Capítulo 5 A NAMORADA
Raika
Depois daquela noite no Primeiro Bar eu resolvi dar um tempo. Passei o resto do fim de semana na casa da Stefanini, deixando o titio em paz. Vi ele sair sozinho, sem mulher nenhuma pendurada no braço, e me senti vitoriosa. Pequena vitória, mas vitória. Ele tinha fugido de mim, sim, mas também tinha fugido de qualquer outra. Isso significava alguma coisa.
Eu sabia que não seria rápido. Eu era a sobrinha. Eu era o erro que ele não podia cometer. Mas eu também era paciente. E teimosa. E o que eu queria, eu conseguia. Kevin Dumont ia ser meu. Ia provar cada centímetro do meu corpo e depois se arrepender amargamente de ter demorado tanto.
Dois meses depois eu estava puta da vida.
Ele resistia como uma muralha. Nesses sessenta dias eu o vi pelado três vezes — saindo do banheiro, a toalha baixa demais na cintura, o corpo esculpido ainda molhado, o pau pesado contra a coxa. Ele me viu nua duas vezes: uma quando a toalha escorregou de propósito, outra quando eu “esqueci” de trancar a porta do banheiro. Nas cinco vezes o ar ficou denso, os olhos dele escureceram, a respiração mudou… e depois ele desviou o olhar, trancou a porta e me chamou de mimada e temperamental. Cabeça dura. Homem impossível.
Hoje eu fazia aniversário. Meus pais alugaram um salão badalado, luzes baixas, pista de dança, open bar. Eu escolhi um vestido preto curto, costas nuas, decote profundo o bastante para fazer qualquer homem engolir em seco. Cabelo loiro solto, batom vermelho, salto alto. Eu não queria parecer a aniversariante inocente. Eu queria parecer perigo.
Os convidados foram chegando. Amigos, primos, colegas. Eu sorria, agradecia, dançava um pouco, mas o olho não saía da porta. Kevin demorava. O relógio andava e o peito apertava. Será que ele não viria? Será que tinha medo de me ver de novo depois daquela noite no bar?
Quando a porta se abriu, o coração disparou. Ele entrou com todo o charme de sempre: camisa preta, calça jeans escura, cabelo penteado para trás, barba por fazer. Pedrão ao lado, sorrindo. E do outro lado… uma mulher. Alta, morena, vestido justo, mão entrelaçada na dele.
Que porra.
Ele estava me esfregando outra mulher na cara. Na minha festa. No meu aniversário. A raiva subiu quente, amarga, quase doendo na garganta. Eu saí em direção a eles bufando, o salto batendo no piso como arma.
— Que merda é essa, Kevin?
A voz saiu baixa, mas carregada. Ele parou, os olhos cor de mel se abrindo de surpresa. Pedrão se adiantou rápido, me puxou para um abraço apertado e sussurrou no meu ouvido:
— Parabéns. Não faça isso aqui. Depois vocês resolvem. Mostra que você é superior.
Eu balancei a cabeça, engolindo a raiva só pela metade. Meu pai apareceu atrás de mim, a mão no ombro.
— Que bom que chegou, irmão. Pensei que não viesse.
Abraçou Kevin, depois Pedrão. O olhar curioso foi direto para a mulher.
— E quem é essa bela moça?
Kevin limpou a garganta. O olhar dele me encontrou por um segundo antes de responder.
— Essa é Elena. Minha namorada.
A palavra “namorada” entrou em mim como uma faca. Meu pai apertou a mão dela, minha mãe a abraçou. Elena sorriu educada, estendeu um presente embrulhado para mim.
— Parabéns, Raika. Seu tio fala muito de você.
Eu peguei o pacote sem tocar nela. Sem abraço. Sem sorriso de verdade.
— Obrigada. Fiquem à vontade.
Ela ainda completou, a voz doce demais:
— Seu tio me disse que você era uma menina. Já vi que ele é daqueles protetores que ainda não percebeu que a sobrinha cresceu e virou um mulherão. Você é muito bonita.
Eu olhei para Kevin e soltei um sorriso cínico.
— É… às vezes eu acho que ele é cego.
Virei as costas antes que a máscara caísse de vez. Fui direto para o jardim, sentei num banquinho escuro e abri o presente com dedos trêmulos de raiva. Um ursinho de pelúcia. Rosa. Fofo. Infantil demais.
O ódio subiu tão forte que os olhos arderam. Eu apertei o urso até as unhas entrarem no tecido e depois o arremessei no lixo mais próximo.
