
Como Não Se Apaixonar por um Dragão
Kit Bryan · Concluído · 281.8k Palavras
Introdução
Por isso foi mais do que um pouco confuso quando chegou uma carta com o meu nome já impresso em um horário de aulas, um dormitório me esperando e matérias escolhidas, como se alguém me conhecesse melhor do que eu mesma. Todo mundo conhece a Academia, é onde bruxas aperfeiçoam seus feitiços, metamorfos dominam suas formas e todo tipo de criatura mágica aprende a controlar seus dons.
Todo mundo, menos eu.
Eu nem sei o que sou. Nada de mudança de forma, nada de truque mágico, nada. Só uma garota cercada por gente que consegue voar, conjurar fogo ou curar com um toque. Então eu fico nas aulas fingindo que faço parte daquilo, e escuto com atenção qualquer pista que possa me dizer o que está escondido no meu sangue.
A única pessoa mais curiosa do que eu é Blake Nyvas, alto, de olhos dourados e, com toda certeza, um Dragão. As pessoas sussurram que ele é perigoso, me avisam para manter distância. Mas Blake parece determinado a resolver o mistério que sou eu e, de algum jeito, eu confio mais nele do que em qualquer outra pessoa.
Talvez seja imprudente. Talvez seja perigoso.
Mas, quando todo mundo olha pra mim como se eu não pertencesse àquele lugar, Blake me olha como se eu fosse um enigma que vale a pena decifrar.
Capítulo 1
LEXI
Aniversários significam muita coisa diferente para muita gente. Para alguns, é tudo sobre rasgar papel de presente brilhante ou juntar todos os amigos que já tiveram para uma festa grande e barulhenta. Para outros, marca um marco na vida, o ano em que você finalmente tem idade para dirigir, para beber, para sair de casa, para começar algo novo. De um jeito ou de outro, aniversários normalmente representam mudança, e mudança quase sempre é algo esperado. Você vê chegando, se prepara, às vezes até corre atrás dela. Mas, pra mim? Fazer vinte e três anos parece menos um começo e mais um fim. Eu tô quase terminando minha faculdade de Enfermagem. Três anos exaustivos, sem dormir direito, falta só mais um e aí chega a tal vida real, com toda aquela espera e infinitos currículos enviados, entrevistas constrangedoras e nervoso de primeiro dia. Esse é um problema pra outra hora. Hoje é domingo e, aos domingos, principalmente quando por acaso é meu aniversário, eu não tenho a menor intenção de ser produtiva. Meu grande plano? Ficar enrolada na cama feito um burrito, talvez maratonar alguma coisa bem bobinha, talvez comer bolo. Nada de currículo, nada de planejamento, nada de estresse. Só sossego. Pelo menos, esse é o plano.
Eu viro de lado, me enfiando ainda mais fundo no casulo de cobertores, quando o som mais horrível e estridente rasga o ar. Meu corpo reage antes do meu cérebro, me fazendo sentar de uma vez, o coração martelando nas costelas. Que diabos foi isso?!
Piscando forte, eu examino meu quarto com os olhos pesados, meio dormindo ainda. Nada parece fora do lugar: minha escrivaninha entulhada de coisas, a pilha de roupa suja no canto, o brilho suave da luz da manhã entrando pelas frestas da cortina. Aí o barulho vem de novo, mais agudo dessa vez, acompanhado de um toque, toque, toque alto e bem decidido no vidro da janela. O vidro treme na moldura, me fazendo estremecer. Que coisa doida é essa acontecendo?!
Cambaleando, eu saio da cama, os pés se enrolando no lençol, e atravesso o quarto meio tropeçando até a janela. No instinto, eu agarro um tênis do chão. Nem sei direito pra quê, se eu tô planejando jogar? Balançar no ar como se fosse uma arma ridícula? Tanto faz. O ponto é: tem alguma coisa batendo na minha janela e destruindo a paz da minha manhã de aniversário, e eu tô MUITO longe de achar isso ok. Eu puxo a cortina de uma vez e estreito os olhos contra a enxurrada de luz do começo do dia. Minha expressão de irritação só aumenta. Ali, empoleirada toda certinha no parapeito da janela, como se não tivesse acabado de estourar meus tímpanos, está uma ave preta enorme. Ela fica ali, estranhamente tranquila, as penas brilhantes refletindo a luz, os olhos afiados cravados em mim como se soubesse exatamente o quão perto eu estive de lançar um tênis na cabeça dela.
