Capítulo 4

Na noite de domingo, Reginald recebeu um pequeno jantar para alguns responsáveis por admissões de universidades da Ivy League. Era para selar o acordo das candidaturas de aceitação antecipada de Alex e Eve.

Como preço, eu tinha que sumir completamente de vista.

— Absolutamente nada de descer. Nem um passo. Nem pense em nos envergonhar. — Antes de os convidados chegarem, Helen parou à porta do meu quarto, a voz baixa e afiada, em tom de aviso.

— Entendido.

Fechei a porta, sentei na beirada da cama e fiquei imóvel.

Às oito em ponto, música clássica elegante e risadas educadas subiram do andar de baixo.

De repente, a porta se escancarou. Eve entrou carregando um copo de suco de cranberry, vermelho-escuro.

Ela vestia um vestido de noite branco. No instante em que empurrou a porta para fechar atrás de si, o sorriso doce derreteu do rosto, substituído por algo frio e mecânico.

— Sozinha aqui em cima, Melody?

Não respondi.

— Quer saber qual é a parte engraçada?

Ela girou o copo, os olhos fixos em mim. — Eles transformaram você no cachorrinho perfeitamente adestrado naquele inferno, mas ainda acham você nojenta. Um empurrãozinho, e eles jogam você de volta no lixo, onde você pertence.

Antes que eu conseguisse processar as palavras, ela estalou o pulso. O líquido escuro respingou pelo vestido branco num arco violento.

Então ela segurou o copo de cristal com as duas mãos e quebrou a haste com uma torção seca.

Crec. A borda quebrada brilhou como uma lâmina.

Ela me encarou diretamente e arrastou o vidro serrilhado pelo antebraço. O sangue brotou na hora, espesso e vivo. Algumas gotas caíram nas minhas meias brancas.

Antes que eu pudesse me mexer, ela agarrou minha mão e pressionou meus dedos dentro do ferimento.

— O que você está fazendo? — Minha voz saiu plana, vazia.

Ela não respondeu. Apenas sorriu — fria e triunfante — e recuou na direção da escada.

Então a expressão dela se partiu em puro terror.

— Não! Melody, por favor, não...!

Ela gritou e se jogou para trás, despencando pela escada do segundo andar.

O corpo dela bateu em cada degrau com baques nauseantes. Lá embaixo, a música clássica parou de repente.

Suspiros. O grito de uma mulher. Depois o brado de Reginald.

Fui até o patamar e olhei para baixo.

Eve estava caída, encolhida no piso de mármore, o vestido branco encharcado de vermelho, o talho no braço fundo o bastante para mostrar o osso. Um hematoma escuro já se espalhava pela testa.

Ela apertava o braço sangrando, soluçando. — Melody... por quê? Eu só queria trazer suco pra você...

Alex foi o primeiro a chegar até ela, caindo de joelhos e puxando-a para os braços. Quando viu o sangue — o vidro estilhaçado —, ergueu a cabeça num tranco na minha direção. Os olhos dele se fixaram na minha mão. No sangue de Eve manchando meus dedos.

— Sua psicopata! — Ele disparou escada acima e agarrou um punhado do meu cabelo, me arremessando contra a parede.

Meu crânio estalou contra o gesso. Minha visão embaçou. Senti gosto de cobre.

Não fiz nenhum som.

Reginald e Helen tinham sido completamente humilhados diante dos convidados. O médico da família chegou em poucos minutos para cuidar da bagunça.

Depois de forçar sorrisos e conduzir para fora os oficiais de admissão abalados, Reginald subiu as escadas furioso, o rosto contorcido de raiva.

— Que diabos você estava pensando?! — Ele apontou o dedo para o meu rosto, a mão tremendo. — Nós te demos tudo: comida, um teto, te trouxemos de volta daquele lugar maldito... e é assim que você nos retribui?

Lá embaixo, Helen pressionava uma toalha encharcada de sangue contra o braço de Eve, a voz falhando.

— Reginald, manda ela de volta! Agora mesmo! Eu não posso mais ter isso... essa coisa perigosa dentro da minha casa!

— Eu não machuquei ela. — Afirmei com simplicidade, como um fato.

— Mentirosa! Então de onde veio esse sangue?! — A palma da mão de Alex estalou no meu rosto.

Minha cabeça virou para o lado. Mais sangue na minha boca.

— Não fui instruída a dar mais explicações — eu disse, virando o rosto de volta para encará-los. — Não estou autorizada a me defender.

— Cala a boca com essa merda de robô! — Alex estava tremendo agora, furioso e perturbado.

Reginald o empurrou para o lado e encurtou a distância entre nós. Seu peito subia e descia com força. As veias saltavam nas têmporas.

— Eu realmente acreditei que você tinha mudado. — Sua voz falhou com algo parecido com traição. — Toda aquela atuação perfeita na escola, bancando a obediente... você só estava armando tudo, não estava? Esperando o momento perfeito para destruir o futuro de Eve na frente daqueles oficiais!

— Eu não estava fingindo — respondi.

— Eden não consertou nada! — O controle de Reginald se rompeu por completo. — Você é quebrada. Fundamentalmente quebrada. Um defeito que não pode ser reparado. Tudo o que você faz é machucar Eve... machucar esta família!

— Enquanto ela estiver aqui, nós nunca vamos ter paz! — a voz de Helen falhou lá de baixo.

Algo no rosto de Reginald se obscureceu. Ele deu mais um passo à frente, tão perto que eu conseguia ver a fúria e o nojo ardendo em seus olhos.

— Você é um veneno — disse ele, a voz baixando para algo grave e venenoso. — Sua mãe sabia disso. Esta família sabia disso. Você tem sido uma maldição desde o começo.

As mãos dele se fecharam em punhos ao lado do corpo.

— Se nem Eden conseguiu te consertar, então por que você ainda está aqui? Por que você simplesmente não...

Ele se interrompeu. Mas por muito pouco.

Então as palavras rasgaram para fora dele assim mesmo, cruas e sem filtro:

— Por que você simplesmente não desaparece? Só... morre. Se você sumisse, esta família finalmente poderia voltar a ser limpa. Então por que você não faz um favor para todos nós e morre de uma porra de vez!

O silêncio desabou sobre a casa.

Alex congelou. Lá embaixo, o choro de Helen parou. Até eles pareciam assustados com o veneno na voz dele, com a nudez brutal daquilo.

Mas eu entendi.

Em Eden, comandos eram absolutos. Ordens eram sobrevivência. Embora eu já não precisasse mais sobreviver.

— Entendido.

Olhei para Reginald. E, pela primeira vez em semanas, minha boca se moveu num esboço do que poderia ter sido um sorriso. Rígido. Frio. Vazio.

A expressão de Reginald vacilou. Como se, de repente, ele já não tivesse certeza do que acabara de dizer.

Eu me virei e caminhei em direção ao corrimão do segundo andar. Lá embaixo, o piso de mármore brilhava sob a luz do lustre.

— Espera... o que você está fazendo? — A voz de Alex se elevou, agora incerta.

Não respondi.

Coloquei as duas mãos no corrimão e me lancei por cima dele.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo