Deixe-os Se Ajoelharem

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Introdução

Kaelani passou a vida acreditando ser uma sem-lobo.
Expulsa por sua matilha. Esquecida pelos Lycans.
Ela vivia entre os humanos — quieta, invisível, escondida em uma cidade para a qual ninguém olhava duas vezes.

Mas quando seu primeiro cio chega sem aviso, tudo muda.

Seu corpo se incendeia. Seus instintos gritam. E algo primitivo se agita sob sua pele —
invocando um Alfa grande e mau que sabe exatamente como apagar seu fogo.

Quando ele a reivindica, é êxtase e ruína.

Pela primeira vez, ela acredita ter sido aceita.
Vista.
Escolhida.

Até que ele a deixa na manhã seguinte —
como um segredo que nunca deve ser dito.

Mas Kaelani não é o que eles pensavam.
Não é uma sem-lobo. Não é fraca.
Há algo ancestral dentro dela. Algo poderoso. E está despertando.

E quando despertar —
todos eles vão se lembrar da garota que tentaram apagar.

Especialmente ele.

Ela será o sonho que ele continuará perseguindo… a única coisa que já o fez se sentir vivo.

Porque segredos nunca permanecem enterrados.
E nem os sonhos.

Capítulo 1

As mãos de Kaelani conheciam o ritmo de sovar a massa melhor do que conheciam o calor de um toque. O balcão de madeira sob suas palmas estava polvilhado de farinha, e o cheiro do fermento do pão crescendo impregnava o ar. Atrás dela, os fornos zumbiam, enchendo a pequena padaria com o perfume reconfortante de açúcar e especiarias. Durante cinco anos, este lugar havia sido seu santuário. Uma vida que ela construíra com as próprias mãos — tranquila, estável, segura.

“Mais uma fornada de bolinhos de mel e canela?”, a voz de Tessa soou da parte da frente, brincalhona como sempre. “Você vai acabar com a minha silhueta se continuar fazendo isso.”

Kaelani deu um sorriso fraco, afastando uma mecha de cabelo escuro do rosto. “São os primeiros a esgotar. Você sabe disso.”

“Esgotam porque metade dos homens da cidade vem aqui esperando que você sorria para eles enquanto lhes entrega a sacola”, Tessa provocou, alto o suficiente para fazer um cliente rir ao sair.

Kaelani revirou os olhos, as bochechas esquentando enquanto afundava os punhos na massa. Era assim que as manhãs costumavam ser: Tessa provocando, Kaelani fingindo não notar. Era simples. Previsível. Humano.

Kaelani limpou as mãos no avental e caminhou até o balcão da frente, o olhar vagando distraidamente pelas amplas janelas da padaria. Do outro lado da rua, elegantes carros pretos foram parando em frente ao novo hotel. Homens em ternos impecáveis desceram, alinhados e com ar de importância, suas vozes sendo carregadas pelo vento de outono.

Um ano atrás, aquela esquina não passava de um terreno baldio tomado pelo mato. Agora, o hotel de vidro e aço erguia-se cintilante, como se sempre estivesse lá, lançando uma longa sombra sobre as antigas fachadas de tijolos. Progresso, era como as pessoas chamavam. Kaelani chamava de problema.

O hotel havia arrastado mudanças para a cidade como um convidado indesejado — forasteiros com dinheiro demais, conversas sobre expansão e até rumores de uma rodovia cortando bem no meio do campo. Não era problema dela, na verdade. Mas a padaria sempre fora um lugar para os vizinhos, para os moradores locais, para rostos conhecidos. Agora, ela via mais estranhos passando por sua porta do que nunca.

Seus olhos se demoraram na fileira de homens atravessando a calçada. Eles pareciam deslocados ali, a presença deles intensa demais, pesada demais para uma cidade tão pequena. Ternos caros, carros caros — homens que pertenciam a salas de reunião em arranha-céus, e não à frente de uma padaria de esquina na rua principal.

Tessa apareceu ao seu lado, encostando-se no vidro com um sorriso. “Ora, ora. Parece que o hotel está rendendo frutos. Está vendo eles? Saíram direto de um editorial de revista de Wall Street. Meu Deus, como são lindos.”

Kaelani balançou a cabeça levemente, limpando a farinha das mãos. “Não fazem o meu tipo”, ela murmurou, virando-se de volta para o balcão. Ela não tinha o menor interesse em estranhos que não pertenciam àquele lugar.

Tessa revirou os olhos de forma dramática antes de voltar apressada para atender um cliente que esperava.

Do outro lado da cidade, um sedã preto percorria a rua principal, atraindo vários olhares enquanto diminuía a velocidade em frente ao novo hotel. Lá dentro, Julian recostou-se no banco de couro, com o olhar frio enquanto observava a mistura de antigos prédios de tijolos e novas construções da cidade.

“Lembre-me qual é o primeiro item da pauta”, disse ele, com a voz seca, porém firme.

Jace, com as mãos relaxadas no volante, respondeu sem hesitar. “Negociações de fronteira. Alguns dos Alfas estão pressionando por um controle mais rígido da extensão norte. Alegam que o desenvolvimento humano está se aproximando demais das terras da matilha.”

