Capítulo 4 MEL DE MENINA
Raika
Fiquei parada na cozinha olhando a porta pela qual ele fugiu. O cheiro da macarronada ainda pairava no ar, misturado ao cheiro dele. Eu esperava — ridícula, eu sei — que ele voltasse, me agarrasse pelos braços, me empurrasse contra a parede e me fizesse mulher ali mesmo. Mas papai Noel não existe e Kevin Dumont preferia fugir para um bar do que encarar o que eu despertava nele.
Peguei o telefone.
— Oi, Stefi. Onde vocês vão hoje? Decidi sair. Me encontro com vocês e a gente decide. Beijo.
Desliguei. O sorriso que nasceu no meu rosto era afiado. Ele achava que ia se livrar de mim? Estava enganado. Primeiro Bar. Eu ia até lá.
Não era santa. Já tinha beijado, já tinha me esfregado em caras, já tinha namorado o suficiente para saber como era o gosto de uma boca quente. Mas nunca quis entregar o corpo inteiro para ninguém. Nunca acordei molhada e com o nome de um homem na língua. Até Kevin. Até a noite em que vi a mão daquela mulher descendo pela calça dele e ouvi o gemido baixo que ele soltou. Desde então os sonhos molhados não paravam. Eu acordava com os dedos entre as pernas, o corpo tremendo, a respiração presa, odiando e amando a mesma imagem.
Vista o vestido vermelho colado que deixava pouco à imaginação. O tecido abraçava os seios, a cintura, a curva do quadril. Salto alto preto com sola vermelha. Maquiagem pesada de balada: olho esfumaçado, batom vermelho vivo, cabelo loiro solto caindo pelas costas. No espelho eu não parecia uma menina. Parecia perigo.
Encontrei o grupo no lugar combinado e convenci todo mundo a mudar o destino.
— Primeiro Bar. Sudoeste. Nunca fomos.
Eles toparam na hora. O táxi nos deixou na porta. O som vazava para a calçada. Luz baixa, cheiro de cerveja e perfume barato.
Procurei com os olhos e o encontrei em menos de um minuto. Kevin estava sentado numa mesa no fundo, uma mulher colada nele, se esfregando sem pudor. A mão dela subia e descia pelo braço dele. Ele sorria aquele sorriso preguiçoso que eu só tinha visto no luau. A raiva subiu quente pelo peito. Que merda de homem não conseguia ficar meia hora num bar sem arranjar alguém para se esfregar?
Hoje eu não ia assistir de camarote. Hoje eu entrava na cena.
A mulher se levantou, beijou a boca dele de leve e sumiu em direção ao banheiro. Eu não esperei. Cruzei o salão com passos firmes, o salto batendo no piso, o vestido vermelho chamando atenção de mais de um olhar. Kevin ergueu a cabeça no exato momento em que eu parei na frente da mesa. A cerveja travou na garganta dele. Ele engasgou.
O amigo ao lado — negro, alto, ombros largos, boca esculpida — bateu nas costas dele rindo.
— O que foi, cara? Engasgando com cerveja? Toma água.
Kevin limpou a boca com o dorso da mão, os olhos cor de mel presos em mim como se eu fosse um fantasma.
— Oi, tio. Que coincidência.
A voz saiu doce, inocente, mentirosa.
O amigo me examinou de cima a baixo sem disfarce.
— Essa é a sua sobrinha?
— É… é sim — Kevin gaguejou, a mandíbula travada.
— Pedrão — apresentou o amigo, já me olhando com interesse aberto. — E essa é minha sobrinha Raika.
Estendi a mão. Pedrão a pegou e beijou os nós dos dedos com lentidão deliberada. O toque foi quente. Eu sorri. Quando olhei de canto para Kevin, o rosto dele estava fechado, as sobrancelhas franzidas, a expressão de quem chupara limão azedo.
Pedrão puxou uma cadeira.
— Senta um pouco. A gente não morde.
Aceitei. O vestido subiu quando me acomodei. Conversa fiada rolou: música, Brasília, o bar. Pedrão era divertido, ria fácil, lançava olhares que não escondiam nada. Kevin ficava em silêncio, os braços cruzados, o olhar indo e voltando entre nós dois como se quisesse matar o amigo só com a força do pensamento.