“Você só pode estar de sacanagem comigo.” Eu resmungo, jogando o tênis de volta no chão e voltando a passos pesados para a cama. Me jogo com derrota teatral e me enfio debaixo dos travesseiros. Meu despertador nem tocou ainda! Deve ser antes das oito, e isso é muito, muito cedo pra lidar com o despertador da natureza. Mas, claro, o passarinho idiota não tá nem aí pro meu sofrimento. Quase no segundo em que eu me ajeito, ele solta outra rodada de gritos estridentes, cada um acompanhado pelo toque-toc-toc do bico batendo no vidro. O som perfura direto o meu cérebro. Dois minutos. Dois minutos inteiros de gritaria agoniante, tipo unha arranhando quadro, depois disso eu surto.
“Chega!” eu rosno, me arrastando pra fora da cama. Marcho até a janela, totalmente decidida a espantar a praga emplumada. Mas assim que chego perto, o bicho se cala de novo e inclina a cabeça pra mim, todo doce. Suspeito. Suspeito demais. É aí que eu vejo. Agarrado firme em uma das garras está… um pedaço de papel. Não, não é só papel, é uma carta dobrada. Meu cérebro dá uma travada. Quem em sã consciência manda carta por passarinho? Isso não existe. Vai ver ele roubou de alguém? Pássaros gostam de catar coisa brilhante, né? Talvez esse aqui tenha adotado furto de correspondência como hobby. Mesmo assim, a curiosidade começa a coçar mais forte do que a irritação. Abro a janela aos poucos, com o cuidado de quem tá desativando uma bomba.
“Calma aí, passarinho, só… não ataca meu rosto”, eu murmuro, baixinho. No instante em que abre espaço suficiente, a criatura se atira pra dentro num turbilhão de asas. Eu dou um grito e me abaixo quando ele entra voando no quarto, rodopiando lá em cima feito um furacão de penas. Meu coração martela nas costelas. Ele tá claramente se divertindo com isso. Ah, com certeza esse pássaro demônio sabe exatamente o quanto tá me deixando em pânico, e tá amando cada segundo! Garras afiadas, bico brilhando, tá, é só um pássaro, mas aquelas garritas têm uma cara de que iam rasgar minha pele rapidinho. Eu me encolho e jogo os braços sobre a cabeça quando ele passa de novo, sentindo o sopro de ar quando mergulha baixo o bastante pra bagunçar meu cabelo. Finalmente, o pássaro solta a carta no chão do meu quarto. Aí, como se quisesse reforçar o recado, passa direto por cima da minha cabeça, tão perto que eu sinto o vento das asas na nuca, antes de disparar de volta pra fora pela janela aberta. Eu corro até lá e bato o vidro com muito mais força do que precisava.
— De jeito nenhum. De novo, não. — Eu encaro o bicho indo embora. Por um momento só fico ali parada, ofegante, a adrenalina ainda zunindo nas veias. Aí meus olhos caem no envelope largado inocentemente no carpete. Pode não ser nada, provavelmente não é nada. Deve ser alguma coisa roubada, alguma coisa aleatória. Mas agora eu tô curiosa demais pra simplesmente deixar pra lá. Pego o envelope e desabo de novo na cama, segurando a carta com cuidado entre os dedos. Meu coração ainda dispara, mas uma faísca de expectativa atravessa a névoa da irritação. Talvez não seja nada. Talvez seja lixo. Ou talvez, só talvez, seja algo interessante. É bom que valha o mini-infarto que esse pássaro acabou de me dar, porque não existe a menor chance de eu voltar a dormir agora!
