Capítulo 6 6- Nunca subestime o poder da conversa fiada

BLAKE

Eu atravesso a multidão em frente aos alojamentos sem diminuir o passo. As pessoas se abrem ao meu redor instintivamente; alguns só se afastam, outros recuam de vez. É uma das vantagens práticas de ser o que eu sou. Ninguém tromba comigo. Ninguém encosta em mim por acidente. Ninguém fala comigo a menos que seja absolutamente necessário. Aliás, acho que ninguém falou comigo hoje até agora. É uma vida silenciosa, se não mais nada.

Meu quarto fica bem no fim do corredor dos calouros, claro que fica. O mais longe possível dos outros. Um exíliozinho simpático. Combina comigo. Tem bastante porta no caminho, uma de cada lado do corredor, espaçadas certinho. Mas nenhuma das portas ao lado da minha tem plaquinha com nome. Acho que ninguém quis dividir parede com um draconiano. Não culpo. Se eu não fosse eu, provavelmente também ia me evitar. Nem que fosse só porque falar comigo é suicídio social.

Destranco a porta e entro. O quarto tem tamanho padrão, nem maior nem mais bonito do que qualquer outro por onde passei. Adeus teoria de “fim de corredor é quarto especial”. Faz sentido. Não que faça diferença. Não vou guardar nada de valor aqui. A segurança da Academia pode até ser impressionante, mas não chega nem perto do suficiente para o tesouro de um dragão. Minha coleção de verdade, as peças valiosas, está segura no meu cofre em casa, enterrada em feitiços tão densos que nem a bruxa ou o usuário de magia mais habilidoso chegaria perto de entrar.

Largo a mochila ao lado da cama. Levo dois minutos para “me instalar”, basicamente porque não trouxe nada comigo além de algumas das peças menos valiosas do meu tesouro, as que gosto de carregar e ficar mexendo quando estou estressado. Acho calmante. São praticamente minhas gemas de emergência.

Ainda falta um tempo até a aula começar, então me jogo na cama e deixo a mente vagar. Meia hora passa em silêncio, um silêncio abençoado, antes de eu finalmente me arrastar para fora da cama e sair.

Eu não sei o caminho até a sala, mas isso não é problema. Calouro metamorfo é ridiculamente fácil de identificar. Ansiedade tem cheiro, um negócio forte, metálico, desagradável, e essas pessoas estão praticamente pingando disso enquanto vagam por aí tentando parecer confiantes.

Os lobos são os mais fáceis de seguir. Andam em bandos, praticamente vibrando em dinâmica de matilha, desviando uns dos outros, trombando de ombro, choramingando, latindo, rindo. Barulhentos. Caóticos. Previsíveis. Eu sigo eles de longe e chego na sala muito antes do professor.

Última fileira. Sempre a última fileira. Não gosto de gente me encarando por trás. É mais seguro assim. Escolho o mesmo tipo de lugar para onde sempre acabo indo: o que tem a melhor visão geral e menos fluxo de gente. Também garante o maior número possível de cadeiras vazias ao meu redor, o que é perfeito para todo mundo.

Cheguei cedo, mas não me incomodo com isso. Me dá tempo para avaliar a sala. Ver os outros entrando aos poucos. Decidir quais são ameaça, quais são inúteis e quais vão se matar para impressionar todo mundo.

As pessoas me evitam por instinto, os olhares escorregando por mim como se eu fosse uma sombra em vez de uma pessoa. Ótimo. Deixa eles. É melhor assim. Mais limpo. Mais simples. Sem expectativas. Sem decepções.

Ainda assim… É meio entediante.

Afasto o pensamento à força. Dou uma olhada no quadro. “Noções Básicas de Metamorfose”. Argh. Perda de tempo. EU sou um metamorfo. Não preciso de aula para me dizer o que eu já sei. Aposto que eu conseguiria dar essa matéria com uma mão amarrada nas costas.