— Você é muito bonita, Raika — Pedrão disse de repente. — Não parece tão jovem quanto imaginava. Tem papo de gente grande. E fisicamente você não tem cara de menininha.
O elogio me aqueceu por dentro. Eu queria que Kevin ouvisse. Queria que ele parasse de me tratar como se eu ainda usasse laço no cabelo.
— Qual é a sua idade? — perguntei, inclinando o corpo para frente, o cotovelo na mesa, um dedo distraído na boca.
Pedrão engoliu seco.
— A mesma do seu tio. Vinte e seis.
Indiquei Kevin com o queixo. Ele me encarava com os braços ainda cruzados, a expressão dura.
— Claro que sei a idade dele — respondi, a voz baixa, provocadora. — Acho essa idade um charme.
Pedrão tomou a cerveja inteira num gole só. Depois sorriu de lado, jogando charme deliberado, claramente testando o amigo.
— É bom saber. Quem sabe eu não tenho uma chance?
Eu ri, leve, e olhei direto para Kevin enquanto respondia:
— Você é muito gatinho, Pedrão. Mas só tenho olhos para outra pessoa.
O silêncio na mesa ficou denso. Kevin inclinou o corpo para frente, a sobrancelha erguida num desafio claro.
— E se a pessoa não estiver disponível? Ou simplesmente não estiver a fim? O que você faz?
Estralei a língua, balancei a cabeça.
— Tisc, tisc, tisc… Acho que o senhor está muito enganado. — Enfatizei o “senhor” com sarcasmo puro. — Não sou menina bobinha. E a recíproca é a mesma. Eu toquei. Eu senti. Na hora do jantar.
Enquanto falava, deslizei o pé descalço por baixo da mesa. O salto ficou no chão. Meus dedos encontraram a virilha dele, pressionaram o volume que já começava a endurecer. Kevin se remexeu na cadeira, os olhos escurecendo. Senti o pau dele crescer sob a sola do meu pé, quente, grosso, pulsando. Continuei o movimento lento, deliberado, sentindo cada centímetro.
Ele agarrou meu tornozelo sob a mesa e afastou meu pé com força. A mão dele ficou alguns segundos a mais do que deveria, os dedos quentes na minha pele. Depois soltou como se tivesse se queimado.
— Nem sempre tudo é o que parece — a voz saiu baixa, controlada, perigosa. — Você ainda age como se fosse uma menina. Não sabe nada da vida. Homem tem instinto. Às vezes o corpo reage por qualquer estímulo. Isso não significa desejo. Eu sou homem. Desejo mulher. Não menina.
Cheguei mais perto. Nossas bocas ficaram a poucos centímetros. O cheiro da cerveja e do aftershave dele me invadiu.
— Se você quer se enganar, não posso fazer nada — sussurrei. — Mas depois não venha chorar pelo leite derramado. Ou melhor… pelo mel. Porque mel de mulher é bem mais doce.
Passei a língua devagar pelos lábios, como se estivesse saboreando algo proibido. Os olhos dele desceram para a minha boca e ficaram presos ali. A respiração dele saiu irregular. Por um segundo eu achei que ele ia fechar a distância e me beijar na frente do amigo, na frente de todo o bar.
Não beijou.
Eu me levantei. O vestido deslizou de volta para o lugar. Beijei o rosto de Pedrão, bem perto da boca, e saí rebolando em direção à mesa dos meus amigos, sentindo o olhar de Kevin queimar minhas costas o caminho inteiro.
Atrás de mim, a voz de Pedrão chegou clara:
— É, meu amigo, você me disse que era uma menina. Não me falou que era um mulherão.
Olhei por cima do ombro. Pedrão batia nas costas de Kevin, rindo. Kevin estava com as duas mãos na cabeça, os cotovelos na mesa, o olhar desolado fixo no copo vazio na sua frente.
Sentei com meus amigos, pedi uma bebida qualquer e apertei as coxas uma contra a outra sob a mesa. A calcinha estava encharcada. O coração batia tão forte que eu sentia o pulso no pescoço. Eu sorri para ninguém em particular, o gosto do batom vermelho ainda na língua, e murmurei só para mim, a voz baixa e determinada:
Ele pode fugir de casa. Pode fugir do jantar. Mas deste bar ele não foge de mim.
