Capítulo 1 Capítulo Um

As mãos de Kaelani conheciam o ritmo de sovar massa melhor do que conheciam o calor de um toque. O balcão de madeira sob suas palmas estava polvilhado de farinha, e o cheiro fermentado do pão crescendo se agarrava ao ar. Atrás dela, os fornos zumbiam, enchendo a pequena padaria com o perfume reconfortante de açúcar e especiarias. Havia cinco anos, aquele lugar era seu santuário. Uma vida que ela construíra com as próprias mãos — quieta, constante, segura.

— Mais uma fornada de bolinhos de mel com canela? — a voz de Tessa cantou lá da frente, brincalhona como sempre. — Você vai acabar com a minha silhueta se continuar fazendo isso.

Kaelani sorriu de leve, afastando uma mecha de cabelo escuro do rosto.

— Eles são os primeiros a esgotar. Você sabe disso.

— Eles esgotam porque metade dos homens da cidade vem aqui na esperança de você sorrir pra eles enquanto entrega um saquinho — provocou Tessa, alto o bastante para que um cliente desse uma risada ao sair.

Kaelani revirou os olhos, as bochechas esquentando enquanto pressionava os punhos na massa. Era assim que as manhãs costumavam ser: Tessa brincando, Kaelani fingindo que não notava. Era simples. Previsível. Humano.

Kaelani limpou a farinha das mãos no avental e foi até o balcão da frente, o olhar vagando distraído pelas grandes janelas da padaria. Do outro lado da rua, carros pretos e elegantes pararam diante do hotel novo. Homens de ternos bem-passados desceram, polidos e importantes, as vozes carregadas pelo vento de outono.

Um ano atrás, aquele canto não passava de um terreno vazio tomado por mato. Agora o hotel de vidro e aço brilhava como se sempre tivesse estado ali, lançando uma sombra comprida sobre as antigas fachadas de tijolo. Progresso, as pessoas chamavam. Kaelani chamava de problema.

O hotel arrastara a mudança para dentro da cidade como um convidado não convidado — gente de fora com dinheiro demais, conversas sobre expansão, até rumores de uma rodovia cortando bem no meio da zona rural. Não era problema dela, na verdade. Mas a padaria sempre fora um lugar de vizinhos, de moradores, de rostos conhecidos. Agora, ela via mais estranhos atravessando sua porta do que nunca.

Os olhos dela demoraram na fila de homens atravessando o asfalto. Pareciam deslocados ali, sua presença afiada demais, pesada demais para uma cidade tão pequena. Ternos caros, carros caros — homens que pertenciam a salas de reunião em arranha-céus, não diante de uma padaria de esquina na rua principal.

Tessa surgiu ao lado dela, encostando no vidro com um sorriso.

— Ora, ora. Parece que o hotel está valendo a pena. Você tá vendo? Saíram direto de alguma matéria de revista de Wall Street. Meu Deus, eles são lindos.

Kaelani balançou a cabeça de leve, tirando a farinha das mãos.

— Não fazem meu tipo — murmurou, virando de volta para o balcão. Ela não tinha interesse em estranhos que não pertenciam àquele lugar.

Tessa revirou os olhos de forma teatral antes de voltar saltitante para atender um cliente que esperava.

Do outro lado da cidade, um sedã preto serpenteou pela rua principal, atraindo não poucos olhares ao reduzir a velocidade diante do hotel novo. Lá dentro, Julian se recostou no banco de couro, o olhar frio enquanto observava a mistura de prédios antigos de tijolo e construções novas.

— Me lembra o que vem primeiro na pauta — disse ele, com um tom totalmente profissional.

Jace, com as mãos relaxadas no volante, não perdeu o ritmo.

— Negociações de fronteira. Alguns dos Alfas estão pressionando por um controle mais rígido do trecho ao norte. Dizem que o desenvolvimento humano está chegando perto demais das terras da matilha.

A boca de Julian se endureceu.

— E os outros?

— Dois querem vender alguns lotes — fazer amizade com os humanos e encher os próprios bolsos. O resto está dividido. Se a expansão seguir adiante, só a rodovia já vai cortar bem no meio do território neutro. Todo mundo quer uma parte.

Julian soltou um som baixo, sem concordar nem discordar. Típico. Alfas brigando por território enquanto humanos construíam por cima como formigas. Era por isso que o conselho convocara aquela cúpula — e por isso ele não podia se dar ao luxo de se distrair.