Por que eu me dei ao trabalho de vir pra cá? Tradição, imagino. Meus pais estudaram aqui décadas atrás. Os pais deles antes deles. Uma longa linhagem de dragões Nyvas rondando esses corredores, deixando reputações para trás. Alguém tem que manter a tradição. E não é como se eu tivesse algo melhor para fazer.

Mesmo assim… Um gosto amargo se instala no fundo do estômago. Esse lugar já parece errado. Sem graça. Previsível. Passo a mão pelo cabelo e solto o ar devagar. Talvez eu mude as coisas, crie uma reputação nova para a família e simplesmente vá embora antes do fim do semestre. Talvez até antes.

Nada interessante nunca acontece.

Só que… Talvez esteja acontecendo agora. Porque a sala de repente quase emudece, as conversas minguando numa onda estranha, em cascata. Até os lobos param de se remexer. Só isso já é suspeito.

Levanto o olhar para ver o que chamou a atenção de todo mundo.

E lá está ela.

Alguém está vindo em direção à última fileira. Em minha direção.

Por um momento, eu realmente acho que estou interpretando errado a direção para onde ela está vindo. Ninguém nunca vem até mim de propósito, a não ser que queira alguma coisa. E os que vêm são sempre os mesmos. Caçadores de emoção querendo uma história sobre sobreviver ao dragão, idiotas arrogantes tentando provar alguma coisa, ou pessoas que já decidiram que eu sou o vilão de alguma tragédia pessoal que elas inventaram. Esses gritam de longe, claro, longe o bastante pra não valer a pena correr atrás. Mas essa garota? Ela não é nenhum desses tipos.

Ela parece… nervosa. Sim. Mas não comigo. O nervosismo dela é geral, difuso, como se ela tivesse medo da sala, da atenção, da vida em geral. Não de sentar ao meu lado. É estranho. Mais que estranho. De perto, ela não parece em nada o tipo que se aproxima do perigo. Ela é pequena, com um ar delicado, cheia de curvas suaves e um cabelo dourado cintilante que pega a luz como metal brilhando, algo que o meu lado dragão DEFINITIVAMENTE aprecia. Não há nada de afiado nela. Nada de maldade. Só… suavidade. Inocência. Com certeza não é alguém que sabe quem eu sou.

Desvio o olhar rápido, porque encarar só vai piorar tudo. Eu realmente espero que alguém intervenha, que agarre o braço dela, a puxe para o lado, sussurre algo como “não ele, sua idiota”. Ou talvez ela chegue perto o suficiente para sentir a tensão no ar e dê meia-volta. Mas ela não faz nada disso. Ela vem direto até a minha carteira. Bem ao meu lado.

Ela pigarreia, de leve, educada. Um somzinho suave que definitivamente não combina em nada com estar tão perto de mim.

“Esse lugar tá ocupado?” ela pergunta. A voz dela é amigável. Nervosa. Mas não assustada. Pelo menos não comigo. Essa diferença me atinge mais forte do que deveria. Eu pisco, provavelmente devagar demais, e balanço a cabeça.

“Ótimo!” ela diz, animada, e puxa a cadeira antes que eu possa repensar qualquer coisa.

Por um momento, eu só consigo olhar para a minha mesa, forçando meu olhar a ficar ali. Porque, se eu olhar para ela, eu sei que minha expressão vai entregar coisa demais. Mas não consigo evitar, dou uma olhada de lado. Ela está fazendo a mesma coisa, tentando espiar sem ser óbvia. O efeito quase seria cômico, se não fosse tão… desarmante.

De perto, ela é exatamente a princesa perfeita que parecia quando entrou. Cabelos loiros dourados caindo quase até a cintura, olhos azuis brilhantes, um sorriso cuidadoso, esperançoso, que ela fica tentando manter firme. Tudo nela parece frágil, e mesmo assim ela escolheu o lugar socialmente mais suicida da sala. Aqui dentro, isso significa alguma coisa.

