tecido curto demais cobrindo quase nada. Consegui esbarrar nele duas vezes. Nas duas ele parou no meio do corredor, os olhos cor de mel descendo pelo meu corpo como se estivessem queimando a pele, a respiração presa. Nas duas ele murmurou um “desculpa” rouco e trancou a porta do quarto sem descer para jantar.
Hoje ele não escaparia.
Meus pais tinham ido para uma pousada com amigos. Eu menti com a cara mais limpa do mundo: trabalho enorme para segunda-feira, ia passar o fim de semana na casa da Stefanini. Minha mãe acreditou. Meu pai beijou minha testa e pediu que eu me comportasse. Eu sorri e prometi. Mentira gostosa. Mentira necessária.
Assim que o portão da casa se fechou atrás deles, o silêncio ficou pesado e delicioso. Eu subi, abri a gaveta onde escondia a lingerie preta minúscula — a que comprei escondida depois daquela noite — e me vesti só com aquilo. Sutiã que quase não cobria os seios, calcinha de renda que sumia entre as nádegas. O espelho me devolveu uma imagem que eu mal reconhecia: olhos azuis brilhantes de nervoso e tesão, boca pintada de vermelho vivo, corpo de menina que já não queria ser menina.
Ouvi os passos dele subindo a escada. O coração disparou. Posicionei-me de costas para a porta, perto da cama, e comecei. Tirei uma alça do sutiã, depois a outra, rebolando lento. Os dedos foram ao fecho nas costas. O sutiã caiu aos meus pés. Coloquei as mãos na lateral da calcinha e desci o tecido com uma lentidão cruel, o tecido roçando a pele sensível.
— Caralho…
A palavra saiu baixa, quase um gemido. Eu me virei, as mãos em X cobrindo os seios, o sorriso inocente no rosto.
— Oi, tio. Não sabia que já estava em casa.
Ele estava parado no vão da porta como uma estátua. Os olhos famintos percorriam cada centímetro nu. A mandíbula travada. A mão apertando o batente com força suficiente para deixar os nós dos dedos brancos. Eu retirei as mãos. Os seios ficaram empinados, os bicos duros com o ar-condicionado e com o olhar dele. Dei um passo. Outro. O cheiro dele — madeira, suor de final de expediente, o aftershave que eu já conhecia de cor — me atingiu.
Kevin saiu do transe num sobressalto.
— Desculpa. Achei que não tivesse ninguém.
Virou-se, entrou no próprio quarto e bateu a porta com força. O estrondo ecoou pelo corredor. Eu fiquei nua no meio do meu quarto, o peito subindo e descendo rápido, o calor latejando entre as pernas. Ele fugiu. De novo. Mas a voz dele quando xingou ainda vibrava no ar, e eu sabia que tinha vencido aquela rodada.
Vista a lingerie de novo, joguei por cima um vestido branco solto e absurdamente curto. Se eu me abaixasse um pouco, a bunda ficava completamente exposta. Passei o batom vermelho outra vez, mais grosso, e bati na porta dele.
— Tio… a janta está pronta. Fiz a macarronada que você gosta. Vem antes que esfrie.
A porta se abriu. Kevin apareceu de camisa social ainda abotoada, a gravata frouxa, o cabelo um pouco bagunçado como se tivesse passado a mão nele várias vezes. O olhar desceu até minha boca, travou no batom, desceu mais pelo decote generoso e voltou. Eu sorri, largo, confiante.
— Não estou com fome. Vou sair com uns colegas. Barzinho.
A decepção no meu rosto foi ensaiada, mas o aperto no peito foi real. Eu não podia deixar ele escapar. Não hoje. Não com a casa só nossa.
— Poxa… fiz com tanto carinho. Sua preferida.
Fiz a cara de cachorro abandonado que sempre funcionava com meu pai. Kevin hesitou. Os olhos oscilaram entre minha boca e a porta atrás de mim.
— Tudo bem. Depois do jantar eu saio. Vou só avisar o Pedrão que chego mais tarde.
Ele tirou o celular do bolso. Eu desci em direção à cozinha, mas parei no final do corredor, escondida, o coração martelando. Ouvi a voz dele baixa, tensa:
— Então tá, Pedrão. Não sei direito onde é o bar, mas vou de táxi. Primeiro Bar, não é? Preciso sair de casa… espairecer um pouco. Ok. Até já.
Espairecer. Fugir de mim. A raiva e o desejo se misturaram num calor que subiu pelo pescoço. Eu corri para a cozinha, coloquei os pratos, servi a macarronada fumegante e esperei.
Quando ele entrou, o ar ficou denso.
— Você não ia dormir na casa da amiga? — perguntou, desconfiado, puxando a cadeira.
— Vou. Ela tinha um compromisso mais cedo. A gente se encontra depois. Estou com o tempo estourado, inclusive.
Nossas mãos se tocaram quando eu entreguei o prato. Ele quase deixou cair. O contato foi elétrico, quente, proibido. Eu senti o tremor nos dedos dele. Sentei na frente, cruzei as pernas de propósito, o vestido subindo até a raiz da coxa.
— Pode ficar tranquilo, titio. Sei me cuidar muito bem. Já sou grandinha… acho que você deve ter percebido.
O sarcasmo saiu doce. Pisquei. Kevin parou com o garfo no ar, os olhos presos na minha língua quando eu lambi o lábio inferior, sentindo o gosto do batom. A macarronada escorreu do garfo e caiu direto na calça jeans dele, bem na altura da virilha.
— Que porra!
Ele se levantou num sobressalto. Eu também. Peguei o guardanapo e me abaixei antes que ele pudesse reagir. O tecido branco pressionou o volume duro e quente sob a calça. Eu senti o tamanho, a rigidez, o calor que atravessava o jeans. Meu dedo mindinho roçou de propósito. Kevin soltou um som baixo, quase um gemido engolido. Os olhos dele me encontraram quando eu levantei o rosto. Havia fome ali. Havia raiva. Havia medo.
Ele agarrou meu pulso e afastou minha mão com força.
— Tenho que ir.
A voz saiu rouca, quebrada. Virou-se e saiu da cozinha em passos largos, sem olhar para trás. A porta da frente bateu segundos depois. O táxi deve ter sido chamado ainda no corredor.
Eu fiquei parada no meio da cozinha, o guardanapo ainda na mão, o cheiro da macarronada misturado ao cheiro dele. O coração batia tão forte que eu sentia o eco no ouvido. Entre as pernas a calcinha estava encharcada. Eu apertei as coxas, soltei um gemido baixo e frustrado, e olhei para a porta pela qual ele fugira.
Com os dedos ainda tremendo de tesão e raiva, eu peguei o celular, digitei o nome do bar que ele mencionara e sorri no escuro da cozinha vazia, a respiração quente contra o próprio peito.