O carro diminuiu a velocidade ao entrar na faixa do manobrista do hotel. A estrutura de vidro reluzente se erguia acima deles, polida e nova, um símbolo de tudo o que os humanos estavam construindo ali.

Jace lançou um olhar rápido para ele ao parar. “Eu cuido do check-in. Chegamos cedo o bastante pra ter uma noção de quem já apareceu.”

Julian assentiu uma vez, empurrando a porta para abri-la. No instante em que as botas tocaram o asfalto, uma rajada cortante de vento desceu pela rua. Cheiro de escapamento. Asfalto. Folhas secas e frescas. E, por baixo de tudo — algo quente. Doce. Especiado. Aquilo se agarrava nele como uma mão invisível, puxando seus sentidos.

Ele ficou imóvel, as narinas se abrindo. Do outro lado da rua, uma pequena padaria estava encaixada entre uma loja de antiguidades e uma livraria, com a luz do sol cintilando nos vidros pintados.

“Julian.” A voz de Jace puxou sua atenção de volta, já ao seu lado, entregando as chaves ao manobrista. “A gente devia entrar.”

O olhar de Julian demorou na padaria. Ele não sabia dizer por quê, mas o lobo sob sua pele se agitava, inquieto, como se andasse de um lado para o outro.

“Eu encontro você lá dentro”, disse por fim, num tom que não deixava espaço para pergunta.

Jace arqueou uma sobrancelha, mas não insistiu. Ele sabia melhor do que isso. Com um dar de ombros, virou-se para as portas do hotel, deixando Julian atravessar a rua sozinho.

O sino acima da porta tilintou, estridente contra o zumbido constante da padaria. Kaelani ergueu os olhos da assadeira que estava glaceando; a mão parou no ar quando o olhar se fixou no homem que acabara de entrar.

Alto. Ombros largos. Uma presença que parecia preencher a lojinha sem esforço. O terno escuro desenhava linhas rígidas sobre um corpo feito para o poder, não para salas de reunião. A maneira como ele se conduzia — contido, inflexível, mandão — o separava de qualquer estranho bem-apessoado que ela já tinha visto descer na calçada do hotel.

O peito dela se apertou. Ela tinha crescido perto dos da espécie dele e sabia exatamente o que ele era.

Alfa.

Os olhos de Kaelani dispararam instintivamente para o balcão, procurando Tessa. Mas a amiga estava lidando com um pedido grande para viagem — colocando doces em caixas e servindo vários cafés enquanto um cliente esperava com impaciência — ocupada demais para perceber como o ar parecia ter mudado.

O estômago de Kaelani se contraiu. Ela odiava os da espécie dele — cheios de direito, perigosos, sempre famintos por controle. E agora havia um deles na padaria dela.

No momento em que Julian entrou, o calor da padaria o envolveu, denso de açúcar e especiarias. Aquele cheiro — o mesmo que o arrastara pela rua — rodopiava mais forte ali, se enfiando sob sua pele.

O olhar dele varreu rapidamente as vitrines de vidro até pousar na fonte, que decidiu que só podia ser aquela: bolinhos dourados de canela com mel, cobertos de brilho, cuja doçura intensa perfumava o ar. Seu lobo se aquietou, quase satisfeito, e a boca de Julian se curvou de leve diante da própria tolice. Atravessar a rua por causa de um doce.

“Posso ajudar, senhor?”, perguntou uma voz de mulher, clara e firme.

Ele nem se deu ao trabalho de erguer os olhos. Insignificante. Quem quer que fosse, era humana — e, portanto, abaixo da atenção dele.

“Um dos bolinhos e um café grande”, disse, a voz grave e seca, mais ordem do que pedido. Enfiou a mão no paletó, tirou uma nota muito maior do que o valor da compra e a largou no balcão sem lhe dirigir um olhar sequer.

“Fique com o troco.”

Seus olhos já tinham voltado para a janela, vasculhando o hotel do outro lado da rua como se aquela parada não fosse mais do que uma distração.

Kaelani conteve uma bufada, revirando os olhos enquanto se movia para preparar o pedido. Típico. Rico, arrogante, desdenhoso — exatamente o tipo para o qual ela não tinha paciência. Ela empurrou a caixa com o doce e o copo fumegante pelo balcão com eficiência treinada.

“Pronto”, disse, num tom cortante para combinar com o dele.

Ele pegou as coisas sem olhar para ela, girou sobre o calcanhar e saiu com a mesma facilidade com que entrara. O sino acima da porta tilintou e, assim, de repente, o ar pareceu se acomodar de novo.

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