Ao nosso redor, os sussurros começam na hora.

“Ela não sabe”, alguém diz.

“Alguém devia contar pra ela”, outra pessoa responde.

“O que ela tá pensando?”, uma garota sibila.

“Ela é maluca”, um cara resmunga.

— Ela tá morta. Mortinha da Silva. — um dos alunos mais nervosos diz, aflito. Eu desligo. Não é como se eu já não tivesse ouvido pior. Se ela tinha alguma esperança de fazer amigos aqui, sentar do meu lado foi um erro catastrófico. Mas… ela não é burra. Ela deve sentir que tem alguma coisa estranha na sala. Ela deve perceber como as pessoas estão encarando, como o ar mudou quando ela sentou. A qualquer segundo, ela vai juntar as peças. A qualquer segundo, alguém vai aparecer para “salvar” ela do dragão grandão e assustador. A qualquer segundo, ela vai se desculpar sem graça, mudar de lugar, fingir que foi sem querer. Isso não vai durar. Nunca dura.

Só que… ela ainda não se mexeu.

E, pela primeira vez na manhã inteira… eu sinto um fiapo de interesse… Curiosidade.

Fica um silêncio entre a gente, longo o bastante pra eu achar que ela desistiu de puxar conversa. Mas aí ela pigarreia de novo. As mãos estão entrelaçadas embaixo da carteira, os dedos apertando tanto uns aos outros que os nós estão esbranquiçados. Ela tá nervosa. Óbvio. Mas ainda assim não é o tipo de tensão a que eu tô acostumado nas pessoas ao meu redor. Não tem aquela ponta cortante, não tem cheiro de medo, não tem encolhida. Só… nervoso normal. Como se estivesse preocupada em não fazer amigos ou em não achar a sala certa. Ela se vira um pouco na minha direção.

— Oi, meu nome é Alexis. — ela diz, e tem um tremorzinho na palavra. Alexis. Um nome suave, delicado. Combina com ela.

— Eu tô super nervosa de estar aqui. — ela continua, despejando as palavras, como se tivesse medo de perder a coragem se parar.

— Eu só descobri que sou uma shifter faz umas duas semanas, e nem sei de que tipo. — ela acrescenta.

Isso faz eu levantar o olhar de vez. Ela não sabe o que é? Isso é… raro. Muito raro. Quase nunca acontece. A maioria dos shifters mostra algum sinal cedo, instinto, magia, alguma coisa. E os que não mostram? A família geralmente sabe mesmo assim. Linhagens mantêm registros. Não ter nada? Isso é só… improvável demais.

Alexis me observa de perto, perto demais, com aqueles olhos azul-vivo, esperando uma reação que eu não faço ideia de como dar. Eu não digo nada. Não sei o que dizer. Ela hesita por um momento… depois inclina a cabeça e me dá um sorrisinho sincero, mínimo.

— Sua vez — ela puxa.

Minha vez. Como se conversar comigo fosse normal. Como se ela achasse que eu sou capaz de bater papo à toa. Como se esperasse que eu me apresentasse do mesmo jeito que ela acabou de fazer, simples e honesto.

Eu encaro ela. Por mais tempo do que deveria. Por mais tempo do que é educado. Quem é ela? E que tipo de shifter tem olhos assim, cheiro assim, presença assim… e mesmo assim não faz ideia do que é?

Minha boca fica seca e, pela primeira vez em anos, eu não encontro palavras automáticas pra jogar em cima de alguém. Nenhuma frase pronta. Nenhum comentário defensivo. Nada. Porque não tem nada de que me defender. Só um pensamento esmagador.

Ela não é normal. Nem de longe. E não só porque não sabe o que é, embora isso também seja curioso. Mas seja lá o que ela for… eu nunca vi nada parecido com ela.

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