— Vacalena — murmurei entre dentes. — Combinou com a cara.
Sequei as lágrimas com a ponta dos dedos, respirei fundo e voltei para a festa. Eu era a anfitriã. Não ia fazer feio. Fui dançar com meus amigos, forçando o sorriso, forçando a alegria. Mas a cada dois minutos meu olhar escapava para a mesa dele. E toda vez que eu olhava, Kevin estava me olhando de volta. A namorada falava, ria, tocava o braço dele, e ele respondia mecânico, os olhos presos em mim.
Eu não sou boba. Comecei a dançar diferente. Mais lento. Mais baixo. As mãos deslizando pelo próprio corpo: cintura, coxas, seios. O vestido subia um pouco a cada movimento. Eu rebolava de propósito, o olhar preso no dele. Vi o desconforto crescer. Ele se remexia na cadeira, apertava o copo, desviava o olhar e voltava a olhar de novo. A mandíbula travava. A namorada notou. Franziu a testa. Ele fingiu que não era nada.
Quando ele se levantou e foi em direção aos banheiros, eu não pensei duas vezes. Saí da pista, o coração martelando, o vestido colado ao corpo suado. Segui o corredor estreito que levava aos banheiros masculinos. O salto ecoava. Eu estava a poucos metros da porta quando uma mão forte me agarrou pelo braço e me puxou para dentro de uma sala escura ao lado.
A porta bateu. A tranca girou. Antes que eu pudesse gritar, Kevin me prensou contra a parede. O corpo dele inteiro colado no meu. Uma mão no meu pulso, acima da cabeça. A outra na minha cintura, os dedos apertando a pele nua das costas. O cheiro dele — madeira, perfume, um pouco de uísque — me invadiu. A respiração quente bateu no meu rosto.
Os olhos cor de mel estavam pretos de raiva e de outra coisa que nenhum dos dois queria nomear.
— O que você pensa que está fazendo? — a voz saiu rouca, baixa, perigosa.
Eu sorri, o peito subindo e descendo rápido demais contra o peito dele. O volume duro da calça jeans pressionava minha barriga. Eu senti. Ele sentiu que eu senti. Nenhum dos dois recuou.
— Dançando no meu aniversário, titio. Ou agora dançar também é proibido?
A mão na minha cintura apertou mais. Os dedos desceram um centímetro, tocando a curva do quadril. Eu arquejei. O som saiu sem eu querer. Kevin fechou os olhos por um segundo, como se estivesse se controlando, e depois os abriu de novo, mais escuros ainda.
— Para com isso, Raika. Você não sabe o que está brincando.
— Eu sei exatamente — sussurrei, inclinando o rosto até nossos narizes se tocarem. — E você também sabe. Por isso trouxe a Vacalena. Por isso me deu um ursinho de pelúcia. Por isso foge toda vez que eu me aproximo. Porque você quer. E odeia querer.
Ele soltou um som baixo, quase um gemido engolido. A mão que segurava meu pulso afrouxou só o suficiente para os dedos deslizarem até entrelaçar os meus contra a parede. O polegar dele roçou a parte de dentro do meu pulso, sentindo o batimento acelerado. Eu levantei o queixo. Nossas bocas ficaram a um sopro de distância. O calor entre nós era insuportável. O vestido preto parecia fino demais. A calça dele, apertada demais.
Do lado de fora, a música da festa continuava. Risadas. Alguém chamando meu nome ao longe. Nada disso importava. Só o corpo dele me prendendo na parede, o pau duro pressionando minha barriga, a respiração irregular batendo na minha boca e o olhar que finalmente, depois de dois meses, parou de mentir.
Kevin inclinou a cabeça. Os lábios quase tocaram os meus. Quase.
A porta da sala tremeu com uma batida forte.
— Kevin? Está aí? — A voz de Elena ecoou do corredor, doce e desconfiada.
Ele recuou como se tivesse levado um choque. A mão soltou a minha. O corpo se afastou. O ar frio invadiu o espaço que ele deixou. Eu fiquei colada na parede, o peito arfando, os lábios formigando de um beijo que não aconteceu, a calcinha encharcada sob o vestido preto.
Kevin passou a mão pelo cabelo, a respiração ainda pesada, os olhos escuros me encarando uma última vez com uma mistura de fome, raiva e medo. Depois virou o rosto, destrancou a porta e saiu sem dizer uma palavra, deixando-me sozinha no escuro com o gosto do quase na boca e o coração batendo tão forte que eu sentia o eco no fundo da garganta.