O envelope parece mais pesado do que eu esperava, o papel é grosso e luxuoso, com certeza não é o tipo de porcaria barata que um pássaro pegaria por engano na caixa de correio de alguém. Passo os dedos pela superfície. Lisa, encorpada, cara. A única vez que já toquei num papel assim foi num casamento, quando algum primo distante mandou uns convites ridículos, em alto-relevo com filigrana dourada. Viro o envelope, sem esperar nada, e então simplesmente travo. Lá está. Meu nome. Alexis Elle. Escrito naquele tipo de caligrafia elegante e fluida que a gente só vê em vídeos de lettering no TikTok ou em filmes antigos. Por um momento, tudo que eu consigo fazer é encarar. Então o pássaro ERA mesmo um mensageiro. E a carta É mesmo pra mim.
— Ótimo, mas por que mandar um pássaro-demônio-saído-do-inferno em vez de, sei lá, o carteiro? Ou um e-mail? Acorda, já é século XXI, gente. — resmungo baixinho, embora eu esteja mais curiosa do que irritada. Esfrego o restinho de areia do sono dos olhos, meio preocupada de ainda estar sonhando, e abro a aba do envelope com cuidado. O papel é bom demais pra rasgar. Parece quase... sagrado. Um cheiro leve de tinta e de alguma coisa doce, tipo flor prensada, sobe quando eu deslizo o conteúdo pra fora. Algo metálico cai no meu cobertor com um tlinque. Uma chave? E não uma chave moderna e sem graça, mas antiga, trabalhada, do tipo que você imaginaria abrindo um baú ancestral ou a porta de um castelo. A superfície brilha prateada, polida mas claramente antiga, o desenho no topo intricado, cheio de curvas. Uma correntinha delicada passa pelo aro, comprida o suficiente pra usar no pescoço. Engulo seco. Um colar. Uma chave. Que diabos é isso? Com os dedos tremendo, puxo a folha dobrada. A letra é igual à do envelope, impecável, elegante e completamente intimidante.
Parabéns, Alexis Elle,
Você foi aceita no Instituto para Seres e Criaturas Mágicas para este ano letivo.
Apresente-se no portão da Academia até, no máximo, às 9h da manhã, na segunda-feira, dia quinze de fevereiro.
Encontra-se em anexo a chave do seu quarto. Alimentação, roupas e todas as demais necessidades serão providenciadas. Traga apenas os itens dos quais você não pode abrir mão.
Estamos ansiosos para conhecê-la e trabalhar com você.
Atenciosamente,
Srta. Sherry Istvan – Diretora
Eu fito a carta, leio de novo e a deixo cair no chão, como se pudesse me queimar. Um segundo depois, já estou me jogando pra pegar de volta, lendo cada palavra como se a mensagem fosse mudar se eu conferisse vezes suficientes. Spoiler: não muda. O Instituto para Seres e Criaturas Mágicas... Eu sei o que é, todo mundo sabe. É a escola de magia mais prestigiada do país, o tipo de lugar onde gente com poder de verdade e magia de verdade estuda. E a regra número um é: nenhuma criatura não mágica é permitida. E eu? Eu sou... humana. Normal. Comum. Pelo menos... eu acho que sou. Mas mesmo que eu não fosse, mesmo que tivesse algum fiapinho de esquisitice em mim, eu nunca me inscrevi! Ninguém simplesmente entra no Instituto. Tem listas de espera que duram gerações. Tem gente que coloca o nome do bebê lá antes da criança engatinhar, só por precaução. O resto? Compra a vaga com tantos zeros no cheque que fariam a minha conta bancária desmaiar. E ainda assim, tá aqui. Uma carta com o meu nome. Uma aceitação. Uma chave. O pânico começa a subir pela minha garganta. Meu coração martela. Isso só pode ser algum tipo de engano. Inspiro fundo, o que não ajuda nem um pouco. Então faço a única coisa natural a se fazer.
— MÃÃÃÃÃÃE! — berro.
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