Julian comprimiu os lábios. “E os outros?”

“Dois querem vender partes das terras — ser amigáveis com os humanos e encher os próprios bolsos. O resto está dividido. Se a expansão seguir em frente, só a rodovia já vai cortar bem no meio do território neutro. Todos querem uma fatia.”

Julian soltou um murmúrio baixo, sem demonstrar concordância nem desaprovação. Típico. Alfas brigando por território enquanto os humanos construíam por cima de tudo como formigas. Era por isso que o conselho havia convocado aquela cúpula, e o motivo pelo qual ele não podia se dar ao luxo de ter distrações.

O carro desacelerou na entrada do valet do hotel. A estrutura de vidro reluzente erguia-se imponente sobre eles, polida e nova, um símbolo de tudo o que os humanos estavam construindo ali.

Jace lançou-lhe um olhar rápido ao parar o carro. — Eu cuido do check-in. Chegamos cedo o bastante para ter uma ideia de quem já chegou.

Julian assentiu uma vez, empurrando a porta para abri-la. No momento em que suas botas tocaram o asfalto, uma rajada de vento cortante varreu a rua. Escapamento. Asfalto. Folhas secas. E por baixo disso — algo quente. Doce. Com especiarias. Aquilo se agarrou a ele como uma mão invisível, puxando seus sentidos.

Ele parou, dilatando as narinas. Do outro lado da rua, uma pequena padaria estava aninhada entre um antiquário e uma livraria, com a luz do sol refletindo em suas vitrines pintadas.

— Julian. — A voz de Jace trouxe sua atenção de volta; ele já estava ao seu lado, entregando as chaves ao manobrista. — Precisamos entrar.

O olhar de Julian demorou-se na padaria. Ele não sabia explicar o porquê, mas seu lobo agitou-se inquieto sob sua pele, andando de um lado para o outro.

— Encontre-me lá dentro — disse ele por fim, com um tom que não deixava margem para questionamentos.

Jace ergueu uma sobrancelha, mas não insistiu. Ele sabia que não devia. Com um dar de ombros, virou-se para as portas do hotel, deixando Julian atravessar a rua sozinho.

O sino acima da porta tilintou, agudo contra o zumbido constante da padaria. Kaelani levantou os olhos da bandeja que estava confeitando, sua mão parando no ar enquanto seu olhar se fixava no homem que acabara de entrar.

Alto. Ombros largos. Uma presença que parecia preencher a pequena loja sem esforço. Seu terno escuro traçava linhas precisas sobre um corpo feito para o poder, não para salas de reunião. A forma como ele se portava — firme, implacável, imponente — o destacava de todos os estranhos elegantes que ela já vira descer da calçada do hotel.

Seu peito se apertou. Ela crescera cercada pela espécie deles para saber exatamente o que ele era.

Alfa.

Os olhos de Kaelani correram instintivamente para o balcão, procurando por Tessa. Mas sua amiga estava se desdobrando com um grande pedido para viagem — embalando doces e servindo vários cafés enquanto um cliente esperava impacientemente —, ocupada demais para notar a forma como o ar parecia ter mudado.

Seu estômago deu um nó. Ela desprezava a espécie deles — prepotentes, perigosos, sempre famintos por controle. E agora havia um parado em sua padaria.

No momento em que Julian entrou, o calor da padaria o envolveu, denso com o cheiro de açúcar e especiarias. Aquele aroma — o mesmo que o arrastara para o outro lado da rua — rodopiava mais forte ali, entranhando-se sob sua pele.

Seu olhar varreu brevemente as vitrines de vidro até pousar na fonte que ele decidiu que devia ser: bolinhos dourados de mel e canela, cobertos com glacê, cuja doçura rica perfumava o ar. Seu lobo se acalmou, quase satisfeito, e a boca de Julian curvou-se levemente diante de sua própria tolice. Atraído para o outro lado da rua por um doce.

— Posso ajudá-lo, senhor? — perguntou a voz de uma mulher, clara e firme.

Ele não se deu ao trabalho de levantar os olhos. Insignificante. Fosse quem fosse, ela era humana — e, portanto, indigna de sua atenção.

— Um dos bolos e um café grande — disse ele, com a voz grave e seca, mais uma ordem do que um pedido. Ele enfiou a mão no paletó, tirou uma nota de valor muito maior do que o pedido exigia e a colocou no balcão sem sequer lhe lançar um olhar.

— Fique com o troco.

Seus olhos já haviam sido atraídos de volta para a janela, esquadrinhando o hotel do outro lado da rua como se aquela parada não fosse nada além de uma distração.

Kaelani conteve uma bufada, revirando os olhos enquanto se movia para preparar o pedido. Típico. Rico, arrogante, desdenhoso — exatamente o tipo para o qual ela não tinha paciência. Ela deslizou o doce na caixa e o copo fumegante pelo balcão com eficiência treinada.

— Tudo pronto — disse ela, com um tom ríspido para se igualar ao dele.

Ele pegou os itens sem olhar para ela, virou-se nos calcanhares e saiu com a mesma facilidade com que havia entrado. O sino acima da porta tilintou e, de repente, o ar pareceu se acalmar novamente.

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